JORNALISMO EM DESTAQUE

485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Da Califórnia de JOÃO BENDITO


O COFRE DAS JOIAS

Dois meses antes do Natal e já estava a loja pronta para a grande época de vendas.

Não vendemos exclusivamente ofertas ou bugigangas próprias para a estação. Somos parte de uma cadeia de lojas – a segunda em tamanho na América – especializada em ferramentas, materiais de construção, electrodomésticos e tudo o mais que seja preciso para construir ou equipar uma casa de habitação. Mas, claro, chegando esta época festiva, enche-se a loja de árvores artificiais e naturais, luzes, enfeites e macacadas. E enchem-se os corredores com muitos e variados artigos em promoção, desde o mais barato martelo até às mais sofisticadas serras e berbequins eléctricos ou a baterias. 

Entrei, como de costume, às seis da manhã e fui recebido pelo colorido das decorações e pelo som das músicas de Natal. É o meu purgatório para as próximas semanas, pensei com os meus botões. Bem bom que já me habituei e não ligo muito à música, distraio-me com os afazeres e desligo a mente dos “gingobells”. Sempre é melhor do que a country-music que enche a loja noutros dias, essa então eu não tolero nem à lei da bala.

Mas vamos ao que interessa: logo pela manhã, num dos primeiros dias frios deste outono, apareceu na minha secção uma senhora que se dirigiu a mim como se eu fosse um salva-vidas. Pessoa que aparentava bem para cima dos setenta anos, muito bem vestida e cuidada, mostrando logo sinais de boa educação. Trazia na mão dois molhos de chaves, de diferentes tamanhos e feitios e queria saber se eu poderia fazer cópias de algumas delas. Claro que sim, é das coisas mais fáceis que fazemos, respondi-lhe. Contudo, pareceu-me que a senhora queria algo mais do que umas simples chaves...

Conversámos por uns minutos, com o ruído da máquina copiadora de chaves a suplantar a música-ambiente. Já conheço este género de clientes, gente que vive nos bairros próximos, quase todos idosos, reformados, e que aproveitam uma ida à loja não só para comprarem algo que necessitam mas também para conviverem com os empregados e compensarem a possível solidão em que vivem entre-portas. Fiquei a saber que a minha cliente estava muito preocupada porque queria assegurar-se que tinha chaves suficientes para todos os seus cofres. “Todos?”, perguntei eu. “Quantos cofres é que a senhora tem em casa?”, atrevi-me a indagar com um sorriso, para não parecer mexeriqueiro. Que tinha três, todos de tamanhos diferentes e ainda acrescentou que os fechava dentro uns dos outros, para maior segurança. Nunca tal coisa eu tinha ouvido, fez-me pensar que, quem sabe, esta simpática senhora poderia estar a sofrer de sintomas de demência ou coisa parecida. Sem lhe perguntar mais nada, ela voluntariou que tinha em sua posse algumas joias, herdadas de sua avó, que as escondera no gueto judeu de Warsaw, na Polónia, aquando da ocupação Nazi. “A minha mãe conseguiu recuperá-las e trouxe-as consigo quando emigrou para a América”, contou-me a senhora, com a voz repartida, mais trémula do que a tremura que lhe notei nas mãos.

Quando lhe entreguei o pequeno pacote com as novas chaves senti-me compelido a dar-lhe uma sugestão. “ Porque não aluga uma gaveta na caixa-forte de um banco, assim ficaria mais descansada e com melhor segurança?” A senhora olhou para a etiqueta do meu colete com o meu nome e, quase à laia de despedida, adiantou: “Sabes, John, eu já pensei nisso mas nunca o fiz porque aquelas joias, que até nem são muito valiosas, eu quero-as sempre junto a mim. São a única e a última ligação que tenho com a minha mãe e sobretudo, com a minha avó, que não sobreviveu ao terror do Campo de Concentração onde veio a falecer.” 

Nesse mesmo dia, quando regressei a casa, fui procurar a pequena caixa das joias que era da minha mãe. Até nem sei se ela a terá herdado de algum antepassado mas não me parece, não julgo que seja muito antiga. Mas era a caixa das joias da minha mãe e isso é suficiente para mim. Aliás, esta caixinha de madeira castanha, com aplicações brancas nos bordos e forrada no interior com um tecido de veludo azul, nunca foi guardadora de nada valioso. Algum colar de pérolas falsas, um broche de filigrana em forma de borboleta ou uns pares de brincos dourados. Não era mulher de usar joias, a minha mãe. Nem tinha possibilidades monetárias para esbanjar dinheiro em adereços supérfluos. Gosto de pensar que o mais precioso que minha mãe possuía era o que ela trazia no coração.

Resta-me a consolação que tenho a possibilidade de ainda ter em meu poder a caixinha de madeira. Não preciso de três cofres para a guardar nem tenho joias para lhe meter dentro. Basta-me o facto de a poder ter nas minhas mãos e imaginar que são as mãos da minha mãe que eu seguro e afago, ver as suas unhas cor-de-pérola, tocar-lhe na pele morena, sentir o ténue bater do seu coração-cofre na ponta dos meus dedos. 

A senhora minha cliente tem cofres cheios de joias para poder recordar a sua mãe; eu tenho uma pequena caixinha, vazia de joias mas cheia de recordações e de saudades. 

Neste Natal vou deixar que as minhas netas brinquem com a caixa da minha mãe, dizer-lhes que lá dentro guardo o coração dela e alerta-las para o cheiro a tangerinas que emana do seu interior.
Sim, no Natal, as mãos da minha mãe cheiravam a doces tangerinas...
Lincoln, Ca. Novembro 25, 2018
João Bendito
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

Sem comentários:

Enviar um comentário