Quando a minha filha foi talismã
Nunca fui daqueles de virar as costas aos desafios lançados.
Circunstancialmente, sempre confiei no meu “savoir faire”, na minha capacidade
imaginativa. E foi deste modo, que, em 1986, aceitei um convite do Sporting da
Horta (delegação do Sporting de Lisboa) para levar o clube a campeão. Logrei
esse desiderato, para gáudio de todo o grupo de trabalho. Mas, aqui, confesso que minha filha, sempre presente aos fins-de-semana, foi meu talismã. Nessa altura, ela tinha cinco anos de idade e, aos domingos de manhã, deparava que a minha fisionomia mudava, isto é, apresentava indícios de preocupação, na exata medida em que, para atingir os objetivos propostos, não podia perder jogos. Expliquei-lhe, com todo o cuidado, essa situação e foi então que, com aquele ar de criança já crente, me respondeu: pai vou rezar no sentido de saíres vencedor. Até aí, tudo bem. Num fim-de-semana em que não me acompanhou, acabei mesmo por perder esse jogo, aliás, o único em que fui derrotado. A partir desse momento, acreditei cada vez mais que minha filha, nessa encruzilhada de treinador que tinha que ser campeão, foi o meu precioso talismã.
esse desiderato, para gáudio de todo o grupo de trabalho. Mas, aqui, confesso que minha filha, sempre presente aos fins-de-semana, foi meu talismã. Nessa altura, ela tinha cinco anos de idade e, aos domingos de manhã, deparava que a minha fisionomia mudava, isto é, apresentava indícios de preocupação, na exata medida em que, para atingir os objetivos propostos, não podia perder jogos. Expliquei-lhe, com todo o cuidado, essa situação e foi então que, com aquele ar de criança já crente, me respondeu: pai vou rezar no sentido de saíres vencedor. Até aí, tudo bem. Num fim-de-semana em que não me acompanhou, acabei mesmo por perder esse jogo, aliás, o único em que fui derrotado. A partir desse momento, acreditei cada vez mais que minha filha, nessa encruzilhada de treinador que tinha que ser campeão, foi o meu precioso talismã.
Seguindo a sequência do fato que relatei em relação à minha filha, o título de
campeão foi festejado com espumante espanhol. Aconteceu na casa de um fervoroso
sportinguista, o meu bom amigo Carlos Batelão. Ele viveu intensamente a disputa
desse campeonato que, na verdade, foi renhido até à derradeira jornada, jornada
essa em que fomos campeões ao derrotarmos, na sua própria casa, o mais direto
competidor. A noite foi bem divertida. Todos os que estiveram na casa de campo
do Carlos Batelão de lá saíram bem aviados. Eu, por exemplo, não sei bem como
cheguei a casa. Será que alguém me ajudou a subir três lances de escadaria...?
Ainda hoje não sei. O que sei isso sim, é que, na segunda-feira de manhã, após
a conquista do saboroso título, estava deitado na minha própria cama e quando
acordei senti na cabeça o peso do espumante espanhol. Depois, nessa mesma
segunda-feira, mais comedida, muito mais mesmo, a festa ainda continuou, mas
sem espumante espanhol. Não havia mais, porque beberam todas as garrafas que o
Carlos Batelão tinha em stock.
Terminada a minha missão, abandonei a cidade da Horta e nunca mais tive
notícias do Carlos Batelão. Mas, onze anos volvidos, fui lá de férias e o
Carlos continuava bem disposto. Só que, infelizmente, para todos nós, essas
férias não deram para estarmos todos juntos, atendendo a que, no dia 9 de Julho
(cheguei no dia 6), a cidade foi sacudida por um terramoto que fez oito vítimas
e que, pela sua intensidade, destruiu muitas dezenas de habituações. O forte
abalo telúrico aconteceu às cinco horas e vinte minutos da madrugada do dia 9,
seguido de contínuas réplicas. Acabaram as minhas férias e também o meu firme
propósito de voltarmos a ter uma noite animada em casa do Carlos Batelão. Mas o
pior foram aqueles que morreram soterrados e as muitas famílias que ficaram sem
habitação, passando por momentos difíceis.
Hoje, não sei se o Carlos Batelão está vivo. Vivo ou morto (espero que
não), quando bebo um champanhe lembro-me sempre dessa noite de festa rija.
Depois veio o título de campeão da AFH e, finalmente, vice-campeão dos Açores,
de apuramento à então Série E do Campeonato Nacional da III Divisão. E não
houve mais champanhe espanhol. Nem isso foi ofensa para o Fayal Sport, decano
clube açoriano. É que, para quem não sabe, os verdes da Alagoa são conhecidos
por espanhóis. Não sei se isso tem a ver com algum jogador espanhol que por lá
tenha passado. Penso que não. E só soube desse alcunha de espanhóis quando um
meu jogador, na véspera do encontro com o Fayal Sport (vencemos 3-1), me disse:
“amanhã vamos arrumar com os espanhóis”. Enfim, coisinhas do futebol, das
rivalidades mesquinhas. Para mim, o Fayal Sport é sempre o mais antigo dos
Açores. Essa coisa de espanhóis nada tem a ver com a minha forma de estar no
futebol. Naquele tempo, porque hoje quero é música, com as Emoções do Rei
Roberto Carlos.

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