Apesar de estar longe, jamais deixei de acompanhar o progresso da minha terra,
todas as questiúnculas que a envolvem no quotidiano, do desporto, da cultura,
da política, dos empresários que procuram mais e melhor, enfim, o todo de uma
ilha com os seus “prós” e “contras”.
Fui nado e criado no Corpo Santo até, sensivelmente, aos 15 anos de idade,
passando depois para o triângulo Rua de Oliveira, Quatro Cantos e Rua dos Canos
Verdes. Escusado será dizer que, grande parte do tempo, passava no Campo de
Jogos da Cidade (era assim que o chamávamos) atrás de uma bola no chamado
“campo dos rapazes” onde hoje está erguida a casa do guarda do já baptizado por
Campo Municipal de Angra do Heroísmo. Mas, quando se podia, um salto até ao
“pelado” do campo principal. Era lá que nos sentíamos como peixes em água,
porém, quando se ouvia a voz do tio António “Bolha” (saiem do campo, saiem do
campo), corríamos vertiginosamente para o campinho que, na altura, nos estava
reservado, sempre ocupado. Até havia brigas para a sua desocupação, isto por
parte daqueles que aguardavam a sua entrada. Outros, que não queriam esperar,
optavam pelo Relvão ou então o reduzido “campo dos soldados”.
Voltando ao Corpo Santo, Bairro Oriental da Cidade de Angra do Heroísmo, parava
muito no “Adro Santo” a ver os navios, a ver os barcos que regressavam da faina
da pesca, a ver, também, a carga e descarga dos lanchões que serviam os navios
que aportavam à nossa baía – Lima, Carvalho Araújo, Terceirense, Sete Cidades,
Horta, Ribeira Grande, Cedros, Arnel e tantos outros -, numa escala de um a
dois dias, excepto os navios que transportavam trigo, porque esses, para
alegria de todos nós jovens, ficavam mais tempo. E lá íamos nós com uma
saquinha apanhar o trigo que caía no chão das camionetas que faziam o
transporte para os celeiros ou, então, para a moagem do Basílio Simões. Belos
tempos. E como era engraçado ouvir o Tio Candinho, avô do Alexandre Barros,
proferir....”pixinho à borda, pixinho à borda”.
Ainda hoje tenho na retina o enorme albafar que veio, trazido pelas correntes
marítimas, parar à baía, meio-ferido, e depois puxado para o varador pelo grupo
liderado por Augusto Ávila que, ao ter conhecimento da presença daquele
mamífero (alerta dado pelo Tio Bernardo que por ali sempre andava a ver o mar
com os seus binóculos), se lançou ao mar com a sua “tripulação” (entenda-se por
grupo de pessoas que, com ele, iam ao mar)”, como era vulgar dizer-se. Muitos
desses companheiros do Tio Augusto eram jogadores do Marítimo e, a partir daí,
o Marítimo ficou a ser conhecido por “Albafares do Mar”. Um “soubriquet”
honroso, convenhamos.
E hoje o Porto das Pipas?
Pelo que leio, conta actualmente com quatro bares em funcionamento, dos quais
dois dispõem de discoteca. O Porto das Pipas apresenta-se como um dos pontos de
encontro mais concorridos da noite angrense, situação que, pelos vistos, está a
passar por acesa discussão. Há nove anos, antes de deixar a Terceira (nunca
mais voltei), apenas existia um bar que servia os passageiros que embarcavam e
desembarcavam nos chamados barcos pequenos, para além dos trabalhadores que por
ali existiam.
Deduzo que, depois dos barcos terem deixado de encostar ao molhe do Porto das
Pipas – os de menor porte -, nunca se falou tanto do PP como agora,
conseqüência também da política que aflorou em torno da possibilidade de se
construir um (ou mais, sei lá...) cais de Cruzeiro.
A verdade é que, celeumas à parte, com bares ou sem bares, com discotecas ou
sem elas, o Porto das Pipas faz parte da história da nossa terra. E muito mais
há para contar, sobretudo por parte dos mais antigos, aqueles que ainda estão
no rol dos vivos.

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