JORNALISMO EM DESTAQUE

485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Da Califórnia - Crónica de João Bendito




O TEMPO PASSA...A CORRER!




Estava entretido a ver fotografias antigas e deparei-me com uma que me deixou triste.

A imagem, a preto e branco, documenta uma prova de corta-mato para alunos das escolas de Angra do Heroísmo, realizada na Caldeira do Monte Brasil, aí por volta de 1974. Era eu, nessa altura, professor eventual sem habilitação
específica, um título muito comprido e pomposo que atribuíram a uns quantos que se candidataram a vagas, criadas pelo Ministério da Educação para compensar a falta de professores devidamente diplomados, nas escolas do Ciclo Preparatório e Liceus do país.

Foi uma das experiências mais enriquecedoras da minha vida. Eu sabia que não era nenhum ás em matéria desportiva mas também não era nenhum asno. Tinha um certo jeitinho para algumas coisas e, principalmente, tinha um gosto especial em lidar com as crianças e jovens nas minhas aulas. Dediquei-me de todo o coração, aprendi muito com o responsável pela minha inclusão naquela equipa de docentes, o Professor Nuno Monteiro Paes, gozei da solidariedade e cumplicidade dos outros colegas e, sobretudo, mereci o respeito e amizade de grande número de alunos. Alguns ainda se lembram de mim, do mesmo modo que eu nunca os esqueci. Ajudaram-me a crescer como homem. E, à distância de mais de quarenta anos, apenas fico com a pena e o remorso de não ter prosseguido uma carreira no campo do ensino, acho que poderia ter sido um professor razoável. Ficará para a minha próxima passagem por esta (ou outra) galáxia.

Mas não há bela sem senão. Eu não gostava de correr! E isso, para um “professor de ginástica”, mesmo que improvisado, não ficava lá muito bem. Correr eu corria, até nem me safava mal nas longas distâncias – logo que não fossem muito longas – mas, sinceramente, não gostava mesmo nada de palmilhar léguas sem fim, como dizia a canção da Mocidade Portuguesa. Esse segredo era do conhecimento do meu colega e amigo José Duarte Couto que, por brincadeira, me dizia que ainda um dia me haveria de “trincar” e meter em sarilhos.

Foi o que aconteceu nessa manhã na Caldeira do Monte Brasil. O José Couto, responsável pela organização da prova, aproveitou a oportunidade para me lançar às feras. Ele tinha que designar uma dupla de corredores para fazerem a demonstração do percurso e, com um sorriso sarcástico, anunciou que eu seria um dos eleitos. Eu revirei-lhe os olhos, argumentei que estava constipado, que me doía um joelho e mais meia dúzia de outras articulações mas não o consegui demover. Não tive outro remédio senão correr os mais longos quatro quilómetros da minha vida! Nunca aquela cratera me pareceu tão grande. Atrás de mim, com uma bandeira vermelha bem levantada, o Raul Tânger, esse sim um atleta de eleição, também não ajudava nada porque me assoprava na nuca para correr mais depressa, que estávamos a demorar muito tempo. Penso até que só não me levou às cavalitas apenas porque não me queria envergonhar.

Não morri. Cheguei ao fim, afogueado, a deitar os bofes pela boca fora e com o esqueleto derreado ao peso das barbas e da farta cabeleira, suadas em estopinhas. Alguns dos meus alunos, os mais “engraçadinhos”, faziam-me ver que eu estava mais morto do que vivo e o José Couto, sempre sorridente, continuava com o amigável gozo: “ Já estás pronto para ir aos Jogos Olímpicos”.



Agora, já velhinho, afasto para mais longe alguma remota hipótese de uma corrida. O meu médico está de pleno acordo comigo, ainda a semana passada me disse que eu devo continuar com as caminhadas diárias, que são suficiente para me manter em forma e melhor faria ainda se me dedicasse a incluir no meu regime uns exercícios de yoga. Vou pensar nisso, nunca é tarde demais para aprender coisas novas.

Entretanto, vou vendo o meu neto correr. Canso-me menos e dá-me mais satisfação.

Gosto de ir aos “meetings” dele. O Dominic inscreveu-se na secção de cross-country da sua escola e lá vai, duas vezes por semana, fazer por gosto aquilo que eu sempre detestei fazer. Gosto de ver aquele movimento de pais, professores e alunos, gosto de ver o colorido das camisolas, os sorrisos e a camaradagem entre os atletas, a sã competição e gosto de ouvir os gritos de “Go! Go! You can do it!!!”. Revejo nas caras destes jovens americanos a alegria que via nos meus alunos, todos concentrados na linha de partida e prezados a receberem os prémios no pódio da chegada. A rivalidade que havia entre o Liceu e a Escola Industrial era intensa mas genuína, o que o pessoal queria era ter a oportunidade de passar umas horas de salutar convívio.

Oxalá o Dominic continue com este gosto pelo cross-country ou trail-running, como lhe queiram chamar. Nada melhor para manter a paz interior e a saúde física do que andar ou correr no meio da natureza. Ele que vá correndo, que eu cá vou andando...

Disse no começo que esta fotografia me deixou triste. Não porque já não posso correr, coisa que realmente nunca gostei de fazer. Mas só porque vejo que o Tempo entre as minhas corridas e as do meu neto, esse Tempo é que passou muito depressa.

Passou... a correr, o maldito.



Lincoln, Ca. Out.27, 2016



João Bendito


Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

Sem comentários:

Enviar um comentário