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485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Do jornalista João Rocha



A voz do amor lusitanista




                                                   

                                        

Estádio das Antas, abril de 1974, poucos dias antes da Revolução dos Cravos. Em jogo para a Taça de Portugal, o Porto era anfitrião do Lusitânia, representante dos Açores na competição. O cenário era grandioso e, ao mesmo tempo, intimidatório para o clube terceirense que jogava tão longe de casa e do apoio dos seus adeptos.

Os jogadores equipavam-se nos balneários quando ouviram uma voz particularmente conhecida a incentivá-los: “bola p´ra baliza ver
des!”.
Francisco Almeida, falecido recentemente com 88 anos de idade, era o adepto que dava voz ao amor lusitanista.
Ir ao futebol, ver o seu Lusitânia jogar, constituía o ritual de todos os domingos. Um hora antes do jogo começar, sentava-se na bancada do velho Municipal de Angra do Heroísmo, na companhia da esposa e dos três filhos.
Quando o prélio se iniciava, Francisco Almeida suplantava o conceito geralmente atribuído ao adepto de um clube – o de 12º jogador.
No caso em questão, o Lusitânia era Francisco Almeida mais os 11 jogadores que o treinador escalonava para cada partida.
A bancada podia estar remetida ao silêncio, mas a sua voz não se calava no apoio ao “mais campeão dos campeões açorianos”.
Se a bola ameaçava a baliza contrária, “ai que jeito” era o comentário habitual. Se a coisa parecia emperrar para as aspirações lusitanistas, logo deixava o alerta: “quando calhar, estou à espera verdes”.
Os jogadores sabiam de cor e salteado que a “bola era p’ ra baliza”.
Todavia, nada de excessos. Quando a exibição do Lusitânia atingia o nível de gala, Francisco Almeida colocava água na fervura: “não se joga assim, olha que eles aprendem”.
Aplaudiu, de pé, incontáveis jornadas de glória do Lusitânia, emocionou-se com golos formidáveis e lances geniais.
Sabia, como ninguém, que definitivamente o Lusitânia é uma causa que vale a pena lutar nesta e em todas as vidas.
Entregava-se ao clube da Rua da Sé com a força do amor mais genuíno. Era lusitanista, de alma e coração, mas também um verdadeiro cavalheiro de esmerada educação que merecia o apreço e consideração de todos os agentes desportivos.
Mesmo na morada eterna, vislumbrará sempre a baliza que serve de inspiração aos verdes.
E, senhor Francisco Almeida, pode estar seguro de que das bancadas sairá sempre um brado triunfante de grandeza e magia.


joaorochagenio@hotmail.com
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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