A NOSSA FESTA
(Acordei dum lindo sonho
E não esperava por esta;
Deu-me o prazer medonho
Que em rima aqui ponho.
Sonhei com a nossa festa.)
Tremoço na salgadeira;
Alcatra que sai do lume;
A massa sovada já cheira;
Minha festa tem perfume.
Começa no vinho novo,
Vindimado a capricho.
É a alegria do povo
Doido p’ra matar o bicho.
Se me tens por teu amigo,
E me acenas da rua,
Sabes que conto contigo.
A minha casa é tua.
Cá dentro, e com franqueza,
Garanto-te pela certa,
Tens sempre lugar à mesa.
A porta está aberta.
Sabe tão bem abraçar
Quem nos mima de verdade.
Nada como o brindar
Ao sabor da amizade.
Um sabor especial
Traz saúde, alegria
Ao centro do arraial;
Ao calor da cantoria.
Promete ser animada
C’o Barbeiro da Serreta,
A Turlú mais o Gaitada,
O Vital e o Caneta.
Rimam por amor à arte,
Soltando a sua veia,
Aqui ou em qualquer parte,
Deixam-nos a alma cheia.
Amanhã, na procissão,
Quero levar um andor
Dentro do meu coração
Levarei Nosso Senhor.
Nossa Senhora, de pé,
Não descansa nesse dia.
A festa faz-se com fé
No Coração de Maria.
Vai o foguete p’ró ar,
Alegria quanta queira;
O povo quer festejar
À sua rica maneira.
Na segunda, o programa
Chama toda a Terceira.
É a toirada de fama,
Toiros do José Parreira.
Escolhidos a capricho,
Só atacam quem quiser.
Vai ser povo c’ma bicho.
Arrume-se quem puder.
Saber do toiro fugir
Não é arte complicada
Para quem sabe medir
O perigo da marrada.
Qualquer pessoa prezada
Da nossa linda Terceira
Troca bem a má cornada
Pela boa bebedeira.
O beber bem determina
Se foi toirada d’estoiro.
Não há magia taurina
Se não houver Quinto Toiro.
Por isso, nos toiros do Porto,
Ao sabor da tradição,
Bicho que não é bem morto,
Nem vale meio tostão.
À corda da saudade,
Nesta sextilha honesta,
Agradeço de verdade,
Com a rima que me resta,
Ter ido à mocidade
Rever lá a nossa festa.
(Foi sonho, infelizmente,
Pesadelo, pandemia,
Vieste roubar à gente
Toda esta alegria.
Acordamos, de repente,
Só nos resta nostalgia).


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