O TEMPO PASSA...A CORRER!
Estava entretido a
ver fotografias antigas e deparei-me com uma que me deixou triste.
A imagem, a preto e
branco, documenta uma prova de corta-mato para alunos das escolas de Angra do
Heroísmo, realizada na Caldeira do Monte Brasil, aí por volta de 1974. Era eu,
nessa altura, professor eventual sem
habilitação
específica, um título muito comprido e pomposo que atribuíram a
uns quantos que se candidataram a vagas, criadas pelo Ministério da Educação
para compensar a falta de professores devidamente diplomados, nas escolas do
Ciclo Preparatório e Liceus do país.
Foi uma das
experiências mais enriquecedoras da minha vida. Eu sabia que não era nenhum ás
em matéria desportiva mas também não era nenhum asno. Tinha um certo jeitinho
para algumas coisas e, principalmente, tinha um gosto especial em lidar com as
crianças e jovens nas minhas aulas. Dediquei-me de todo o coração, aprendi
muito com o responsável pela minha inclusão naquela equipa de docentes, o
Professor Nuno Monteiro Paes, gozei da solidariedade e cumplicidade dos outros
colegas e, sobretudo, mereci o respeito e amizade de grande número de alunos.
Alguns ainda se lembram de mim, do mesmo modo que eu nunca os esqueci.
Ajudaram-me a crescer como homem. E, à distância de mais de quarenta anos,
apenas fico com a pena e o remorso de não ter prosseguido uma carreira no campo
do ensino, acho que poderia ter sido um professor razoável. Ficará para a minha
próxima passagem por esta (ou outra) galáxia.
Mas não há bela sem
senão. Eu não gostava de correr! E isso, para um “professor de ginástica”,
mesmo que improvisado, não ficava lá muito bem. Correr eu corria, até nem me
safava mal nas longas distâncias – logo que não fossem muito longas – mas, sinceramente, não gostava mesmo nada de
palmilhar léguas sem fim, como dizia a canção da Mocidade Portuguesa. Esse
segredo era do conhecimento do meu colega e amigo José Duarte Couto que, por
brincadeira, me dizia que ainda um dia me haveria de “trincar” e meter em
sarilhos.
Foi o que aconteceu
nessa manhã na Caldeira do Monte Brasil. O José Couto, responsável pela
organização da prova, aproveitou a oportunidade para me lançar às feras. Ele
tinha que designar uma dupla de corredores para fazerem a demonstração do percurso
e, com um sorriso sarcástico, anunciou que eu seria um dos eleitos. Eu
revirei-lhe os olhos, argumentei que estava constipado, que me doía um joelho e
mais meia dúzia de outras articulações mas não o consegui demover. Não tive
outro remédio senão correr os mais longos quatro quilómetros da minha vida!
Nunca aquela cratera me pareceu tão grande. Atrás de mim, com uma bandeira
vermelha bem levantada, o Raul Tânger, esse sim um atleta de eleição, também
não ajudava nada porque me assoprava na nuca para correr mais depressa, que
estávamos a demorar muito tempo. Penso até que só não me levou às cavalitas
apenas porque não me queria envergonhar.
Não morri. Cheguei ao
fim, afogueado, a deitar os bofes pela boca fora e com o esqueleto derreado ao
peso das barbas e da farta cabeleira, suadas em estopinhas. Alguns dos meus
alunos, os mais “engraçadinhos”, faziam-me ver que eu estava mais morto do que
vivo e o José Couto, sempre sorridente, continuava com o amigável gozo: “ Já
estás pronto para ir aos Jogos Olímpicos”.
Agora, já velhinho, afasto
para mais longe alguma remota hipótese de uma corrida. O meu médico está de
pleno acordo comigo, ainda a semana passada me disse que eu devo continuar com
as caminhadas diárias, que são suficiente para me manter em forma e melhor faria
ainda se me dedicasse a incluir no meu regime uns exercícios de yoga. Vou
pensar nisso, nunca é tarde demais para aprender coisas novas.
Entretanto, vou vendo
o meu neto correr. Canso-me menos e dá-me mais satisfação.
Gosto de ir aos “meetings”
dele. O Dominic inscreveu-se na secção de cross-country da sua escola e lá vai,
duas vezes por semana, fazer por gosto aquilo que eu sempre detestei fazer. Gosto
de ver aquele movimento de pais, professores e alunos, gosto de ver o colorido
das camisolas, os sorrisos e a camaradagem entre os atletas, a sã competição e
gosto de ouvir os gritos de “Go! Go! You can do it!!!”. Revejo nas caras destes
jovens americanos a alegria que via nos meus alunos, todos concentrados na
linha de partida e prezados a receberem os prémios no pódio da chegada. A
rivalidade que havia entre o Liceu e a Escola Industrial era intensa mas
genuína, o que o pessoal queria era ter a oportunidade de passar umas horas de
salutar convívio.
Oxalá o Dominic
continue com este gosto pelo cross-country ou trail-running, como lhe queiram
chamar. Nada melhor para manter a paz interior e a saúde física do que andar ou
correr no meio da natureza. Ele que vá correndo, que eu cá vou andando...
Disse no começo que
esta fotografia me deixou triste. Não porque já não posso correr, coisa que
realmente nunca gostei de fazer. Mas só porque vejo que o Tempo entre as minhas
corridas e as do meu neto, esse Tempo é que passou muito depressa.
Passou... a correr, o
maldito.
Lincoln, Ca. Out.27,
2016
João Bendito

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