DIVAGAR DEVAGAR
Fogo à peça
depois dos incêndios
À escassez produtiva do Verão noticioso, os ingleses deram-lhe o
nome de “silly season”. Os brasileiros, numa rápida busca pelo Google, optam
pela “temporada de fofocas” ou “época de baboseiras”. No fundo, no que ao
jornalismo diz respeito, o remédio passa por recorrer ao que os portugueses
passam a vida a praticar – desenrascanço.
A tática é do mais simples. Onde não há notícias, há que inventá-las. À escala
nacional, a comunicação social costuma valer-se,
neste período, dos fogos florestais (Pedrógão Grande foi um verdadeiro festim
para quem tudo faz para queimar o jornalismo decente em Portugal), acidentes de
viação e transferências de futebolistas e treinadores.
Por cá, num meio bem mais pequeno e graças a Deus
não atreito a tantas desgraças, acima de tudo há que fazer da festa (nem que
seja de império) a notícia.
Pela Índia, o caso muda radicalmente de figura.
A imprensa local revelou que repórteres de
televisão, à procura de um furo jornalístico, ajudaram um homem que protestava
por causa de salários em atraso a imolar-se pelo fogo frente às câmaras,
dando-lhe fósforos (a falta que faz um isqueiro...) e gasolina.
Segundo a polícia, o sinistro ocorreu quando Manoj
Mishra protestava frente à leitaria onde trabalha, no distrito de Gaya, Estado
de Bihar (leste da Índia), exigindo 200.000 rupias (3.3 82 euros) de salários
em atraso.
Os jornalistas sabiam da intenção do homem e
permitiram-lhe que cumprisse o seu plano de suicídio (bem sucedido, de resto) e
filmaram a cena, sem nunca manifestarem a mais pequena intenção de auxiliar a
vítima.
A situação define, às mil maravilhas, uma das
ordens mais frequentes ditadas pelos chefes/editores aos repórteres quando
estes obtém os elementos para uma notícia: “fogo à peça!”.
Os colegas indianos, está bom de ver, não são
homens para esperar que as coisas aconteçam. Esta participação direta, e
decisiva, nos acontecimentos noticiosos fará da classe bem mais do que o
“quarto poder”.
Na Índia, o velho conceito de que o jornalista
nunca é notícia está completamente consumido pelo lume. O jornalista ameaça
mesmo constituir-se, por via escaldante, como o primado da informação.
Pelos vistos, tudo deixa de ser sagrado. As vacas
lá terão de se habituar ao churrasco...


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