A MESA DOS ADULTOS
O Woody Allen disse, certa vez,
que quando fazia um filme “sério” era como sentar na mesa dos adultos.
Christine Lagarde, a poderosa chefona do FMI, disse coisa parecida numa reunião
para tratar da dívida da Grécia, em 2015: “A principal emergência do momento é
restaurar o diálogo com os adultos no
recinto”. As crianças no recinto eram os
representantes do novo governo grego que tentavam, ingenuamente, salvar a
Grécia das medidas impostas pelos
grandes bancos europeus e pela elite financeira
internacional. Entre as crianças banidas da mesa dos adultos pela dona
Christine estava o ministro das finanças do recém eleito partido Syrisa, Yanis
Vaoufakis. Que acaba de lançar um livro sobre a crise grega e sua participação
na
frustrada tentativa de livrar seu pais da prisão da
dívida e tocar o coração dos credores. Título do livro: “Os adultos no
recinto”.
A Grecia recebeu o maior
empréstimo concedido a um pais na historia do mundo e o usou para sanar a
principal emergência do momento, pagar os bancos. O dinheiro não passou pela
Grécia, nem como turista. Foi direto para acalmar os grandes instituições financeiras
e o Banco Central da Europa, enquanto a Grécia era instruída, com o endosso do
FMI, a adotar um programa de austeridade punitiva para um dia, quem sabe,
merecer um lugar na mesa. Vaoufakis e o partido Syrisa não aguentaram a pressão
e deixaram o poder depois de uma breve primavera de rebeldia. O próprio
Vaoufakis descreve seu livro como o relato de uma tentativa de fuga que não deu
certo. A prisão administrada pela elite financeira do mundo é de segurança
máxima.
Vocês e eu somos as crianças no
recinto, as que a Christine Lagarde despreza. Nossas vidas são decididas na
mesa dos adultos, onde as conversas são sempre sérias e sempre concluem com a
decisão de nos castigar de um jeito ou de outro, para o nosso bem. O governo
Temer começou com o anuncio, pelo Meireles, de que gastos sociais seriam
cortados por 20 anos. O pior veio agora, no ocaso do governo Temer. Para dar
dinheiro a empresários do transporte serão cortadas verbas para a saúde e a
educação. Ponto de exclamação incrédulo!

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