
Era pequeno de estatura e tinha um carro grande
Sábado, 15 de Agosto de 2015
Funcionários aduaneiros, quantos conheci na minha adolescência-juventude,
por exemplo? Foram muitos, alguns dos quais meus primos filhos do meu tio
Henrique Silveira (vulgo Henrique “Seguro”). Gente
boa que procurava ser
equilibrada profissionalmente falando, inclusive os próprios despachantes que
conheci da família Couto (Oldemiro, Orlando e Oscildo), Guilherme Ramalho
que morava na Rua de Cima de Santa Luzia, enfim, pessoas com muita capacidade e
cuja honestidade estava sempre patente.
E já que falei de Guilherme, é sobre este antigo aduaneiro, já falecido
(aliás, como muitos outros daquele saudoso tempo) que me vou debruçar. O senhor
José Guilherme que vinha da Terra Chã num Consul grande. Lembro-me que a malta
dizia “ele é pequeno de estatura, mas tem um carro grande”. Pequeno na
estatura, mas de alma grande. Era, de fato, uma simpatia de pessoa, sempre
sorridente e conversador com as pessoas que circundavam o edifício da Alfândega
de Angra do Heroísmo, sito no Pátio de Alfândega, como era conhecido e onde,
também, durante muito tempo, funcionou a esplanada do Café Atlântico, sempre
cheia, sobretudo no dia de “São Vapor”.
Quando regressei de Angola (no Uíge para Lisboa e da capital para a ilha
Terceira no Angra do Heroísmo), no despacho da bagagem apanhei exatamente o
senhor José Guilherme, bem ao seu estilo peculiar e sem ondas de rigor
alfandegário. Dá para entender. Ele assistiu a um abraço dos meus dois primos
Rui e Tibério, que ali se encontravam perto em serviço. Foi então que percebeu
que eu tinha regressado de Angola em função do diálogo que mantive com os dois
referidos primos. Desde logo, o senhor José Guilherme passou um X (a giz branco
na minha enorme mala de madeira) e teve esta linda frase: “que seja muito feliz
neste seu regresso à sua e nossa terra”. E também me deu um abraço.
Ora, volvidos alguns anos, faço parte do grupo de amigos da família, por via
do Joel Neto que também tem Guilherme no nome. E hoje se fosse vivo, o senhor
José Guilherme rejubilaria com o êxito do seu neto, um escritor-jornalista que
tem dado muito que falar maior incidência com o seu último livro (ARQUIPÉLAGO)
que tem merecido os maiores encómios e cuja procura tem sido enorme de quem
gosta de uma boa leitura e quer, também, saber algo sobre este paradisíaco
arquipélago açoriano composto por nove ilhas e cujas gentes têm o condão de
saber receber, de dar a conhecer a verdadeira alma de um povo ilhéu.
Do senhor José Guilherme, e quando alinhavo este escrito, fica-me na retina
aquele sorriso de homem bondoso e a frase que me dirigiu quando retornei à
minha terra: “que seja muito feliz neste seu regresso à sua e nossa
terra”. E a minha felicidade passou, posteriormente, com a amizade que
sempre recebi da família, nomeadamente por parte do Joel Guilherme Neto, cuja
convivência, naturalmente, é muito maior. Só tive pena de não ter tido
possibilidades de me deslocar a Poços de Caldas quando ele aqui esteve no
Brasil.
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