A vida em
cena
O Carnaval representa quase como um período de tréguas com as chatices corriqueiras. Mesmo que apeteça chorar, as pessoas dão para rir num pranto de folia. A ambiguidade espiritual é traduzida fielmente nos palcos de sociedades e casas de Povo por toda a Terceira, em forma de danças, bailinhos e comédias.
A crítica social enreda dramas e comédias para uma plateia ávida de emoções fortes.
A freguesia, o concelho, a ilha, o arquipélago e o próprio mundo são passados em revista por cidadãos comuns do nosso dia-a-dia. O sapateiro vira doutor, o lavrador bem pode ser bêbado ou astronauta num desfiar de personagens multifacetadas à conta de uma manifestação de teatro popular sem igual.
Os figurantes e os músicos representam a coreografia das danças, cujos passos são seguidos por largos milhares à volta da ilha.
A fórmula do sucesso, com uma ou outra inovação, está mais do que encontrada.
O público acotovela-se à procura do melhor lugar e o farnel desenrasca refeições necessariamente abreviadas para não se perder o fio à meada.
É uma verdadeira loucura, sem ponta de exagero. Os inúmeros ensaios preparam atuações que se querem do inteiro agrado popular.
Há nomes de artistas e de lugares a defender com o máximo esmero possível.
E, depois, há um mar de gente a trabalhar na sombra para que tudo dê certo. Costureiras, condutores e dirigentes de sociedades remam todos para o mesmo lado.
Em quatro dias, que pegam sem remissão nas madrugadas, o povo encontra o refrão da felicidade.
Gargalhadas, intercaladas com lágrimas, envolvem o figurino humano do fenómeno. No fundo, é a nossa vida que está em cena. O melhor é deixar o tempo correr (mais uns dias, apenas) para ver, aplaudir e esperar pela dança seguinte.
joaorochagenio@hotmail.com


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