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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Os "Monstros Sagrados" jamais serão esquecidos - Vitorino Nemésio



Biografia "Rouxinol e Mocho" - Homem das Ilhas e do Mundo 

Por ANTÓNIO MACHADO PIRES*

19 de Dezembro de 2001

A biografia de Nemésio é bastante o percurso da sua obra, da ficção, das crónicas, principalmente da poesia
A propósito de António Nobre, Nemésio escreveu que a biografia é "uma velha ciência que raro se deu por tal" e que o que lhe dá valor não é o somatório dos factos mas a verdade universal a partir da exemplaridade pessoal. Eis um bom
pressuposto para percorrer a vida de Nemésio, açoriano da Terceira, nascido a 19 de Dezembro de 1901, nas vésperas da República e da I Guerra, e projectado a um plano europeu de Prémio Montaigne (1974), professor universitário, romanista, romancista, poeta (poeta de tudo - se considerou), ensaísta, conferencista, homem de rádio e, no fim da vida, de televisão.
A infância decorreu na sua vila natal, a Praia de Vitória, ouvindo histórias de pescadores, frequentando a casa das tias, fazendo uma escola primária com prenúncios de êxitos intelectuais. Leia-se o conto "Cabeça da Boga" (em "Mistério do Paço do Milhafre") para entender a atmosfera de uma sociedade patriarcal, rural, conservadora, desafiada pela emigração para o Brasil e para a América do Norte.
Nemésio vem para o liceu em Angra (uma Babel da Terceira! dirá, com ironia) e aí dirige o jornal "Eco Académico" e publica, em 1916, aos quinze anos, o seu primeiro livro: "Canto Matinal" (ressonâncias de Antero e Junqueiro).
Um ano de liceu na Horta, em 1918, (portara-se mal em Angra, partira vidros e andara mal na Matemática...) deu-lhe o pano de fundo para "Mau Tempo no Canal" (começado em 1938, em Bruxelas, e acabado em Lisboa em 1944). Neste romance, documento da vida insular, inscreve a conflitualidade social dos meios pequenos e também uma história de amores e contrariedades, que havia também de ser sua, simbolizada nessa Margarida Clark Dulmo, que não era nem Margarida nem Clark Dulmo, mas modelada por uma profunda ligação afectiva que Nemésio manteve por mais de três décadas.
Os primeiros anos em Lisboa (depois de 1920) foram de jornalismo e convivência com republicanos e homens de letras. A sua iniciação ao jornalismo fez-se como repórter de "A-Pátria".
Em Coimbra estudou Direito, depois mudou para Letras, tendo sido impressionado por professores como Paulo Merea, Carolina Michaelis, Joaquim de Carvalho. Por proposta deste último, foi revisor da Imprensa da Universidade. Colaborou nas revistas "Bysancio" e "Conimbriga" e seria, com Afonso Duarte, co-fundador da "Tríptico". Colabora também na "Presença". Entretanto, transfere-se para a Faculdade de Letras de Lisboa onde, em 1931, conclui Filologia Românica com altas classificações.
Em 1926 casara, em Coimbra, com D. Gabriela Monjardino Azevedo Gomes, de quem viria a ter quatro filhos: Georgina, Jorge, Manuel e Ana Paula. Nemésio ficaria sempre muito ligado a Coimbra, onde foi a enterrar (Tovim).
Tendo projectado estudar o Liberalismo na emigração (mais uma vez o eco da importância da Terceira na causa liberal), ficou-se pelo estudo de Herculano; mas a sua tese de doutoramento, "A Mocidade de Herculano até à volta do exílio" (1934), ficaria uma referência definitiva para o erguer do vulto de Herculano. Nemésio admirá-lo-ia toda a carreira e tomá-lo-ia com frequência para tema das aulas.
Foi leitor em Montpellier (1935-39) e em Bruxelas (a partir de 1939), onde conviveu intensamente com universitários e intelectuais.
O Brasil, intuído desde a infância, e destino de emigração de familiares, foi seu lugar de visita frequente. Uma experiência de professor na Universidade da Bahia frutifica num compromisso cultural, dá-lhe oportunidade de introspecção religiosa e publica o "Conhecimento de Poesia" (ensaios sobre autores portugueses e brasileiros). Do Barroco brasileiro se ocuparia em "O Segredo de Ouro Preto" (crónicas, 1954), ao Brasil do Nordeste e do Amazonas voltaria com "Caatinga e Terra Caída" (1968), além de belos poemas brasileiros, tendo admirado Cecília Meireles e Lins do Rego, este último ousadamente comparado a Dostoievski. Quando atingiu o limite de idade, era não só professor de Cultura Portuguesa como de Literatura Brasileira.
De resto, interessou-se pela aproximação dos dois países, tendo publicado "Portugal e Brasil no Processo História Universal" (1952).
A biografia de Nemésio é bastante o percurso da sua obra, da ficção, das crónicas, principalmente da poesia.
Em 1924 publicara o primeiro volume de contos, "Paço do Milhafre" com intenções regionalistas e prefácio de Afonso Lopes Vieira. Em 1927 surgirá o romance "Varanda de Pilatos", que escolhe como espaço e tempo a Angra da sua adolescência, de fogachos amorosas e ideológicos. Os truques da ficção, ainda um pouco incipientes, deixam muito a descoberto o adolescente. A saudade das ilhas na França ditou-lhe "La Voyelle Promise" e a evocação da "lumiére açoréènne"; "O Bicho Harmonioso" (1938) tem belos poemas de simbólica e de "maravilhoso" insular ("algas, corais, estranhas maravilhas"...), sem esquecer a saudade do Pai (poema "O canário de oiro"), que lhe morrera em 1923; "Eu, comovido a Oeste" e "Nem toda a noite a vida" continuam essa dominante "saudosística" da Ilha, tomando já um acento religioso; "O Pão e a Culpa" (1955) documenta não só a sua cultura cristã como um "regresso" à fé e à "inocência" da infância, a consciência de filho pródigo e do barro humano de que é feito; "O Verbo e a Morte" (1959) é um belo livro de exercício de conhecimento pela linguagem ("casa do ser"), reflexo de leituras filosóficas, como reflexo de leituras científicas havia de ser "Limite de Idade" (1972).
Física nuclear, medicina, microbiologia, poesia de circunstância (neste caso, reflexão do momento transformada em expressão poética), a recorrente saudade da "ilha ao longe", o sentido da busca de Deus no fim da caminhada, a morte adivinhada na doença de que sabe ser portador, fazem deste livro uma obra invulgar nos homens de letras, que raro se aproximam liricamente das ciências...
Ainda tem tempo para descobrir um eros crepuscular, pujante e avassalador, que, nos poemas "a Marga", conhecidos ou a conhecer em inédito último volume de poesia, marcam um percurso existencial e sentimental pouco vulgar.
Em 1971, é convidado a fazer um programa na RTP, que intitula: "Se bem me lembro". Aqueles minutos a preto e branco, falando de tudo um pouco, com um nexo de correlação de saberes que contava com a própria espontaneidade dos gestos, conquistaram o público e provocaram centenas de cartas. Um fenómeno raro.
Um dos livros a que mais queria - e que andava revendo para reedição - era "Corsário das Ilhas". Uma "peregrinação sentimental recôndita", com camadas de erudição, história e geografia humana que não encobrem completamente o homem em revisita às suas ou à "sua" ilha... uma peça, pois, do "Jornal de Vitorino Nemésio".
Ainda em 1976, pouco antes de morrer, sai "Era do Átomo - Crise do Homem", prova da diversidade de interesses.
A "hispanidad" de Unamuno sugeriu-lhe o termo "açorianidade".
Quando morreu, em Lisboa, a 20 de Fevereiro de 1978, era já reconhecido como um dos maiores poetas e romancistas do século XX em Portugal. A síntese do seu saber deu-a ele próprio: "Cheguei a pensar em escrever eu mesmo a minha fábula, que seria o Rouxinol e o Mocho (...), pois já nos bons tempos de Coimbra eu era, entre os sábios aquiescentes, um poeta extraviado, entre os poetas maliciosos, um sábio enganado no número da porta (...)."
"Rouxinol e Mocho" - homem da sua "ilha ao longe" e do mundo.
*Professor Universitário, presidente do Seminário Internacional de Estudos Nemesianos.
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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