Dois
Fradiques
Para encontrar esse outro, recuo uns
vinte anos e leio o que vem na Revolução de Setembro (jornal
influente, já se sabe) de 29 de agosto de 1869: “Habitando Paris durante muitos
anos, conheceu o Sr. Fradique Mendes pessoalmente a Carlos Beaudelaire [sic],
Leconte de Lisle, Banville e a todos os poetas da nova geração francesa”. Um
Fradique bem relacionado, como se vê e, aparentemente, afrancesado (mas quem o
não era, nesses tempos?). Só que este Fradique ia mais longe. De novo a Revolução: “O seu
espírito em parte cultivado por esta escola é entre nós o representante
dos satanistas do norte, de Coppert, Van
Hole, Kitziz, e principalmente de Ulurus, o fantástico autor das Auroras
do Mal”.
Eram quase risíveis alguns dos títulos que a Revolução
de Setembro anunciava: A Guitarra de Satã, Boleros de
Pã e Ideias Selvagens, “três vastas epopeias”
garantidamente já prontas a ler; e nelas, poemas bizarramente intitulados “Os
beijos no Calvário” e “O testamento do abutre”. Apetece dizer aquilo que
mais tarde será escrito: “Éramos assim absurdos em 1867!” O ano, já se disse,
não era 1867, mas 1869 e a diferença não é inocente. Pouco importa, contudo,
porque o espírito do absurdo e da paródia estava lá e bem vivo. Quem o
alimentava eram o jovem Eça, mais Antero de Quental e Jaime Batalha Reis.
E a mistificação deu frutos: houve quem procurasse os livros
dos tais “satanistas do norte”. Debalde: Coppert,
Van Hole, Kitziz e Ulurus apenas existiam na bem fértil imaginação
dos três amigos.
Não direi que este é um “Fradique em botão”, mas é claramente um
“primeiro Fradique Mendes” e já quase um heterónimo coletivo. Mas não nos
apressemos: falta andar algum caminho na estrada que conduz ao heteronimismo
pessoano, um caminho feito também de trabalho sobre a língua literária. Se Eça
de Queirós parece tentado a ir por aí, não o faz logo nesses anos 60 e já
em vésperas de uma outra provocação: O
Mistério da Estrada de Sintra, romance epistolar (mas isso
só depois se soube) composto em 1870 com o amigo Ramalho Ortigão.
É no Mistério que reencontramos
Fradique Mendes, mencionado numa carta da misteriosa condessa W. Numa
reunião mundana Fradique Mendes faz-se contador de proezas bizarras
e repulsivas. “Sentado num sofá com um abandono asiático, estava um homem
verdadeiramente original e superior, um nome conhecido – Carlos Fradique
Mendes”, diz a condessa do Mistério. E
acrescenta: “Fora amigo de Carlos Baudelaire e tinha como ele o olhar frio,
felino, magnético, inquisitorial.”
De novo, Baudelaire. Mas agora há
mais: Fradique (diz ainda a a condessa) “tocava admiravelmente
violoncelo, era um terrível jogador de armas, tinha viajado no Oriente,
estivera em Meca, e contava que fora corsário grego.” Sublinho: “contava que
fora corsário grego”. Fradique já não é só poeta de versos por conhecer; ele é
também contador de histórias. Uma dessas histórias é a de uma amante
antropófaga que, no ardor da paixão, lhe ia levando um braço. Palavras de
Fradique, perante um auditório estupefacto: “A pobre criatura (…) untava os
cabelos com um óleo ascoroso. Eu seguia-a pelo cheiro. Um dia, exaltado de
amor, aproximei-me dela, arregacei a manga e apresentei-lhe o braço nu. Queria
fazer-lhe aquele mimo! Ela cheirou, deu uma dentada, levou um pedaço longo de
carne, mastigou, lambeu os beiços e pediu mais. Eu tremia de amor, fascinado,
feliz em sofrer por ela. Sufoquei a dor, e estendi-lhe outra vez o braço…
(…) Comeu mais (…), gostou e pediu outra vez.”
Não se sabe até onde chega o
repasto. O que se sabe é que este Fradique fica por aqui. Como quem diz: chega
de paródia, porque os anos 70 serão, para Eça, anos de construção de
personagens a valer e não de congeminação de heterónimos, mesmo que “em botão”.
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