QUANDO EU FUI TESTEMUNHA ABONATÓRIA
Há anos, havia na minha freguesia, um rapaz que, a partir de uma determinada altura da sua vida, passou a ter problemas relacionados com bebidas alcoólicas. Provavelmente, provocados por uma série de vicissitudes que sofreu ao longo da sua vida, nomeadamente, o falecimento dos avós e o casamento dos tios, com quem tinha sido criado. Mais tarde, teve que regressar à casa dos pais e reaprender uma nova vida com estes e o único irmão, mais novo.
Não obstante jurar a pés juntos que iria deixar o álcool, o que é certo é que, não havia maneira de o fazer. O vício era mais dominante do que a própria vontade.
Então, uma noite, no decorrer das festas, estava eu a falar com uma amiga, completamente à vontade, visto sabermos que poderíamos estar no meio da estrada, pois o trânsito estava interrompido, enquanto decorria a festa. Quando de repente, aparece do nada, uma carrinha muito acelerada, estando eu de costas para a estrada e sem que me desse tempo de fugir, senti uma grande pancada nas pernas, como se fosse brita. Ao virar-me para trás, vi que as pernas estavam completamente ensanguentadas e com vários vidros espetados, fruto dos estilhaços de garrafas de cerveja, rebentadas pelos pneus da carrinha.
A amiga que estava comigo, levou-me a casa da mãe que era mesmo ali na praça e chamou a enfermeira Leonesa. A Leonesa ligou-me as pernas com toalhas e ala comigo para o Hospital. No Hospital, tiraram-me os vidros e coseram-me as várias suturas, ficando com as pernas ligadas. Valeu-me estar vacinada contra o tétano, pois insistiram que se não tivesse a vacina em dia, teria de o fazer.
No outro dia, lá foi o dito rapaz a minha casa, pedir-me desculpa e oferecer-se para pagar as despesas. Eu recusei e disse-lhe que não queria nada, mas que ele tomasse mais cuidado, pois qualquer dia poderia ser bem pior, atá causar a morte a alguém.
Claro que ele nunca deixou o álcool e continuou a conduzir.
Ao fim de um determinado tempo, acumulou três acidentes, onde a PSP interveio, sempre provocados pelo álcool, dois no concelho da Praia e um no concelho de Angra. Então, lá teve de ser julgado em Tribunal, neste caso, no Tribunal da Praia.
E nessa precisa altura, teve a lembrança de me pedir para ser testemunha abonatória. Pensei sobre o caso e disse-lhe que sim. Sinceramente, o dito rapaz, sem álcool, era óptima pessoa, educado e até tímido, não incomodava ninguém. Portanto, não tinha mal a dizer dele.
Fui eu e mais algumas testemunhas abonatórias. Tivemos reunião com o Advogado, pago por ele. Na dita reunião, o Advogado disse-lhe que havia hipótese de o defender da Cadeia, mas para isso, ele teria de ser internado na Casa de Saúde de São Rafael.
- Na Casa de Saúde, está fora de questão. Prefiro ir para a Cadeia. O Sr. Dr. sabe da minha profissão, eu ando ao negócio. Já viu o que é, eu estar a fazer negócio e um gajo chegar-se ao pé de mim, interessado nos meus produtos, e eu dizer-lhe que é tanto. E depois haver alguém que lhe diga - Deixa lá esse homem, que ele esteve em São Rafael. Perdia a credibilidade toda. O Sr. Dr. não acha?
Claro que o Advogado riu a bom rir, tal como os outros.
Seguiu-se o Julgamento, no Tribunal da Praia. Estava tão nervosa, que assim que o Juiz me perguntou se eu conhecia o dito rapaz e a que distância nós residíamos um do outro, eu respondi que era a 200 Km. - 200 m, quer você dizer? Disse-me o Juiz.
O que é certo, é que o rapaz não se livrou da Cadeia, pelo menos, passar a noite. Não sei precisar quanto tempo, mas ainda foram uns meses. Ficou tão traumatizado que, dizia na altura - Nunca mais vou beber! E para a Cadeia, nunca mais!
Além disso, a carta de condução foi-lhe apreendida durante dois anos, a fim de a voltar a tirar ao fim desse tempo. O que não aconteceu. E assim, pela sua teimosia, ficou sem a carta de condução e sem poder prosseguir o seu negócio normalmente, pelo menos, sem poder conduzir a carrinha.
09-07-2019
Graziela Rocha Veiga

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