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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Do jornal A União


A desobriga... que me obriga!



O meu querido amigo, João Celestino dos Santos Bendito, emigrado para a Califórnia, casado com a Alice que ainda é minha prima (não me perguntem o grau, porque disso ando desfasado) e da família da mãe guardo gratas recordações. Sempre tive com esses primos (para além da Angelina, a Laura, o
José, o Henrique, o Tibério, o Rui, o Frederico) uma ligação bastante agradável, não esquecendo o Tio Henrique (Seguro) e a Tia Angelina. Não esquecendo ainda que era um “habitué” da árvore de fruto muito cobiçada que existia no quintal.

Os tempos foram passando céleres (basta olhar hoje para as nossas idades) e alguns seguiram o seu rumo. Eu, para muitos inesperadamente (e com toda a propriedade quem assim pensa), rumei para o Brasil, enquanto que outros emigraram para os States, não deixando, porém, de referir que há ainda malta daquele tempo que continua na santa terrinha. Falta o JD Macide, mas continua bem vivo na nossa memória e, “no outro lado da vida” nos espera para tomarmos uma fresquinha, certamente numa improvisada Portugália ou, idem, idem, em um Café Aliança com esplanada bem preparada e com “garçons” vestidos a preceito.

O João Bendito entendeu, em boa hora, escrever algumas memórias passadas na loja do seu pai, o nosso querido amigo Tio João Bailão, que certamente já fez uma visitinha ao Macide e, à nossa saúde (a do grupo, subentenda-se), tomaram uma angelica da ordem, preparada por algum santo que também gosta da sua pinga. São Pedro, esse não faz parte da lista porque só pensa em água e angelica com água só faz mal ao estômago.

Ora, nessas ditas memórias, que já estão a ser preparadas com o devido cuidado, o João fala da desobriga, fato que me obriga a alinhavar mais um escrito dentro da linha que vou mantendo neste matutino. Mas vejamos o que escreveu o João Bendito sobre o grupo, que é mais importante do que eu estar aqui no toca-toca para a frente:

“Mas o grupo da desobriga era diferente. Não me recordo como começou o ajuntamento deste pequeno aglomerado, é um daqueles mistérios sem explicação. Era ali no canto da Flórida que nos encontrávamos por volta das cinco da tarde. J D Macide descia da Miragaia do escritório da Sata, o CA (Tirolé) subia da Rua Direita do consultório onde fazia análises clínicas, o Marcolino, com o seu andar escorregadio, safava-se da Junta Geral e ali se reuniam comigo, com o João Câmara, com o Sílvio Lourenço e, esporadicamente, o Oldemiro Rego. Trocávamos umas conversas, fazíamos permuta de alguma notícia de última hora, cortávamos na casaca de alguém que passava na pressa das suas vidas e então aparecia uma voz que lançava o desafio: quem é que paga a desobriga hoje?

Na loja, eu encarregava-me de lavar os cálices (bem lavados), ir ao barril tirar umas angelicas bem fresquinhas e pronto estava a reunião terminada. Tio João a todos cumprimentava com o seu costumeiro “Os senhores como estão?” e eu, que não tomava parte na rodada de bebidas, por vezes não cobrava nada pelo gasto, como se fosse a minha vez de pagar. Depois, Marcolino apanhava a camioneta da EVT em direção às Cinco Ribeiras e os outros destroçavam para casa na hora do jantar.

“No dia em que completei 21 anos presentearam-me os meus amigos com um livro (Os Capitães da Areia, de Jorge Amado) e deixaram-me uma dedicatória composta e dactilografada pelo Marcolino que ainda guardo hoje com saudade”.

É verdade, meu amigo João, saudade, velha máxima do cancioneiro português. Saudades desse tempo, saudades desse grupo, ao qual juntamos, com toda a justiça, pela pachorra que tinha para nos aturar (no bom sentido, claro), o Tio João, que não gostava nada que se falasse do Lusitânia. Bem vistas as coisas, no grupo nem todos eram lusitanistas. Digamos que havia equilíbrio clubístico. E na família do Tio João, nem pensar que alguém sonhasse com o emblema verde-e-branco. Como sempre foram bons filhos, seguiram o conselho do pai. O José Guilherme, inclusive, passou pelo clube várias vezes com chefe do departamento de futebol e agora é o filho (a quem saiu tão alto?) que seguiu as pegadas do pai. Ena, Tio João, a rapaziada tem cumprido com a sua linha de rumo traçada.

Desobriga? Lembrei-me dela o ano passado quando entrei no Copacabana com o José Henrique Pimpão (Ó Tio João, este é um lagartão dos sete costados). Bateu a saudade naquele momento, como bateu (agora mais forte) no momento em que decidi pegar no conteúdo do texto do João Bendito e lançar fogo à peça. Fogo? A angelica era mesmo fogo.


Nota final – Durante a minha permanência na Terceira (fez agora um ano pelo Natal e Ano Novo), não encontrei o Oldemiro nem o Marcolino Candeias. O João Câmara sempre presente e o Sílvio Lourenço no Café Aliança. O Macide, este, também passou pelo meu pensamento, o que acontece com regular frequência.

É malta hoje vai uma desobriga à saúde de todos nós, em especial do João Bendito lá pelas Américas (Califórnia) com a sua bonita coleção de miniaturas. Quantas de angelica? Um  bom número, por certo...


Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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