Carta de amor ao Lusitânia
Ser adepto do Lusitânia foi
uma das decisões mais fáceis da minha vida. No primeiro jogo que assisti, num
domingo, com sete anos de idade, os intervenientes eram o Angrense e Marítimo.
Gostei e repeti a dose na quarta-feira seguinte, com pedido à professora Mimi,
para sair meia hora mais cedo da aula com vista a não perder pitada duma
finalíssima do Campeonato da Ilha Terceira.
O Angrense conquistou o troféu,
mas não arrebatou o meu coração. Passado pouco tempo aderi ao clube de verde e
branco, o mais campeão dos campeões açorianos, e julgo que a paixão reúne
validade até depois da eternidade.
O velhinho Campo de Jogos de
Angra passou a ser, para mim e três irmãos, quase como uma segunda casa.
Víamos juvenis, juniores,
reservas e equipas principais. O meu “prato” futebolístico de eleição exibia-se
quando entrava em cena a turma lusitanista.
Condição prévia para os dois
verdes da família (eu e o Luís, enquanto o Mateus e o Guilherme alinhavam pela
devoção ao Angrense) – acompanhávamos sempre o ataque do Lusitânia,
situando-nos o mais perto possível da baliza do adversário.
A verdadeira ação decorria por
esta zona do terreno. O Lusitânia tinha o simpático hábito de massacrar o
opositor.
Os seus futebolistas (agora
praticamente todos no lote dos amigos pessoais) vestiam, aos meus olhos, a pele
de verdadeiros heróis.
Vou, de cabeça, citar alguns.
Jorge Teixeira, vulgo Patachon, Avelino, Paulo Marcelino, Carlos Alberto,
Dionísio, Balaia, João Maria, João Amaro, Seidi, Couto, Teves, Adelino, João
Gabriel, Arlindo, Serafim I, Serafim II, Martins, Armando Fontes, Jorge
Jacinto, Narciso, Hélio e David Leiteiro.
Afirmo, com indisfarçável
orgulho lusitanista, que cresci no tempo em que a minha equipa ganhava por
cinco a zero ao Santa Clara e o melhor em campo era sistematicamente o guardião
Xalim dos micaelenses.
Não falhava a nenhuma partida
em casa e acompanhava as deslocações do Lusitânia, ao Continente, pela voz
inconfundível do camarada/amigo Norberto Barcelos e, em tempo de férias
escolares, marcava presença a cair de sono nos treinos logo pelas sete da manhã.
O Lusitânia começou a competir
na III Divisão Nacional de futebol, Série “E”, e rapidamente trilhou o caminho
do sucesso, subindo à II Divisão, Zona Sul.
Sábado, 20 de maio de 1980.
Sou operado de emergência a uma apendicite aguda. A caminho da “sala de corte”
pergunto se posso ir ver o jogo do Lusitânia no dia seguinte. O médico responde
com um sorriso e passa-me a mão carinhosamente pela cabeça.
Perco os dois encontros
derradeiros da inesquecível época de 1979/80. Os lusitanistas disputam,
posteriormente, a fase de campeão do terceiro escalão. Atuam em Sines, com o
Vasco da Gama, e eu não consigo saber o resultado por sugestão maternal e
execução do saudoso doutor Jorge Monjardino.
Convalescente de três
operações numa semana, tento saber novidades no serviço de Pediatria.
Cheio de tubos, aproveitando a
falta de vigilância dos auxiliares e enfermeiras, arrasto-me rumo à Cirurgia e
pergunto o resultado ao primeiro acamado que encontro.
Com cara de gozo, diz-me que o
Lusitânia levou “sete cavalas”. Faltou-me o chão e pensei estrangular o sacana
do velho que, obviamente, não era dos “nossos”.
O clube da rua da Sé rima com
vitórias, emolduradas num brado triunfante de grandeza e magia.
Há ainda tempo para o lado
poético com o gesto nobre do malogrado Martins a desenfiar-se da cerimónia do
próprio casamento com vista a ajudar os companheiros a triunfar sobre o Praiense.
Uma coletividade desportiva é
como as pessoas. Passa por momentos áureos, mas também prova o fel dos maus
anos.
O Lusitânia, obviamente, não
pode fugir a esta sina. Há cerca de uma década, o cenário manifestava-se
extremamente negro. A péssima situação financeira colocava em causa a sua
existência.
Aí uns quantos seres vivos com
meio neurónio (imbecis, se preferirem) organizaram jantares festejando o desejo
quase realidade do Lusitânia fechar a porta.
A enorme alma verde uniu
forças e o Lusitânia, além de ir acertando as contas, voltou à rotina
desportiva vitoriosa.
O futebol sénior, mesmo com um
limitado orçamento, está bem e recomenda-se. O setor da formação voltou a dar
sinais evidentes de qualidade e consistência. O basquetebol faz pela vida entre
os melhores de Portugal. O futsal só nos dá motivos de alegria e a família
lusitanista continua unida e apaixonada pelo Lusitânia, como se provará
certamente sábado, 8 de abril, no pavilhão da Santa Casa da Misericórdia, em
São Carlos, pelas 13H30, em mais uma edição do fantástico e sempre comovente
Almoço Verde.
É preciso deixar claro.
Ninguém foge ao seu destino. Por esta ordem de ideias, um imbecil será imbecil
até ao caixão. Já o destino do Lusitânia é ganhar.


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