Ouvir John Lennon para não ouvir os outros
Quem me conhece, sobretudo aqueles que me têm acompanhado
neste meu trajeto jornalístico – e não só -, sabe que pauto a minha postura
pela pontualidade. Não gosto de fazer ninguém esperar, prefiro o inverso, ou seja,
ser eu a esperar por alguém em algum encontro aprazado com antecedência. E
nesta área do jornalismo já aconteceram muitos casos semelhantes, entendidos no
género de “quem precisa espera”. Devia ser cinquenta-cinquenta, todos
precisamos uns dos outros nesta coisa de comunicar e consequentemente divulgar.
Muitos entendem que só a mídia precisa das suas notícias, das suas entrevistas
e por aí fora. Na minha ótica (e creio que não estou errado), não é bem assim.
Quando viajava regularmente entre ilhas, Açores-Lisboa-Açores e estrangeiro,
nomeadamente para os Estados Unidos e Canadá, as mais frequentes, sempre
cheguei aos respectivos aeroportos nos horários estipulados pelas companhias
então utilizadas. Porém, numa viagem para a Alemanha, a primeira a convite do
meu querido amigo Carlos Borba para acompanhar o Festand na cidade de Immenstad
(sul da Baviera, a três horas de distância de Munique), tive como companheiro
esse extraordinário atleta de nome Paulo Massinga (por onde anda ele?) que
também foi participar no dito Festand (evento internacional dedicado à
modalidade de atletismo). Para me apanhar no hotel via aeroporto internacional
de Lisboa, o Massinga já chegou um pouco atrasado contra a minha vontade, mas
sempre deu para nos mantermos no horário para efetuarmos o check-in, apesar da
fila ser enorme, visto que o avião com destino a Munique estava lotado. Mas
aqui o “pior” estava para acontecer. Já com a chamada para o embarque, o Paulo
Massinga decidiu-se por ir para o telefone falar com a namorada e eu à espera
que ele se despedisse da noiva para nos dirigirmos para a sala de embarque.
Continuou o taran-tantan-tantan (amoroso, claro) e, a dado momento, uma chamada
de urgência pela sonora do aeroporto: “passageiros senhores Carlos Silva e
Paulo Massinga, façam o favor de comparecer na sala de embarque”. Aí é que fui
aos arames, como sói dizer-se na gíria popular. Blasfemei entre dentes e acabei
mesmo por ir puxar por um braço do Massinga para seguirmos até à porta 14,
salvo erro. Aí outra surpresa: um autocarro vazio à nossa espera, o que
significa que o avião atrasou uns minutos por culpa dos dois passageiros que
estavam em falta na lista de embarque. Quando entrei na aeronave reparei, desde
logo, no descontentamento dos passageiros e por esse fato andei rápido para o
meu lugar, peguei nos auscultadores e, por sorte minha, John Lennon cantava
Imagine, uma das minhas músicas preferidas. Deu mesmo para relaxar e não ouvir
os comentários das outras pessoas próximas. Quantos nomes feios nos foram
dirigidos? Acredito que muitos. Em alemão passava ao lado, mas as dos
portugueses... Imagine-se... Eu imaginei a ouvir John Lennon a cantar
Imagine.

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