JORNALISMO EM DESTAQUE

485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

terça-feira, 4 de julho de 2017

Do jornalista João Rocha




DIVAGAR DEVAGAR

Fogo à peça
depois dos incêndios
                                         
                                                 


À escassez produtiva do Verão noticioso, os ingleses deram-lhe o nome de “silly season”. Os brasileiros, numa rápida busca pelo Google, optam pela “temporada de fofocas” ou “época de baboseiras”. No fundo, no que ao jornalismo diz respeito, o remédio passa por recorrer ao que os portugueses passam a vida a praticar – desenrascanço.

A tática é do mais simples. Onde não há notícias, há que inventá-las. À escala nacional, a comunicação social costuma valer-se, neste período, dos fogos florestais (Pedrógão Grande foi um verdadeiro festim para quem tudo faz para queimar o jornalismo decente em Portugal), acidentes de viação e transferências de futebolistas e treinadores.
Por cá, num meio bem mais pequeno e graças a Deus não atreito a tantas desgraças, acima de tudo há que fazer da festa (nem que seja de império) a notícia.
Pela Índia, o caso muda radicalmente de figura. A imprensa local revelou que repórteres de televisão, à procura de um furo jornalístico, ajudaram um homem que protestava por causa de salários em atraso a imolar-se pelo fogo frente às câmaras, dando-lhe fósforos (a falta que faz um isqueiro...) e gasolina.
Segundo a polícia, o sinistro ocorreu quando Manoj Mishra protestava frente à leitaria onde trabalha, no distrito de Gaya, Estado de Bihar (leste da Índia), exigindo 200.000 rupias (3.3 82 euros) de salários em atraso.
Os jornalistas sabiam da intenção do homem e permitiram-lhe que cumprisse o seu plano de suicídio (bem sucedido, de resto) e filmaram a cena, sem nunca manifestarem a mais pequena intenção de auxiliar a vítima.
A situação define, às mil maravilhas, uma das ordens mais frequentes ditadas pelos chefes/editores aos repórteres quando estes obtém os elementos para uma notícia: “fogo à peça!”.
Os colegas indianos, está bom de ver, não são homens para esperar que as coisas aconteçam. Esta participação direta, e decisiva, nos acontecimentos noticiosos fará da classe bem mais do que o “quarto poder”. 
Na Índia, o velho conceito de que o jornalista nunca é notícia está completamente consumido pelo lume. O jornalista ameaça mesmo constituir-se, por via escaldante, como o primado da informação.
Pelos vistos, tudo deixa de ser sagrado. As vacas lá terão de se habituar ao churrasco...





Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

Sem comentários:

Enviar um comentário