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quarta-feira, 13 de julho de 2016

ÀS QUARTAS - FEIRAS - Da "mágica do computador"


Como não existiam fitas demonstrativas, o pretendente a astro tinha que chegar com seu violão na frente do diretor artístico da gravadora e dar o seu recado o melhor possível. Isto implicava a disponibilidade do diretor para ouvi-lo, nervosismo e tensão do candidato e, quase sempre, constrangimento para todos.
 

No dia seguinte, João Leite ligou para Imperial dizendo que gostou da canção Fora do tom, mas não aceitava o cantor Roberto Carlos. 

(...) Carlos Imperial foi categórico: sua composição só iria junto com o cantor, fora isso, nada feito. 

(...)João Leite não aceitou e ele foi com Roberto Carlos bater em outra porta.

Mais uma vez Imperial pediu ajuda ao Chacrinha, que fez uma carta de recomendação, indicando que ele levasse Roberto Carlos para ser ouvido na Copacabana Discos. 

(...)Roberto Carlos cantou então para um dirigente de plantão e este também não aprovou o cantor. "Ele não tem qualidades artísticas", justificou.
Três dias depois, Imperial e Roberto Carlos foram tentar a sorte na Continental, outra gravadora nacional. 

(...)E dessa vez Roberto Carlos nem conseguiu cantar a segunda música. Sem muito tempo ou paciência, o diretor artístico encerrou o teste, não se interessando pelo cantor. "Vozes como a dele aparecem vinte por dia", justificou a Imperial. 

Imperial e Roberto Carlos foram recebidos na Polydor pelo diretor artístico Joel de Almeida (...) Joel de Almeida não se entusiasmava muito com bossa nova e não demonstrou maior interesse por Roberto Carlos(...) Chamou a sua atenção, entretanto, o fato de que o garoto cantava realmente parecido com João Gilberto, e isto poderia ser interessante comercialmente, especialmente cantando aquela canção Fora do tom, que glosava Desafinado.

Além disso, Joel de Almeida alimentava uma velha rivalidade com Aloysio de Oliveira, o diretor artístico da Odeon. Os dois se estranhavam desde os velhos tempos do rádio, quando Joel fazia dupla com Gaúcho e Aloysio pertencia ao conjunto Bando da Lua. E Joel viu naquele garoto que imitava João Gilberto uma boa chance de provocar Aloysio de Oliveira, que se gabava de ser o lançador do papa da bossa nova. Por tudo isso, ao contrário dos diretores das outras gravadoras, Joel de Almeida aceitou gravar um disco com Roberto Carlos na Polydor - com a recomendação de que ele acentuasse ainda mais na imitação de João Gilberto.

Conhecedor dos meandros da indústria do disco, ele sabia que isto podia ficar assim por anos a fio. Imperial resolveu então blefar para pressionar a Polydor. 

(...) Imperial afirmou que o seu artista tinha convites para gravar em outras companhias de disco e que ele poderia aceitar, caso a Polydor não definisse um projeto. Ribamar ouviu pacientemente a queixa de Imperial e na mesma hora apresentou os planos que a Polydor tinha para o jovem cantor: a rescisão do contrato. Irrevogável e imediatamente. "O senhor pode assinar com quem quiser. O seu cantor está liberado", afirmou José de Ribamar, que nem consultou Joel de Almeida para tomar essa decisão.

Ele sabia que aquela tinha sido uma aposta provocativa de Joel em Aloysio de Oliveira - e uma aposta que não surtira nenhum efeito. Assim, sem choro nem vela, Roberto Carlos foi dispensado da gravadora Polydor.

Naquele momento ele era um artista sem contrato com nenhuma emissora de rádio, e agora dispensado de uma gravadora depois de fracassar no primeiro disco. Era um currículo difícil para um cantor apresentar, mas seria assim que eles partiriam para tentar uma nova chance.

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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