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485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Do jornalista João Rocha


Livros até de assalto

 A leitura é um hábito que me acompanha há longo tempo. Desde miúdo, devoro livros, jornais e revistas. 
Aos oito anos lia, no quintal de casa, a famosa série “Os Cinco”, da escritora inglesa Enid Blyton.

Os 21 livros da coleção, que contavam as aventuras dos rapazes Júlio e David, das raparigas Ana e Zé e do cão Tim, foram consumidos de fio a pavio rapidamente.
Os heróis da Walt Disney também mereceram atenção, como também as aventuras de Tom Sawyer, mas rapidamente saltei para os policiais à conta de Sherlock Holmes (detetive brilhante criado pela pena de Arthur Conan Doyle) e de Agatha Cristhie, com os inesquecíveis Hercule Poirot e Miss Marple.
De permeio, e como o caso já prescreveu, darei conta da minha incursão no mundo dos fora da lei à conta dos livros.
Por volta de 1982, a livraria do Adriano, em Angra do Heroísmo, face ao sismo, funcionava num módulo onde hoje é o parque de estacionamento do Largo Prior do Crato.
A minha turma escolar dividia-se em grupos que combinavam assaltos à livraria. O esquema era simples: alguém centrava a atenção do funcionário, enquanto o resto da malta colocava livros nas mochilas.
O golpe durou pouco tempo. Um colega mais azarado (médico, de profissão) foi apanhado em flagrante e levou a “bolacha” da ordem acompanhada com a lição de que roubar é muito feio.
Mesmo assim, deu para conhecer, embora por portas e travessas nada recomendáveis, Astérix e todos os seus amigos.
Entretanto, cresci e, muito obviamente, experimentei autores e obras literárias mais complexos (disponíveis, na maior parte dos casos, na Biblioteca de Angra).
Tolstoi evidenciou os extremos com “Guerra e Paz”, Steinbeck sublinhou “As vinhas da Ira” e Camus mostra que há sempre “O estrangeiro” dentro de nós.
Kafka encaminhou-me para a complexidade social/judicial por via de “O Processo”, sabendo de antemão que Hemingway sabe da “Fiesta”, do “Velho e o Mar” e, como não podia deixar de ser, “Por quem os sinos dobram”.
A literatura dá pistas para absorvermos personagens e lugares fascinantes, funcionado como uma bússola perfeita onde ninguém se sente perdido até contemplando os “Cem Anos de Solidão”, do incontornável Garcia García Márquez.
Mesmo desafiando recomendações dos professores (sempre detestei ler por obrigação), fui adiando ao máximo o contacto com os clássicos portugueses.
Tolice a minha. Há que séculos devia ter sido picado pelas “Farpas” de Eça.
“O Principezinho”, de Saint-Exupéry, bem nos ensinou que o essencial só é visível através do coração, sem descurar a frieza numérica de “O Capital”, de Marx.
Não alinho na era digital. Gosta de sentir as folhas do livro, na praia, com a areia a bater nos olhos, ou na esplanada do café, desligando-me das conversas triviais dos clientes.
Sou um leitor compulsivo. Leio todos os dias, perspetivando o livro seguinte como o “Admirável Mundo Novo”, de Huxley.
As palavras são fortes, revelam poder, interagem com os leitores, transmitem vida e paixão, capazes até de sublinhar o amor.
É fantástico fazer parte deste jogo de ilusão, que dá vontade de ser interminável.

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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