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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Do escritor Joel Neto


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REGRESSO A CASA
Um diário açoriano
de JOEL NETO

apanhou-me desprecatado

Terra Chã, 18 de Julho
Navegamos de regresso a casa, e comigo vêm ainda os dias finais das férias. Primeiro, o glorioso sábado de sol, com a apresentação na Calheta – e a leitura da Laura, e a introdução da Andreia, e o filme que esta fez com o Alexandre e a
Patrícia – e depois aquele regresso a casa, noite dentro, as últimas canções da banda sonora que vínhamos cantando desde a manhã ainda aos berros no leitor:

Una calma più tigrata,
più segreta di così,
prendi il primo pullmann, via
tutto il resto è già poesia

Depois, o temporal que se abateu sobre a ilha ao longo do dia de domingo, e que continuou a abater-se já após descermos à Fajã das Almas, para o jantar com que nos havíamos prometido despedirmo-nos. “O que é isto, exactamente?”, perguntava-me, fumando com a Isabel, mal abrigados da chuva que penetrava por entre o bambu. “É o quê, esta ilha? Esta paz? Uma espécie de comunhão na desolação? Chegará chamar-lhe isso?”
Agora, voltamos no barco, e a viagem prevê-se mais longa, porque fazemos um desvio à Graciosa. A Catarina consegue adormecer e eu cirando pelo convés – vou da proa ao tombadilho, converso com conhecidos que encontro pelos bares, sento-me a ler.
O mar está mexido de novo, mas a viagem acaba por passar num instante. E, à saída, vem o Gustaaf, guiando o Renault 4 do porão para o cais. Traz lá dentro o seu cravo, que levou a um concerto no Faial, e não há um centímetro de sobra no porta-bagagens – os assentos traseiros rebatidos, o cravo encaixado na perfeição dentro do automóvel.
É como se aquele Renault 4 tivesse sido construído para albergar um cravo e aquele holandês grandalhão para levar Bach e Scarlatti e Kirkpatrick através de um arquipélago assim, ligado por barcos gregos e dentro do qual navegam automóveis franceses, músicos flamengos e partituras alemãs, italianas e americanas, tornando a lembrar-nos que estamos no centro do mundo, ou de que pelo menos estávamos até o centro do mundo se mudar.
Lembro-me do Flying Dutchman, entre o sorriso e o calafrio. Desejo melhor destino tanto àquele Renault 4 como ao seu cravista. E, no entanto, anoto: um conto sobre um holandês que percorre as ilhas em barcos de cruzeiro, com um Renault 4 que traz um cravo onde toca música barroca por cidades, vilas e freguesias.
Talvez o escreva, um dia.
Enfim, descemos nós próprios com o Chrysler e apontamos à Terra Chã. Pelo meio, paramos no Henrique, a apanhar o Melville e a Jasmim. Ao ver a Catarina, a Jasmim chora de alegria.

Terra Chã, 21 de Julho
Já se joga ao prego na venda do Américo. O tronco é mais baixo do que o da Fajã, pelo que ainda estamos em soft opening. Mas as rodadas já são para valer, e os homens da Terra Chã não se entregam de mão beijada.
Ganho os primeiros jogos, só que o Américo e o Fernando logo lhe apanham o jeito. Tenho a sensação de que, em breve, já não estou sequer no top5 das redondezas. E a notícia de que, ao início desta tarde, o Chico deixou o prego lisinho em duas pancadas não me tranquiliza.
Há alguma coisa errada com aquele tronco.

Terra Chã, 22 de Julho
Voltamos à rotina matinal, passeando os cães até ao Guarita e daí novamente até aos Dois Caminhos. Havemos de fazer uma bela figura: a Catarina algo desnuda, com os seus músculos do ginásio, eu sarapintado de creme solar e chapéu de palha, por causa das sardas – ambos com um bordão de araçaleiro numa mão e um cão saltitante na outra.
Torno a lembrar-me do Gustaaf e do Renault 4 em que transporta o seu cravo, e acho que talvez se pudesse escrever um conto sobre nós também. Seria mais pícaro.

Terra Chã, 24 de Julho
Encontramos o calhau que procuramos há anos – o calhau redondo onde é possível nadar e apanhar sol e ficar a ler em silêncio, sem vivalma. Com o cabo de um garfo, apanho meio quilo de lapas, para fazer um arroz e matar saudades da Fajã, e prometo-me que para a próxima trago não só uma faca, mas a cana de pesca.
Ficamos imenso tempo ali, a ler. A certa altura emerge uma bóia e, a seguir a ela, um mergulhador. Traz um saco preto com três cavacos e umas seis sacas de algas, com uns sete ou oito quilos cada. Prende desastradamente o arpão entre as rochas, acorro a ajudá-lo e conta-me a sua história: mergulha todos os dias, as fábricas chinesas e espanholas pagam-lhe dois euros e meio por quilo de algas e os cavacos são por debaixo do pano – não quer outra vida.
Ocorre-me que, afinal, o centro do mundo talvez não tenha mudado ainda. E, em todo o caso, invejo aquele rapaz, que todos os dias mergulha no silêncio e sabe um ofício e se sustentará sempre, num mar generoso como é o do centro do mundo. 
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* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”





Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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