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terça-feira, 9 de julho de 2019

Do colaborador Dr. António Bulcão - Uma proposta – pela democracia



Uma proposta – pela democracia

Hoje quero perguntar a quem me lê: como poderemos livrar-nos do carreirismo e dos carreiristas que infectam cada vez mais a política nos Açores?
Quero perguntar mas gostaria que me respondessem. Que dêem ideias. Que participem. Paremos de fingir que isto não é nada connosco.

Durante muitos anos os partidos foram-se enchendo com gente que vê na política uma forma de ganhar mais dinheiro do que ganhavam na sua profissão. Trabalhando menos. Não tendo de cumprir horários. Sem grandes obrigações. 
Mas, nos últimos anos, temos vindo a assistir ao crescimento dos casos de indivíduos que vão para a política mesmo sem terem profissão. Como se a política fosse, ela própria, uma profissão. 

A partir do momento em que se instalam, não querem outra coisa. Fazem todos os possíveis e executam todas as manobras para se irem perpetuando à volta da carcaça da coisa pública. Afastam outros cidadãos da possibilidade de darem o seu contributo para o bem comum.

É um dos maiores perigos para a democracia, o carreirismo. Os cidadãos começam a ter como certo que muitos deputados e governantes vão para a política para se servir, que não para servir. Cresce o desinteresse e a abstenção.
Creio que uma solução será a lei estabelecer que qualquer cidadão que queira servir a comunidade não poderá ganhar nem mais nem menos do que ganha na sua profissão.

Claro que pagas as deslocações, estadias e alimentação. Ninguém iria pagar para fazer política. Mas também ninguém sairia das instituições públicas mais rico do que entrara.

Esta medida não afastaria, como hoje afasta, os competentes. Aqueles que, tendo boas qualificações académicas e uma profissão bem remunerada, não querem saber da política para nada, porque iriam perder dinheiro.
Por outro lado, permitiria uma selecção eficaz entre os que já têm profissão mas que ganham na mesma menos do que ganham na política. Aí se veria quem “vai” realmente para a política com espírito de servir, mais do que se servir.
Mas, sobretudo, afastaria de vez os que vêem a política como uma profissão. Até poderiam querer fazer política, mas não ganhariam nada com isso. Que fossem trabalhar, nem que fosse como serventes de pedreiro. Que fossem provar serem capazes nalguma profissão. Mas urge acabar de vez com esta dança de cidadãos que nunca trabalharam na vida serem tão bem pagas para representarem quem trabalha e desconta para os sustentar.

Só a Lei nos poderá valer. Porque os partidos não têm a menor intenção de recrutar na sociedade os mais capazes. Preferem aquelas águas paradas, em que são sempre os mesmos a candidatar-se, mesmo que pouco valham.
Exemplo paradigmático do que afirmo é o caso de César. Embora ainda não tenha sido anunciada a lista de candidatos pelo PS-Açores às Eleições para a Assembleia da República, que ocorrerão daqui a três meses, alguém tem dúvidas de que será novamente César o primeiro candidato? E de que escolherá para segundo e terceiro lugares quem não bula, não o contrarie, como já aconteceu há quatro anos?

César é o exemplo mais perfeito do carreirismo. Nunca teve uma profissão. Foi deputado regional, nacional, presidente do governo, deputado nacional outra vez. Depois de João Jardim se ter retirado, é certamente um dos políticos mais antigos no activo. Há mais de quarenta anos nisto. E quer continuar até à morte. Como se fosse um direito natural. Agindo como rei. Assegurando a dinastia, já que o filho segue exactamente os mesmos passos do papá e já anda nisto há décadas. Sendo que não quer largar o osso tão cedo. Pudera…
Mas se a Lei não lhes atribuísse mais do que ganhassem na sua profissão, teriam de largar a política e ir à procura de uma… Há que alimentar a família…
Que digam de sua justiça os que me lêem. Que se manifestem os homens e mulheres que têm honra nestas ilhas. Que não se limitem a dar-me razão numa mesa de café. Porque este vosso servo anda a pregar no deserto há 45 anos e começa a cansar-se. Poderá desaparecer destas páginas se não vierem outros juntar-se-lhe. Para fazermos qualquer coisa pela nossa terra.

Qualquer um dos que me lêem sabe bem: à vista da primeira térmita no sótão da sua casa, chamará técnicos, desinfestará, fará todos os possíveis para que não lhe caia o tecto em cima. Por quê deixar então os parasitas roerem com tanta voracidade a casa da democracia?

António Bulcão
(publicada hoje no Diário Insular)
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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