Álamo Oliveira
A
atenção centrou-se no tema sugerido pela organização: escritoras açorianas. Na
lista de temas apontados para este encontro da lusofonia, não me pareceu haver
a preocupação de se querer exorcizar silêncios nem de se estabelecer qualquer
critério de análise de coloração machista. Apesar da referência
concreta a
«mulheres escritoras», senti-me à vontade para optar, não por um trabalho com
pretensões ensaísticas, mas por um pequeno exercício sobre a ineficácia da
memória quando deixada sob a influência do que fazem prevalecer sobre o nosso
quotidiano. Por mais preparada que a consciência individual e coletiva estejam
para enfrentar o turbilhão social que todos os dias aflige a sociedade, sempre
se nos apagam as prioridades que se diriam essenciais para a nossa
sobrevivência sociocultural.
Com a barriga não se brinca e a
escrita não dá pão, mesmo quando esta acontece por parte de quem tem a
generosidade de deixar expressas orientações apaziguadoras dos conflitos que
nos afligem. Sei que é muito discutível a função redentora da escrita e, por
isso, salto fora de qualquer rito oficioso que provoque quem quer que seja.
Volto às escritoras açorianas e fico-me por uma delas.
De entre as mulheres que se
destacam no espaço literário açoriano, Adelaide Freitas ocupa um lugar
singular. Essa singularidade enforma-se de circunstâncias diversas, sendo de
relevar os propósitos que a levam a fazer da escrita uma espécie de manual de
solidariedade. Ouso lembrar os primeiros encontros, em que eu olhava para uma
mulher bonita, que sorria como se o Mundo fosse do tamanho do seu coração.
Fomo-nos encontrando de acontecimento a acontecimento e ela foi-me prendendo
com as suas comunicações – comunicações essas que ora eram de conteúdo
especificamente literário ora de cariz sociocultural, mais os serões de amena,
mas nunca gratuita, conversa. Sempre me surpreendeu a transparência do seu
pensamento, a sua capacidade de análise e a sua incomensurável sensibilidade
para tratar de assuntos que exigiam cuidados aflitivos de aproximação, os quais
sempre deram azo a soluções justas e atempadas.
Adelaide Freitas – ainda
Adelaide Baptista – somou textos sobre textos e foi-os reunindo com propósitos
de publicação, cumprindo assim a função pedagógica da partilha, situada em
vários contextos como, por exemplo, agente do ensino universitário na área das
Literaturas, tendo sido Diretora do Departamento de Línguas e Literaturas
Modernas. Foi também, durante cinco anos, Presidente do Instituto de Ação
Social, cargo que exerceu com enorme sentido de solidariedade. É deste tempo a
publicação de um conjunto de textos, sob o título de Regresso a Casa:
uma Proposta de Intervenção Social. Trata-se de uma espécie de
manual onde se define e se esclarece que os serviços sociais só existem porque
não se é capaz de proporcionar igualdade de oportunidades a cada um dos membros
da comunidade.
Dos títulos que melhor divulgam
a personalidade intelectual de Adelaide Freitas está o ensaio que constituiu a
sua tese de Doutoramento: Moby Dick a ilha e o mar – Metáforas
do carácter do Povo Americano – uma brilhante abordagem sobre uma obra
emblemática da Literatura norte-americana, e onde os Açores surgem em
apontamentos socioculturais e cenográficos num tempo de desejada emigração. A
nível de ensaios especificamente literários, relembrem-se as suas vastas
aproximações à escrita de autores açorianos, com destaque para a obra de João
de Melo. São dois volumes que vão continuar a merecer a nossa atenção. Dois
títulos com poesia e um texto de prosa poética para um álbum sobre o concelho
do Nordeste enriquecem também a sua bibliografia.
No entanto, Adelaide Freitas
voltou a surpreender com a publicação do romance Sorriso por Dentro da
Noite – um romance que não passou despercebido aos leitores mais
atentos, sendo muitos os que, então, opinaram, de forma crítica, sobre ele.
Na verdade, não se pode ignorar
um romance sobre o qual Luiz Antônio Assis Brasil escreveu: «muito poderia ser
dito (…) sobre seu estilo densamente metafórico e imagético, é possível afirmar
que estamos ante um romance de emigração, a somar-se a uma vertente ainda ativa
na literatura praticada por escritores açorianos, mas é uma inclusão meramente
conceitual e categorizadora, pois se trata de uma obra que, de certo modo,
renova esse viés literário trazendo-nos a experiência dos que ficam, entes tão
sofredores e perplexos como os que partem.» Por sua vez, Daniel de Sá
sentenciou: «Esta é a história dos «emigrados» que ficam, aqueles que partem
sem sair da ilha, porque vai o melhor deles com quem lhes leva as memórias e os
sentimentos, falando todos a mesma voz, numa espécie de discurso indirecto na
primeira pessoa, o que não quebra o ritmo da leitura, o turbilhão das ideias».
Sorriso por Dentro da Noite é,
na verdade, um livro de releituras, porque, na sua trama estrutural, há como
que um mar de propostas de entendimentos que nos conduz para opções diversas,
para diferentes estados emocionais e até para conclusões interpretativas
plurissignificantes. Em cada leitura caberá sempre um olhar outro e as
personagens, que Adelaide Freitas vai pacientemente construindo ao longo da sua
narrativa, continuando as mesmas, deixam, ao leitor, como que uma espécie de
liberdade para a reinvenção ou para adendar pormenores de caracterização.
Escrevi em 2004 que «A compreensão da nossa história social terá que passar
(pela leitura) deste livro.» Estamos perante um romance que marca,
positivamente, uma época literária nossa.
Os Açores contam com um número
considerável de escritoras. Algumas delas fazem parte da lista obrigada de nomes
a que a História da Literatura Portuguesa está sujeita, embora fique por
perceber as razões a que a nossa memória recorre para fazer desaparecer e
reaparecer, numa oscilação de maré continuada, alguns dos nomes que, nem
temporariamente, deviam submergir. Continuamos sujeitos a modas, a aniversários
que nos dão jeito, a espalhafatos celebrativos que se esgotam na sessão solene
e que prestigiam os promotores mais do que os homenageados.
Adelaide Freitas está no limbo da
memória coletiva. E não está sozinha. Tem a companhia de muitos outros,
desaparecidos ou não e que estão à espera de nada. No entanto, nem ela, nem os
seus livros merecem tamanho silêncio. Infelizmente, ela não voltará a
surpreender-nos através da escrita. Mas surpreender-nos-á sempre através dos
livros publicados, pois em cada ensaio de tema social ou literário ficou a sua
inteligência, o seu poder analítico, a sua capacidade de convencimento, os seus
saberes de âmbito universalista. A sua poesia deixa transparente a enormidade
do seu coração, como Penélope que espera fazer um Mundo melhor, utilizando o
tear onde as suas palavras se urdem com os fios preclaros dos afetos. Depois,
vem o livro que a faz autora de um só romance. Cabem, então, os adjetivos mais
laudatórios e o leitor, mesmo o distraído, entende que está perante uma grande
escritora.
Bem sei que outros nomes (de
mulheres e de homens) permanecem no limbo literário do esquecimento. O nome de
Adelaide Freitas impôs-se-me por muitas razões. A mais forte de todas: a
amizade que nos irmanou desde sempre; a maior de todas: ela ser uma brilhante
escritora açoriana da Língua portuguesa; a mais sublime: a de ela ser um
sorriso por dentro da vida.
Raminho, Janeiro de 2013

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