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terça-feira, 20 de setembro de 2016

Do jornal A União


Quando a minha filha foi talismã

Nunca fui daqueles de virar as costas aos desafios lançados. Circunstancialmente, sempre confiei no meu “savoir faire”, na minha capacidade imaginativa. E foi deste modo, que, em 1986, aceitei um convite do Sporting da Horta (delegação do Sporting de Lisboa) para levar o clube a campeão. Logrei
esse desiderato, para gáudio de todo o grupo de trabalho. Mas, aqui, confesso que minha filha, sempre presente aos fins-de-semana, foi meu talismã. Nessa altura, ela tinha cinco anos de idade e, aos domingos de manhã, deparava que a minha fisionomia mudava, isto é, apresentava indícios de preocupação, na exata medida em que, para atingir os objetivos propostos, não podia perder jogos. Expliquei-lhe, com todo o cuidado, essa situação e foi então que, com aquele ar de criança já crente, me respondeu: pai vou rezar no sentido de saíres vencedor. Até aí, tudo bem. Num fim-de-semana em que não me acompanhou, acabei mesmo por perder esse jogo, aliás, o único em que fui derrotado. A partir desse momento, acreditei cada vez mais que minha filha, nessa encruzilhada de treinador que tinha que ser campeão, foi o meu precioso talismã. 

Seguindo a sequência do fato que relatei em relação à minha filha, o título de campeão foi festejado com espumante espanhol. Aconteceu na casa de um fervoroso sportinguista, o meu bom amigo Carlos Batelão. Ele viveu intensamente a disputa desse campeonato que, na verdade, foi renhido até à derradeira jornada, jornada essa em que fomos campeões ao derrotarmos, na sua própria casa, o mais direto competidor. A noite foi bem divertida. Todos os que estiveram na casa de campo do Carlos Batelão de lá saíram bem aviados. Eu, por exemplo, não sei bem como cheguei a casa. Será que alguém me ajudou a subir três lances de escadaria...? Ainda hoje não sei. O que sei isso sim, é que, na segunda-feira de manhã, após a conquista do saboroso título, estava deitado na minha própria cama e quando acordei senti na cabeça o peso do espumante espanhol. Depois, nessa mesma segunda-feira, mais comedida, muito mais mesmo, a festa ainda continuou, mas sem espumante espanhol. Não havia mais, porque beberam todas as garrafas que o Carlos Batelão tinha em stock. 
Terminada a minha missão, abandonei a cidade da Horta e nunca mais tive notícias do Carlos Batelão. Mas, onze anos volvidos, fui lá de férias e o Carlos continuava bem disposto. Só que, infelizmente, para todos nós, essas férias não deram para estarmos todos juntos, atendendo a que, no dia 9 de Julho (cheguei no dia 6), a cidade foi sacudida por um terramoto que fez oito vítimas e que, pela sua intensidade, destruiu muitas dezenas de habituações. O forte abalo telúrico aconteceu às cinco horas e vinte minutos da madrugada do dia 9, seguido de contínuas réplicas. Acabaram as minhas férias e também o meu firme propósito de voltarmos a ter uma noite animada em casa do Carlos Batelão. Mas o pior foram aqueles que morreram soterrados e as muitas famílias que ficaram sem habitação, passando por momentos difíceis. 


Hoje, não sei se o Carlos Batelão está vivo. Vivo ou morto (espero que não), quando bebo um champanhe lembro-me sempre dessa noite de festa rija. Depois veio o título de campeão da AFH e, finalmente, vice-campeão dos Açores, de apuramento à então Série E do Campeonato Nacional da III Divisão. E não houve mais champanhe espanhol. Nem isso foi ofensa para o Fayal Sport, decano clube açoriano. É que, para quem não sabe, os verdes da Alagoa são conhecidos por espanhóis. Não sei se isso tem a ver com algum jogador espanhol que por lá tenha passado. Penso que não. E só soube desse alcunha de espanhóis quando um meu jogador, na véspera do encontro com o Fayal Sport (vencemos 3-1), me disse: “amanhã vamos arrumar com os espanhóis”. Enfim, coisinhas do futebol, das rivalidades mesquinhas. Para mim, o Fayal Sport é sempre o mais antigo dos Açores. Essa coisa de espanhóis nada tem a ver com a minha forma de estar no futebol. Naquele tempo, porque hoje quero é música, com as Emoções do Rei Roberto Carlos.



Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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