QUANDO OS AMERICANOS DESCIAM A ANGRA
A cidade de Angra, com todas as suas
vicissitudes, sempre foi movimentada e o seu quotidiano recheado de motivos de
interesse, inclusive quando nas principais artérias passavam aquelas figuras
carismáticas como, por exemplo, o Domingos “praça velha”, o Joaquim “das horas”
e tantos outros dessas épocas
em que a nossa cidade tinha vida. Hoje resta o
José “greta” e o José “cagão”, sempre postado ao lado do Café Aliança,
aborrecendo uns e outros, mas é essa figura que a malta não se esquece,
sobretudo quando engraxava os sapatos na Praça Velha, rivalizando com outros
colegas que da mesma profissão faziam o seu ganha-pão, um deles o Evaristo que
diziam ser o maior concorrente do José “cagão”.
Angra tinha muita atividade, quer
comercial quer no que se concerne aos transeuntes que, diariamente, passavam
pelo burgo, nomeadamente, e como se compreende, a Rua da Sé, com paragem
obrigatória, muitas das vezes, nos degraus da Sé. E era ali que a nossa malta
se reunia para, a partir das cinco da tarde, ir ao nosso ritual diário, ou
seja, o que chamávamos de “desobriga” no estabelecimento do Tio Bailão. Uma ou
mais angélicas com um pouco de queijo de cabra, alternando-se com uma
cavaqueira sobre futebol, mas ali era “proibido” falar do Lusitânia, apesar de
muitos lusitanistas procurarem o célebre e inesquecível estabelecimento do Tio
João que teve a virtude (uma das muitas) de colocar o emblema do Angrense em
todos os filhos e agora destes para os netos. Veja-se como o filho do José
Guilherme já é o homem-forte do futebol sénior do Angrense.
Mas naquelas épocas de 50-60, Angra
tinha maior movimento quando, às sextas-feiras e aos sábados, os americanos do
Destacamento Americano da Base das Lajes desciam até aos pontos onde ficavam os
restaurantes populares, um deles o famigerado “escondidinho” na Rua do Santo
Espírito e, também, entre outros, o Gaspar ali ao lado do Teatro Angrense. Mas
esse do Gaspar era para a rapaziada o melhor que havia, visto que, ao intervalo
dos cinemas (a única coisa que existia para passar o tempo), saboreava-se uma
sanduíche (um quarto de pão grande) com feijão e/ou fígado. Era uma fila enorme
para lá se entrar. Mas, o mais curioso é que, ainda em relação aos americanos
(o que hoje já não acontece), quando surgiam em grupo a rapaziada não os deixava
em paz (sem molestar ou coisa assim parecida, sublinhe-se) e, na ponta da
língua, a frase de sempre: “one dólar”? Muitos até davam umas moedinhas ou
então comida (boa) que restava, mormente os bifes que os americanos muito
gostavam. Hoje, pelo que se conhece, os americanos ficam pelas zonas do Ramo
Grande, maior incidência para a cidade da Praia da Vitória, que também está bem
diferente e com restaurantes de muito boa qualidade. Do tempo ao tempo, como as
coisas mudaram.

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