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485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A bola e o campo na memória


Artigo de João Rocha
joaorochagenio@hotmail.com





Tudo se desenrola entre as décadas de setenta/oitenta do século findo.
O campo de ação tinha cerca de 100 metros de comprimento e era de terra batida.
Jogar à bola, no velhinho Municipal de Angra do Heroísmo, constituía um

verdadeiro privilégio para a rapaziada da minha época habituada a divertir-se em plena rua.

O prazer abrangia múltiplas formas. Nas enormes férias de verão da escola, assim como antes, no intervalo e após os jogos que atraíam pequenas multidões à sala de visitas do futebol angrense.

A regra resumia-se à inexistência de… regras. Os árbitros não eram para ali chamados. Os donos da bola e os mais fortes fisicamente decidiam os lances de maior polémica.

Como jogávamos em reduzidas parcelas do terreno, os postes das balizas eram representados por camisolas, enquanto a barra situava-se no plano da imaginação.

Com os ânimos exaltados, lá aparecia a reprimenda sempre oportuna do “Tio” António Bolha, o verdadeiro guardião do campo de jogos de Angra do Heroísmo.

Corríamos à maluca com sapatilhas toscas ou pés descalços, transpirávamos imenso e festejávamos os golos e as vitórias como se não houvesse daqui a bocadinho.

Éramos heróis momentâneos até chegarmos a casa onde o poder maternal se manifestava com galhetas em nome de atrasos e nódoas injustificados.

E, quando tirávamos a pele de artistas, íamos para o peão colocar o olho e as emoções nos jogadores que representavam os nossos clubes do coração.

Aprendi a amar o Lusitânia desde pequenino. O guarda-redes Jorge Patachon, os defesas João Amaro, Dionísio, José Couto, Teves, David e Serafim I, o meio campo de luxo com Paulo Marcelino, Carlos Alberto, Adelino, Narciso, Aristides e atacantes como o saudoso Martins, Arlindo, Serafim II e Seidi continuam no baú das minhas boas recordações.

Nas férias escolares lembro-me de acordar de madrugada para ver os treinos dos lusitanistas comandados pelo treinador Mário Nunes.

O campo estava quase sempre cheio ou perto disso. No peão, que se estendia para trás das duas balizas, e na bancada com lugares para as laterais e central (onde os bilhetes eram mais caros). As emoções ficavam à conta das prestações do Lusitânia, Angrense e Marítimo.

O tempo, como sempre, correu célere e as coisas mudaram. O velhinho Municipal de Angra é atualmente um sofisticado e moderno recinto desportivo, estatuto enriquecido pela substituição da rede de proteção (problemática para a visualização das incidências do jogo) por um seguro e vistoso circundante varandim.

Agora limito-me a observar tudo a partir da bancada. Só tenho pena de não ver crianças a jogar à bola antes e nos intervalos dos desafios oficiais. Talvez o façam nos computadores e telemóveis




Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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