A chuva batia forte na janela do quarto a que denomino por meu escritório. Mesmo assim vesti a indumentária adequada para a habitual caminhada, ritual diário, mas que, por vezes, é interrompido quando a intempérie é mais forte, como aconteceu no dia de hoje (da feitura deste artigo). Ainda desci até ao
pátio do condomínio, mas, o melhor que fiz, foi tomar uma “bica” (os brasileiros não conhecem este termo) no bar mais perto e, depois, voltar para casa com a tristeza estampada no rosto por não ter caminhado durante aquele tempo que me é permitido (1H30, sensivelmente). Claro que passei para outro ritual diário, o computador, entrando no facebook para ver algumas fotos, sugestivas para um texto intrínseco.
Começando pelas fotos que nos presenteou Fernando da Costa (do Canadá) durante uma das suas permanências na ilha Terceira. E a Rua Baixinha foi mesmo óptima para recordarmos a figura do Mestre Alberto Araújo. Lembro-me que a rapaziada quando em grupo por ali passava, entrava com esta: canta Alberto, canta! Na verdade, “tio” Alberto cantava bem, sobretudo fados da Divina Amália Rodrigues. Com as suas bonitas vestes, de seda fina, Alberto Araújo sempre arranjava a sua casa (cheirosa com um belo perfume) para as suas habituais visitas, mormente os meninos que, à noite, lá iam para aprender a dançar. Aqui, deixava de ser “tio” Alberto para se apresentar como Mestre Alberto. Dois para frente, dois para traz. E o resto? O resto penso que todos já sabem esta estória. Um dia, um grupo de rapazes (eu incluído) do Corpo Santo pediu ao Mestre Alberto para ensinar a dançar. Tudo bem, mas sempre foi adiantando: estes três dias que se seguem, nada feito, porque vêm os “meninos da cidade”. Tivemos que aceitar, óbvio. Mas, entretanto, decidimos saber quem-são-quem os “meninos da cidade”? Então, fomos todos para o quintal do Fernando (tio do Hélder Alvernaz) e escondidos vimos naquela noite quem eram os “meninos da cidade”. Não lhes vou contar porque alguns já faleceram, tal como o Mestre Alberto. Mas que era gente fina, disso não tenham dúvidas. Até houve quem mandasse esta boca: eles sempre precisam do Bairro Oriental da Cidade. Enfim, as tais rivalidades, as tais invejas, as tais ciumeiras, que sempre existiam (e hoje não há?). Mas o melhor de tudo isto é que esperamos pela saída dos “meninos da cidade” e, em coro, fomos cantando: dois para frente, dois para traz. O resto já sabem, creio eu. Foi uma máxima que ficou célebre.
Mas, de Mestre Alberto Araújo, fica na memória de todos a confecção de excelente culinária, para todos os gostos e paladares. Em banquetes, em jantares de aniversários, em festas de clubes, todos comeram sem distinção de classes sócias. Aqui o ritual mudou: dois para frente para apanhar a comida no prato e dois para traz para sentar na mesa e saboreá-la. Naturalmente, com direito a duas, três ou mais repetições.

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