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quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Da escritora Graziela Veiga - HORAS INDESEJADAS...


HORAS INDESEJADAS...

Hoje, recordo o meu avô António, pai do meu pai, com alguma nostalgia, por ser o avô que mais amor deu aos netos. Então lembrei-me de um episódio engraçado que aconteceu com ele e um devedor da mercearia, visto que ele tinha comércio. E como é sabido, naquela altura, havia muitos fiados, como lhe chamávamos, ainda mais, pelo facto do meu avô ser condoído para com os mais necessitados. Naquela época, a vida não era fácil para ninguém, sobretudo para aqueles que tinham casas de família e viviam do que adquiriam ao fim de um dia de trabalho, ou seja, ganhavam o dia a trabalhar para aqueles que os contratassem, dentro das mais variadas funções.
Então, havia um determinado senhor que trabalhava para o meu avô, nas lides da terra. O meu avô pagava-lhe ao dia. Mas, como o senhor tinha algumas dificuldades, o meu avô vendia-lhe fiado da mercearia. E assim, dava-lhe a facilidade de pagar quando pudesse. Aconteceu que, certa vez, já tinha ultrapassado o prazo acordado, e o meu avô já andava aborrecido com aquela situação. E tinha razão, visto que o devedor procurava desviar o assunto sempre que o meu avô o abordava.
Um dia, porém, não conseguiu escapar ao meu avô. Era Domingo, e o dito senhor ia à habitual missa matinal, aquela que era celebrada às sete horas em ponto. Como o meu avô era madrugador, abria o comércio cedo. Antes das sete horas, lá estava ele na mercearia. No entanto, estava a fazer horas, a fim de ir à missa. E por sorte ou azar, estava à porta, quando passou o tal devedor.
A fim de disfarçar, perante a presença do meu avô que se manteve à porta, o tal senhor, vira-se para o meu avô e faz a seguinte pergunta.
- Ó António! Que horas são?
- São horas de me pagares o que deves. (disse o meu avô)
O outro, que tinha sentido de humor, não ficou envergonhado e respondeu prontamente.
- Tais horas para passarem depressa.
E perante aquela resposta, o meu avô não conseguiu ficar sério, como era suposto. No entanto, a dívida terá sido paga, descontando, aos poucos, na féria do dia.
Apesar de todos os esforços, o meu avô ainda levou bastantes calotes, pois havia pessoas que jamais pagaram o que deviam. Ainda me lembro de ter visto o livro dos fiados em casa dos meus avós. E não eram poucos. Porém, embora a maioria fosse pobre, havia mais honestidade do que hoje. Normalmente, as pessoas assumiam as dívidas e cumpriam com a sua palavra. Outros tempos!

26.08.2020
Graziela Veiga
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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