Entra Amaro, sai Amaro!
Desconhecia em absoluto que a frequência
modelada correspondia ao FM e que a onda média era em AM. O que me interessava
era ouvir os relatos das fabulosas equipas do Lusitânia das épocas de 1978/79
(primeira participação nacional na Série “E” da III Divisão Nacional de
futebol) e 1979/80 (subida à II Divisão – Zona Sul).
É uma das minhas memórias infantis mais
consistentes. Acompanhava a par e ouvido as façanhas de jogadores
inesquecíveis.
O guarda-redes Jorge Teixeira, os defesas
Zeca, Couto, Teves, Dionísio, Serafim, David, os médios Carlos Alberto,
Adelino, João Amaro, João Gabriel, Paulo Marcelino, Balaia, Aristides e os
avançados Martins, Arlindo e Seidi, sob orientação do técnico Mário Nunes.
A par, era no peão do velhinho Municipal de
Angra do Heroísmo, vendo e delirando com investidas que culminavam em golos
lusitanistas sem que o opositor “cheirasse” a bola.
Pelo ouvido, era à conta do Norberto Barcelos,
locutor destacado pelo Rádio Club de Angra (RCA) para terras quase misteriosas
para um petiz de oito/nove anos. O Norberto (já me tornei amigo do homem vai
para três décadas) entrava-me pela casa dentro, via microfone da rádio, a
partir dos longínquos terrenos do União de Tires, Oriental, Vialonga, Vitória
de Lisboa, Odivelas, Sacavenense e por aí fora e arredores.
Para mim, na altura, Norberto Barcelos era a
verdadeira voz da… “Voz da Terceira”. Eu e os meus irmãos (dois a puxar pelos
verdes e os outros dois a favor dos vermelhos) não perdíamos pitada dos relatos
e dos programas informativos sobre desporto.
Eram os resultados e comentários que nos
prendiam ao velho, mas bonito, rádio lá de casa. Ao fundo dava para ouvir o
barulho do corte nas folhas saídas pela ANOP, agência noticiosa nacional que
antecedeu à Lusa. Não víamos, mas era como se fosse. Pelo som imaginávamos os
lances geniais de Oliveira, Manuel Fernandes, Jordão (Sporting), Nené, Chalana
e João Alves (Benfica).
Só para
situar os eventuais leitores mais novos, basta dizer que o televisor (era mesmo
só um em cada lar) passava as imagens a preto e branco.
O “Domingo Desportivo”, retransmitido pela
RTP/Açores apenas na noite de segunda-feira, era um verdadeiro estrondo. Para
que a malta jovem não me goze, posso argumentar que atualmente disponho de mais
de uma centena de canais sendo que a TV Cabo mostra uma pontaria
verdadeiramente cirúrgica – só corta o pio ao canal VH1, especializado em
música do “meu tempo”, produzida nas inconfundíveis décadas de oitenta e
noventa.
Voltando à rádio, referência para o marco
histórico de um relato de futebol. João Amaro, hoje meu particular amigo e
defensor/praticante da ternurenta máxima de que “tudo o que mexe é bola”,
entrou a substituir um colega da equipa do Lusitânia, num jogo ante o
Bucelenses. Mal pisou o terreno, deu uma sarrafada no adversário e o árbitro
nem hesitou em aplicar a cartolina encarnada.
Norberto Barcelos relatou a ocorrência assim:
“Entra Amaro…sai Amaro!”.
joaorochagenio@hotmao


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