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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Da Califórnia de João Bendito

DEVAGAR, PINTADO! (Devagar, amigos!)

Mestre Chico Pintado era uma paz d’alma, não fazia mal a uma mosca.
Conheci-o bem, era amigalhaço e compadre de meu Pai, a quem convidara para padrinho do filho mais moço. Contámos, eu e o meu irmão Jorge, algumas estórias no livro “A Loja do Ti Bailhão” onde Mestre Chico foi protagonista principal. A ele também dedicou crónicas soberbamente bem escritas o meu
Amigo José Daniel Macide, por sinal vizinho quase de porta do simpático caiador. (Quando me refiro ao JDM o “a” de amigo sai sempre em maiúscula...)
Francisco Pintado era um homem que era uma casa! Alto como uma torre, mais forte que um toiro, com umas mãos que metiam respeito e um vozeirão trovejante que acompanhava os relampejos brilhantes dos seus olhos. Pessoa alegre, de gaitada fácil e sincera, não tinha inimigos. Chegou mesmo a ser figura preponderante na cooperação dos Bombeiros Voluntários da cidade.
Talvez por causa destas coisas todas alguém se terá lembrado dele para o atiçar a enfrentar outro homem bom, numa luta de boxe. Também me lembro dele, embora não lhe tivesse a intimidade que tinha com Mestre Chico. Belarmino Estácio era vendedor de fruta e legumes numa barraca na Praça do Mercado. Natural da Terra Chã – agora uma das freguesias mais famosas dos Açores, graças aos livros de Joel Neto – Ti Belarmino era também um homem grande e pesadão, os ilhós dos “alvaroses” americanos inquietavam-se para suportar o peso do avantajado estômago. Bochechudo, de faces vermelhas, era estimado pelos seus clientes, a quem servia com educação e delicadeza, convidando-os a comprarem as suas melancias e meloas com o grito de “Ai Doce!”
Infelizmente não tenho dados concretos sobre o combate de boxe. Imagino que terá acontecido por altura da Segunda Guerra, quando estava em alta o entusiasmo à volta da carreira do pugilista americano Joe Louis, campeão mundial entre 1937 e 49. Tenho ideia que foi um evento organizado para fins de beneficência e que teve lugar, perante grande assistência, na Cerca da Cozinha Económica. Gostaria de poder confirmar estes dados, trago-os do fundo de memórias imprecisas, de coisas que ouvia dizer em criança.
O mais importante é que a luta de boxe entre os dois gigantes terceirenses, planeada para ser uma brincadeira entre amigos, tomou um cariz diferente quando Chico Pintado se atreveu a passar a barreira do combinado e acertou uns valentes socos nas mais que vermelhas bochechas do Estácio. O comerciante da Terra Chã não gostou dos avanços do caiador e, para se defender, esticava os braços e repetia a frase que ficou famosa na gíria angrense: “Devagar, Pintado!”, “Devagar, Pintado!”
Não sei se os dois combatentes continuaram amigos depois da peleja. Espero bem que sim. Veio isto tudo à baila a respeito do que tenho visto, nos nossos conturbados dias, nas discussões e briguinhas entre amigos, mormente nesta pia de lavar roupa suja que dá pelo nome de Facebook. Dou a mão à palmatória, eu também a uso, publico aqui estas crónicas e, uma vez por outra, sujeito-me às vossas críticas com comentários que alguns de vocês possam considerar meio arrevesados, digamos assim.
É o lado mau desta plataforma digital e que poderá ofuscar tudo o que de positivo se possa tirar do uso dela. Entristece-me ver conversas com palavreado ofensivo, assuntos que poderiam ter algum mérito mas que acabam desfocados, muitos atropelos de ideias e de opiniões e bastantes faltas de respeito pelos outros intervenientes.
Vejo por ai rapaziada da minha idade, que já deveria ter mais juízo do que aquele que demonstra, envolvidos em questiúnculas sem importância nenhuma mas que são levadas a extremos inimagináveis. Já reconheço gente que parece até ter gozo em provocar e alimentar polémicas, mesmo sabendo que podem nem ter toda a razão pelo seu lado e sem sequer se preocuparem em esconder a vergonha caso venham a ser desmascarados.
Vale tudo neste mundo das discussões nas redes sociais. Ontem, por causa do discurso da atriz Meryl Streep a desancar no Trump, uma tia e uma sobrinha quase que se “desamigavam”, acabando por pôr água na fervura e chegado à conclusão que não era caso para tanto. E não é só por monde da política internacional que as brigas são animadas. A morte de Mário Soares veio trazer ao de cima sentimentos e ideias que, nalguns casos, não foram nada abonatórios para a figura pública que foi o antigo presidente e que, de novo, fizeram “amigos” deixarem de ser “amigos”, não sem que trocassem uns piropos meio ofensivos. E então quando chega ao futebol, a aldeia digital atinge raios de maluquice e fervor clubista. Amigos de infância trocam caneladas e insultos verbais porque os árbitros só marcam faltas a favor do adversário, dando azo a que o mesmo lance seja visto por três ou quatro prismas diferentes e, por fim, acabam todos a desenriçar a jogada do penálti que não existiu, pelo menos até ao domingo seguinte, quando outros penáltis vão provocar outras discussões e mais “amizades” destroçadas.
Há quem venha dizer que entre amigos não se deve discutir Política, Religião e Futebol. Eu não concordo. Se a troca de ideias for feita com abertura, cordialidade e respeito pelos argumentos alheios, não há nada de mal nisso, até pelo contrário. Claro que podem aparecer atritos e desentendimentos mas nada que não se resolva com um aperto de mão ou um sincero pedido de desculpas. Ou a partilha de um bom tinto, sempre o melhor remédio.
Porque o conheci bem, tenho a certeza absoluta que Mestre Chico Pintado se deve ter arrependido do abuso de força que usou no rinque. O bom do Estácio não merecia tal tratamento.
Por isso, quando vejo estas trocas de bofetadas digitais, apetece-me gritar:
“Devagar, amigos!”, “Devagar, amigos!”, tenham calma.
Ou como diria minha Mãe, “Ponham juízo nessas cabeças!”

Lincoln, Ca. 10 jan. 2017- João Bendito
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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