DOCE DE TOMATE-DE-CAPUCHO
Nunca comi
tomates de capucho. Talvez tenha provado algum, dado uma pequena dentadinha mas
de certeza que não gostei. Se tivesse gostado, teria lembranças de os ter
comido. Do mesmo modo que não como araçás. Nunca lhes criei o gosto. Ficava e
continuo a ficar pasmado com a paixão que alguns dos meus amigos mostram quando
lhes aparece pela frente um cestinho ou um prato dos amarelados frutos.
Sou um
esquisito, diz quem me conhece bem. Outros frutos que fazem as delícias de
muita gente não me levam ao paraíso, passo bem sem eles. Refiro-me a
coração-de-negro, a papaias, manga, a pera-abacate... e outros mais que não me
ocorrem agora. Talvez porque eram frutos que não apareciam em nossa casa
durante a minha juventude. Não se assustem, eu gosto de frutas. Das mais comuns
que enfeitavam a nossa mesa, eu não deixava o meu quinhão a ninguém.
Principalmente melão (melancia é outro fruto fora da minha lista...), peras,
maçãs, uvas, laranjas, pêssegos e mais uma cantilena deles. E figos, sejam
pretos, verdes ou bico-de-mel, mesmo figos-de-banana, como agente dizia
antigamente.
Portanto,
já repararam que a minha esquisitice é moderada e selectiva. E nem abrange os
doces e compotas. Não gosto de marmelos mas gosto de marmelada; Não me importo
com amoras frescas mas consolo-me com doce de amora, daquele que a minha amiga
Natália faz então nem se fala.
Tenho
gosto em saber que, tal como antigamente, agora muita gente se dedica a fazer
doces e compotas em casa. Alguns, por necessidade de amealhar uns trocos
extras, outros simplesmente por que gostam de experimentar receitas e oferecer
aos amigos. Ainda assim, as prateleiras dos supermercados estão atulhadas com
frascaria proveniente de todo o mundo, com sabores exóticos a convidarem as
pessoas a uma experiência diferente. A única fábrica que eu conheci de fazer
doce, mais precisamente marmelada, era a dos meus vizinhos Ângelo e Bernadete
“Larga-a-Mecha”, mesmo ao lado da nossa casa. Usavam uns caldeirões bem
grandes, aquecidos com uns fogões Primus de tamanho gigante. Empacotada em caixinhas
de madeira e coberta com folhas de papel vegetal, a marmelada era então vendida
nas mercearias de toda a ilha. E bem gostosa que ela era, quem apanhasse agora
um pouco, barrada num papo-seco. Para acompanhar, podia ser um pacotinho de
amêndoas, das que os meus saudosos amigos também faziam. Bem, não faziam amêndoas, essas cresciam nas amendoeiras, eles
cobriam-nas com calda de açúcar de sabores e cores diferentes
. A minha
Mãe aventurava-se a fazer doce de frutas e não se saía mal. Era uma trabalheira
medonha. Cortar tomates ou uvas, misturar açúcar, vigiar a cozedura, enfrascar
e guardar para consumir ao longo do ano. Até os “piquenes” da casa ajudavam,
cortavam pedaços redondos de papel vegetal para cobrir a boca dos frascos onde
depois se derramava um pouco de cera derretida de uma vela, para garantir a
frescura. E brigavam uns com os outros, a ver quem rapava as panelas....
No quintal
da nossa casa, dependuradas nas paredes que nos separavam da casa da vizinha
Nair e da casa do Francisco da farmácia, cresciam quantidades enormes de
caiotas. Não tenho ideia de a Mãe fazer doce deste fruto, mas ainda parece que
estou a sentir na boca o aveludado do pudim flan confecionado com as caiotas. É
tal qual como eu disse acima, eu não era capaz de comer o fruto mas o pudim eu
papava-o num abrir e fechar de olhos.
E doce de
tomate-de-capucho, vocês já provaram? Há quem lhe chame Physalis,
o que imagino deve ser o nome científico da espécie. Aliás, o
tomate-de-capucho tem nomes diferentes conforme os lugares. Em Angola
chamam-lhe matipatipa; no Brasil é camapu e mesmo nos Açores também lhe chamam capucha. Já vi por aqui, na Califórnia, nas bancas dos
mercados de fruta, principalmente nos que servem a clientela latino-americana.
A este primo do Physalis os mexicanos chamam tomatillo e usam-no em saladas, em molhos e nas
famosas salsas picantes. De outras espécies da
mesma família também se fazem doces e compotas.
Sei que há
quem o faça e o vende, pelo menos no Continente português. Comercializado em
embalagens bem desenhadas, com rótulos vistosos e apresentado em pequenas
bandejas de cortiça, o doce de tomate-de-capucho está a ter boa aceitação, até
porque os produtores tiveram o cuidado de o lançar no mercado com diversos
sabores, resultado de misturas com outras frutas.
Estou
agora à espera de uma amostra para poder atestar da qualidade do produto. A não
ser que eu vá aqui à loja ao lado e compre uns quilos de tomatillos e me arme
em doceiro gourmet.
Não sei se
vai ser boa ideia, eu sou um cozinheiro bem fraquinho, nem sei fazer um ovo
estrelado. Ou como diz a minha cozinheira-mestra, a tal que já nasceu de
avental vestido, “Tu nem sequer sabes ver quando a água está a ferver!”
Lincoln,
Ca. Junho 19, 2016
João
Bendito
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