Engate
A menina dança, tem par ou descansa? A interrogação
surgia em bailes enquadrados numa época temporal já assustadoramente longínqua.
Era o jovem pretendente que arriscava um momento de sorte mesmo ameaçado pelos
olhos reprovadores dos progenitores das donzelas.
Para ser franco, nem apanhei esta época. De cenário
semelhante, só me lembro de um baile nas férias de Verão em São Jorge, lá para
o final da década de oitenta do século e milénio findos.
Fiz a abordagem, a moça aceitou (os pais não estavam
por perto) e, à medida de duas/três músicas, senti-me o rapaz mais sortudo do
mundo e arredores.
Na altura, para engatar uma miúda era preciso alguma
imaginação. Sem Internet, Facebook e telemóveis os contatos não eram
assim tão diretos.
Andávamos essencialmente em grupos constituídos só por
rapazes. Com elas (e sem a nossa margem de liberdade) acontecia o mesmo.
Tínhamos de dar a cara para meter conversa. Se não
houvesse grande interesse do alvo pretendido podíamos mesmo ser alvo da chacota
feminina.
E, em muitas das vezes, optávamos por seguir
estratégias não tão sujeitas ao risco. Pedíamos a um(a) amigo(a) comum que
fizesse a ponte entre o ser desejado. Se a coisa desse para o torto (e tantas
vezes dava…) a vergonha não assumia contornos dão dolorosamente públicos.
Mas, que diabo, ocasionalmente, éramos correspondidos.
Meios a tremer e com os rostos corados ao máximo, falávamos sobre tudo em
particular e nada em especial.
Quando se chegava a este patamar, nada como ter
paleio. Aguentar uma conversa, que pode levar a um namoro, requer habilidade e
criatividade.
A vida entrava num turbilhão de sentimentos e medos.
Era arriscado contar o segredo da conquista a um colega, porque este podia
ficar chateado e utilizar um argumento recorrente: “Eu conhecia-a primeiro. E
também estou interessado nela.”.
Então se fossem da mesma turma o drama era ainda
maior. O segredo do sucesso era fazer tudo para agradar a miúda.
Disparar elogios do género: “tens uma cara laroca”,
“sem ti nem sei respirar”, “os teus pais deviam ganhar o Nobel da Genética no
ano em que nasceste”, blá, blá, lábia, lábia.
Assim, nem que fosse na matiné do domingo à tarde da
discoteca Twins Pub Disco, dos manos Almeida, existia a hipótese de dançarmos
com a adorável criatura. E se a música era propícia a um slow, a eternidade
ganhava coreografia de dança…
joaorochagenio@hotmail.com


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