O Nata (triste) de Isabel

Isabel já está habituada a viver sem prendas num mundo rodeado de brinquedos. Tem oito anos de idade, é das mais expeditas na sala de aula, faz os trabalhos de casa a tempo e horas, mas o seu empenho é pouco motivado e raramente compensado.
Vive com a mãe numa exígua e velha casa, partilhada com um irmão ainda bebé. O pai, toxicodependente e sem ocupação laboral fixa, há muito que abandonou o núcleo familiar, deixando um rasto de violência e degradação humana. A pequena Isabel precocemente tomou absoluta consciência do que é lidar diariamente com as durezas da vida.
Basta olhar para os olhos tristes e cansados da mãe, que se esfalfa a trabalhar na cozinha de um restaurante (a que se somam as horas extras de limpeza) para possibilitar o sustento possível aos filhos.
O mano (fruto doutro relacionamento da mãe da Isabel) também não dá grande contributo para alegrar o ambiente. Desconfia que aquele bebé chora demasiado, só não percebendo os motivos para que tal aconteça.
Isabel gosta de andar na escola. Os seus cadernos são velhos e nem sempre é possível comprar os livros todos reclamados pela professora.
Os pais da colega de carteira, a Teresa, são simpáticos e já lhe ofereceram roupa e brinquedos. Tudo usado, é certo, mas nada que preocupe a Isabel, que gosta mesmo é de aprender.
As férias natalícias são o problema agora. Isabel já se habituou ao facto da quadra festiva quase nem ser assinalada na sua casa.
Árvore de Natal será coisa inexistente, até por flagrante falta de espaço e assim também foi mais fácil compreender, ano após ano, a falta de comparência do senhor das barbas brancas, equipado à Coca-Cola, que se faz transportar num veículo puxado por renas e traz uma saca a abarrotar de ilusões desde a longínqua Lapónia.
A mãe dar-lhe-á dois ou três chocolates regateados na loja das compras do mês e formalizará novamente a promessa de que, para o ano “e se Deus quiser e ajudar”, as coisas são capazes de melhorar um bocadinho.
As festas natalícias passarão num ápice e a Isabel voltará a ter outros estímulos na busca do significado da esperança.
Só não lhe peçam para fazer uma redação à volta da frase esbatida: “O Natal é quando um homem quer”.

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