JORNALISMO EM DESTAQUE

485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Do jornalista João Rocha




Filomeno morreu cheiroso



                                                                               


Mais do que o acompanhamento do bacalhau na noite da consoada, a preocupação mor de Filomeno, zeloso funcionário da Biblioteca Municipal da cidade das Florzinhas, era não ser contaminado com o vírus da gripe, seja qual for a estirpe.

A obsessão era de tal ordem que Filomeno havia publicado no jornal local, “O canteiro florido”, a nota de que, neste Natal, rejeitava receber prendas, até dos parentes mais próximos – mãe (D. Celestina, distinta bisbilhoteira, com 98 anos de idade) a irmã (Idondina, com 67 anos, cujo passado de distúrbios mentais remontava ao berço) com o justificável receio de que a gripe pode até aparecer num embrulho de oferta.
Filomeno estava à beira da reforma (63 anos) e, ao longo da existência, nunca dera a menor hipótese à entrada de vírus no organismo.
Tomava duche sete vezes ao dia (dois eram consecutivos, com gel de banho à base de malvas) e só ingeria alimentos por si confecionados e, na esmagadora maioria, de origem biológica.
Como tinha um tratamento privilegiado com o diretor da biblioteca, ao qual não se cansava de gabar o feito de nunca ter apanhado uma constipação, Filomeno conseguira um período dilatado de 12 dias de férias, margem temporal mais do que suficiente para não abrir brechas a arreliações no período natalício.
A única correspondência que admitia receber era o comprovativo de pagamento de quotas da Associação de Defensores das Borboletas (sócio efetivo desde que acabara a quarta classe) e o tradicional postal do Nelinho (um amigo colorido que vivia na Austrália, apaixonado pela observação metódica das aves de arribação).
Mesmo assim, existiam regras claras: o carteiro, utilizando luvas e máscaras, depositava a correspondência na caixa postal, instalada logo ao lado do portão do jardim.
Feita a entrega, Filomeno, devidamente defendido dos perigos gripais, resgatou o impresso dos protetores das borboletas e o postal do Nelinho, seguindo-se a indispensável desinfeção com ervas aromáticas e água oxigenada.
Já eram 23H50 da noite de 24 de Dezembro e Filomeno sentia-se um verdadeiro vencedor.
Despachara a mãe e a “maluquinha” da irmã ao telefone, tendo ceado sozinho, como tanto gostava, só passando os olhos de relance pelos noticiários inócuos próprios da quadra.
Desligou o telemóvel para não ser incomodado pelas “estúpidas mensagens” de boas festas e, quando já passava alguns minutos da meia-noite, pôs-se a meditar sobre o verdadeiro sentido do Natal.
Ao jantar, além do bacalhau com uma cenoura, optou por comer uma asa de frango, sem sal, que integraria a ementa do almoço do dia 25.
 
Como pensar não era propriamente o seu forte, arriscou mais um duche para se pôr bonito e fresco no diálogo que ia encetar, via Facebook, com o tal amigo colorido da Austrália.
Quando passava o gel de malvas pelo corpo, caiu fulminado na banheira, na consequência de uma violenta paragem digestiva.
Não obstante o seu cadáver só ter sido encontrado a 1 de Janeiro, os poucos participantes no funeral de Filomeno garantem nunca terem visto um morto com um “aspeto tão saudável e cheiroso”.







Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

Sem comentários:

Enviar um comentário