DEVAGAR,
PINTADO! (Devagar, amigos!)
Mestre
Chico Pintado era uma paz d’alma, não fazia mal a uma mosca.
Conheci-o
bem, era amigalhaço e compadre de meu Pai, a quem convidara para padrinho do
filho mais moço. Contámos, eu e o meu irmão Jorge, algumas estórias no livro “A
Loja do Ti Bailhão” onde Mestre Chico foi protagonista principal. A ele também
dedicou crónicas soberbamente bem escritas o meu
Amigo José Daniel Macide, por
sinal vizinho quase de porta do simpático caiador. (Quando me refiro ao JDM o
“a” de amigo sai sempre em maiúscula...)
Francisco
Pintado era um homem que era uma casa! Alto como uma torre, mais forte que um
toiro, com umas mãos que metiam respeito e um vozeirão trovejante que
acompanhava os relampejos brilhantes dos seus olhos. Pessoa alegre, de gaitada
fácil e sincera, não tinha inimigos. Chegou mesmo a ser figura preponderante na
cooperação dos Bombeiros Voluntários da cidade.
Talvez por
causa destas coisas todas alguém se terá lembrado dele para o atiçar a
enfrentar outro homem bom, numa luta de boxe. Também me lembro dele, embora não
lhe tivesse a intimidade que tinha com Mestre Chico. Belarmino Estácio era
vendedor de fruta e legumes numa barraca na Praça do Mercado. Natural da Terra
Chã – agora uma das freguesias mais famosas dos Açores, graças aos livros de
Joel Neto – Ti Belarmino era também um homem grande e pesadão, os ilhós dos
“alvaroses” americanos inquietavam-se para suportar o peso do avantajado
estômago. Bochechudo, de faces vermelhas, era estimado pelos seus clientes, a
quem servia com educação e delicadeza, convidando-os a comprarem as suas
melancias e meloas com o grito de “Ai Doce!”
Infelizmente
não tenho dados concretos sobre o combate de boxe. Imagino que terá acontecido
por altura da Segunda Guerra, quando estava em alta o entusiasmo à volta da
carreira do pugilista americano Joe Louis, campeão mundial entre 1937 e 49.
Tenho ideia que foi um evento organizado para fins de beneficência e que teve
lugar, perante grande assistência, na Cerca da Cozinha Económica. Gostaria de
poder confirmar estes dados, trago-os do fundo de memórias imprecisas, de
coisas que ouvia dizer em criança.
O mais
importante é que a luta de boxe entre os dois gigantes terceirenses, planeada
para ser uma brincadeira entre amigos, tomou um cariz diferente quando Chico
Pintado se atreveu a passar a barreira do combinado e acertou uns valentes
socos nas mais que vermelhas bochechas do Estácio. O comerciante da Terra Chã
não gostou dos avanços do caiador e, para se defender, esticava os braços e
repetia a frase que ficou famosa na gíria angrense: “Devagar, Pintado!”,
“Devagar, Pintado!”
Não sei se
os dois combatentes continuaram amigos depois da peleja. Espero bem que sim.
Veio isto tudo à baila a respeito do que tenho visto, nos nossos conturbados
dias, nas discussões e briguinhas entre amigos, mormente nesta pia de lavar
roupa suja que dá pelo nome de Facebook. Dou a mão à palmatória, eu também a
uso, publico aqui estas crónicas e, uma vez por outra, sujeito-me às vossas
críticas com comentários que alguns de vocês possam considerar meio
arrevesados, digamos assim.
É o lado
mau desta plataforma digital e que poderá ofuscar tudo o que de positivo se
possa tirar do uso dela. Entristece-me ver conversas com palavreado ofensivo,
assuntos que poderiam ter algum mérito mas que acabam desfocados, muitos
atropelos de ideias e de opiniões e bastantes faltas de respeito pelos outros
intervenientes.
Vejo por
ai rapaziada da minha idade, que já deveria ter mais juízo do que aquele que
demonstra, envolvidos em questiúnculas sem importância nenhuma mas que são
levadas a extremos inimagináveis. Já reconheço gente que parece até ter gozo em
provocar e alimentar polémicas, mesmo sabendo que podem nem ter toda a razão
pelo seu lado e sem sequer se preocuparem em esconder a vergonha caso venham a
ser desmascarados.
Vale tudo
neste mundo das discussões nas redes sociais. Ontem, por causa do discurso da
atriz Meryl Streep a desancar no Trump, uma tia e uma sobrinha quase que se
“desamigavam”, acabando por pôr água na fervura e chegado à conclusão que não
era caso para tanto. E não é só por monde da política internacional que as
brigas são animadas. A morte de Mário Soares veio trazer ao de cima sentimentos
e ideias que, nalguns casos, não foram nada abonatórios para a figura pública
que foi o antigo presidente e que, de novo, fizeram “amigos” deixarem de ser
“amigos”, não sem que trocassem uns piropos meio ofensivos. E então quando
chega ao futebol, a aldeia digital atinge raios de maluquice e fervor clubista.
Amigos de infância trocam caneladas e insultos verbais porque os árbitros só
marcam faltas a favor do adversário, dando azo a que o mesmo lance seja visto
por três ou quatro prismas diferentes e, por fim, acabam todos a desenriçar a
jogada do penálti que não existiu, pelo menos até ao domingo seguinte, quando
outros penáltis vão provocar outras discussões e mais “amizades” destroçadas.
Há quem
venha dizer que entre amigos não se deve discutir Política, Religião e Futebol.
Eu não concordo. Se a troca de ideias for feita com abertura, cordialidade e
respeito pelos argumentos alheios, não há nada de mal nisso, até pelo
contrário. Claro que podem aparecer atritos e desentendimentos mas nada que não
se resolva com um aperto de mão ou um sincero pedido de desculpas. Ou a
partilha de um bom tinto, sempre o melhor remédio.
Porque o
conheci bem, tenho a certeza absoluta que Mestre Chico Pintado se deve ter
arrependido do abuso de força que usou no rinque. O bom do Estácio não merecia
tal tratamento.
Por isso,
quando vejo estas trocas de bofetadas digitais, apetece-me gritar:
“Devagar,
amigos!”, “Devagar, amigos!”, tenham calma.
Ou como
diria minha Mãe, “Ponham juízo nessas cabeças!”
Lincoln,
Ca. 10 jan. 2017- João Bendito

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