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485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Do jornalista João Rocha


Carta de amor ao Lusitânia







                                                                                  





Ser adepto do Lusitânia foi uma das decisões mais fáceis da minha vida. No primeiro jogo que assisti, num domingo, com sete anos de idade, os intervenientes eram o Angrense e Marítimo. Gostei e repeti a dose na quarta-feira seguinte, com pedido à professora Mimi, para sair meia hora mais cedo da aula com vista a não perder pitada duma finalíssima do Campeonato da Ilha Terceira.

O Angrense conquistou o troféu, mas não arrebatou o meu coração. Passado pouco tempo aderi ao clube de verde e branco, o mais campeão dos campeões açorianos, e julgo que a paixão reúne validade até depois da eternidade.
O velhinho Campo de Jogos de Angra passou a ser, para mim e três irmãos, quase como uma segunda casa. 
Víamos juvenis, juniores, reservas e equipas principais. O meu “prato” futebolístico de eleição exibia-se quando entrava em cena a turma lusitanista.
Condição prévia para os dois verdes da família (eu e o Luís, enquanto o Mateus e o Guilherme alinhavam pela devoção ao Angrense) – acompanhávamos sempre o ataque do Lusitânia, situando-nos o mais perto possível da baliza do adversário.
A verdadeira ação decorria por esta zona do terreno. O Lusitânia tinha o simpático hábito de massacrar o opositor.
Os seus futebolistas (agora praticamente todos no lote dos amigos pessoais) vestiam, aos meus olhos, a pele de verdadeiros heróis.
Vou, de cabeça, citar alguns. Jorge Teixeira, vulgo Patachon, Avelino, Paulo Marcelino, Carlos Alberto, Dionísio, Balaia, João Maria, João Amaro, Seidi, Couto, Teves, Adelino, João Gabriel, Arlindo, Serafim I, Serafim II, Martins, Armando Fontes, Jorge Jacinto, Narciso, Hélio e David Leiteiro.
Afirmo, com indisfarçável orgulho lusitanista, que cresci no tempo em que a minha equipa ganhava por cinco a zero ao Santa Clara e o melhor em campo era sistematicamente o guardião Xalim dos micaelenses.
Não falhava a nenhuma partida em casa e acompanhava as deslocações do Lusitânia, ao Continente, pela voz inconfundível do camarada/amigo Norberto Barcelos e, em tempo de férias escolares, marcava presença a cair de sono nos treinos logo pelas sete da manhã.
O Lusitânia começou a competir na III Divisão Nacional de futebol, Série “E”, e rapidamente trilhou o caminho do sucesso, subindo à II Divisão, Zona Sul.
Sábado, 20 de maio de 1980. Sou operado de emergência a uma apendicite aguda. A caminho da “sala de corte” pergunto se posso ir ver o jogo do Lusitânia no dia seguinte. O médico responde com um sorriso e passa-me a mão carinhosamente pela cabeça.
Perco os dois encontros derradeiros da inesquecível época de 1979/80. Os lusitanistas disputam, posteriormente, a fase de campeão do terceiro escalão. Atuam em Sines, com o Vasco da Gama, e eu não consigo saber o resultado por sugestão maternal e execução do saudoso doutor Jorge Monjardino.
Convalescente de três operações numa semana, tento saber novidades no serviço de Pediatria.
Cheio de tubos, aproveitando a falta de vigilância dos auxiliares e enfermeiras, arrasto-me rumo à Cirurgia e pergunto o resultado ao primeiro acamado que encontro.
Com cara de gozo, diz-me que o Lusitânia levou “sete cavalas”. Faltou-me o chão e pensei estrangular o sacana do velho que, obviamente, não era dos “nossos”.
O clube da rua da Sé rima com vitórias, emolduradas num brado triunfante de grandeza e magia.
Há ainda tempo para o lado poético com o gesto nobre do malogrado Martins a desenfiar-se da cerimónia do próprio casamento com vista a ajudar os companheiros a triunfar sobre o Praiense.
Uma coletividade desportiva é como as pessoas. Passa por momentos áureos, mas também prova o fel dos maus anos.
O Lusitânia, obviamente, não pode fugir a esta sina. Há cerca de uma década, o cenário manifestava-se extremamente negro. A péssima situação financeira colocava em causa a sua existência.
Aí uns quantos seres vivos com meio neurónio (imbecis, se preferirem) organizaram jantares festejando o desejo quase realidade do Lusitânia fechar a porta.
A enorme alma verde uniu forças e o Lusitânia, além de ir acertando as contas, voltou à rotina desportiva vitoriosa.
O futebol sénior, mesmo com um limitado orçamento, está bem e recomenda-se. O setor da formação voltou a dar sinais evidentes de qualidade e consistência. O basquetebol faz pela vida entre os melhores de Portugal. O futsal só nos dá motivos de alegria e a família lusitanista continua unida e apaixonada pelo Lusitânia, como se provará certamente sábado, 8 de abril, no pavilhão da Santa Casa da Misericórdia, em São Carlos, pelas 13H30, em mais uma edição do fantástico e sempre comovente Almoço Verde.
É preciso deixar claro. Ninguém foge ao seu destino. Por esta ordem de ideias, um imbecil será imbecil até ao caixão. Já o destino do Lusitânia é ganhar.


Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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