ENTRE O
SONHO E O PESADELO
Eles não sabem nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E que sempre que o homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança
(António Gedeão – “Pedra Filosofal”)
Nasceu em
Angra do Heroísmo, em agosto de 1976 e acompanhou-nos, os pais dela, poucos
meses depois, na aventura da imigração.
Cresceu
criança sisuda, de poucas falas. Alguns dos nossos amigos até nos perguntavam
se ela era muda. Durante uma consulta de rotina, em resposta à nossa
interpelação se haveria algum problema de foro psicológico, o bom do Dr. Wong,
um simpático velhinho chinês, sossegou-nos: “Se ela fala pouco é porque pensa
muito!”
Depois, já
na companhia da irmã, que chegou cinco anos mais tarde e que, ao contrário
dela, foi uma tagarela inveterada, tornou-se boa aluna e, embora sempre pacata
e reservada, participava com gosto (e jeito) nos espetáculos musicais da
escola. Foi pulando e avançando na vida como
todas as crianças da sua idade. De carácter firme e senhora do seu nariz,
quando chegou aos anos de High School não perdia ocasião para dar a sua
opinião, já não era a menina calada de outros tempos.
Agora,
casada e mãe de dois filhos, é uma profissional ponderada e respeitada,
principalmente por quem com ela lida no Day Care Center que mantei à sua conta.
Não é só boa mãe dos seus próprios filhos mas também uma mãe-substituta para
todas as crianças que têm estado ao seu cuidado. À sua volta criam-se sonhos
coloridos que comandarão as vidas de muitas crianças.
Ora, por
uma razão ou outra, o tempo foi passando e a Lisa – essa mesmo, estou a falar
da minha filha mais velha e a sujeitar-me a ouvir um raspanete por a trazer a
estas páginas – nunca se tornou cidadã americana. Resolveu fazê-lo recentemente
e, depois de ultrapassada a burocracia normal nestes casos, foi esta semana
chamada para comparecer à cerimónia de juramento. Passará a ser cidadã do país
que a acolheu há quatro décadas, sem contudo deixar de lado a nacionalidade do
lugar onde nasceu. Escolheu, tal como os pais o fizeram, enveredar pela posse
da dupla-nacionalidade.
O caso de
Lisa é diferente (felizmente!) da situação dos Dreamers,
o grupo mais falado nos últimos dias e que está a ser usado como bode
expiatório da grande crise política que despoletou no Congresso americano.
Entrámos, eu, a Lisa e a mãe dela, neste país como imigrantes perfeitamente
legalizados, ao contrário dos pais de muitas crianças e jovens, que o fizeram à
margem da lei.
É uma
situação deveras preocupante e que tem gerado contínuas discussões nos mais
variados campos. Filhos de imigrantes ilegais, – muitos preferem o termo indocumentados – os Dreamers foram
aumentando em número e em importância política. Calcula-se que sejam já mais de
700 mil, provenientes de todo o mundo mas mais especificamente de países da
América Central.
Não quero,
aqui e agora, fazer grandes análises políticas relacionadas com este caso.
Haveria tanto para dizer que poderíamos estar dias seguidos a palrar sobre o
assunto. E é isto mesmo que está a acontecer no Congresso, com os partidos a
puxarem as brasas para o seu lado do fogareiro. Em fogo, literalmente, devem
andar os desgraçados que estão a sofrer na pele a incerteza da sua situação.
Muitos já vivem nos Estados Unidos há vários anos, são estudantes das Universidades
americanas, trabalham para sustentarem familiares, pagam os seus impostos e
tornaram-se pessoas de respeito, cumpridores dos seus deveres. Claro que, no
meio deles, devem aparecer algumas ovelhas negras, gente que caiu nas redes de
crimes organizados, de gangs ou semelhantes. Parece-me que esses são os únicos
que os olhos do DDT (Trump) vêem, ele que num dia diz que apoia os Dreamers – quando lhe é conveniente – para logo de
seguida se vir desmentir e espalhar aos quatro ventos, na sua conta do Twitter,
que não há modo nenhum de dar cabo do problema senão mandar esta gente toda
para o outro lado da fronteira... E construir uma parede bem alta e segura,
para que não tenham, eles ou outros mais, a possibilidade de reentrarem em
terras de Tio Sam.
Donald
Trump e mais uma grande percentagem dos políticos americanos não sabem nem sonham das vicissitudes a que se sujeitaram
os pais dos jovens que agora se encontram envolvidos nesta trapalhada. Sim,
entraram no país ilegalmente mas, penso, fizeram-no com a intenção de
proporcionarem melhores condições de vida às suas famílias. Se alguns se
desviaram e fizeram asneiras ou cometeram crimes, pois que sejam esses a pagar
pelos seus erros. Agora, meter todos no mesmo saco, fazer todos responsáveis
pelas falcatruas de alguns, acho que não está certo.
Conheço
várias pessoas que estão a passar momentos aflitivos. Trabalhei com eles,
conheço-lhes os filhos (los Soñadores), fui até convidado para as festas de
quinceañeras e casamentos de alguns. Nunca tive qualquer problema com eles,
ajudaram-me quando lhes pedi auxílio e nem sequer alguma vez senti que estavam
a roubar postos de trabalho aos nativos americanos. Sei que não querem ver as
suas famílias separadas ou desfeitas por causa da arrogância de senadores e congressistas.
Mas compreendo que é um problema que merece ser resolvido o mais rápidamente
possível, sem que tenham de servir de moeda de troca para satisfazerem os
ideais políticos seja lá de que partido for.
A Lisa
esperou muitos anos para normalizar a sua situação porque quis. Aliás, nunca
esteve um dia sequer da sua vida do outro lado da lei, o seu cartão verde
esteve sempre em dia. Desafortunadamente, os Dreamers
não podem dizer a mesma coisa. Só podem, unidos e bem organizados, tentar
convencer o Governo americano que poderão ser uma mais-valia para o país.
Afinal, esta é uma nação de imigrantes, construída por imigrantes, a grande
maioria deles aqui chegados sem documentação.
Deveriam
alguns políticos recordar-se que, porventura, também nas famílias deles houve
sonhadores. Talvez assim deixassem de brincar com o futuro de milhares de
pessoas que não tiveram culpa do que lhes aconteceu.
Esperemos
que o bom-senso prevaleça, que os sonhos dos Dreamers
não se transformem em pesadelos.
PS:
Cerimónia de Naturalização.
Acompanhei
a minha filha até ao Sacramento Memorial Auditorium, onde ela
foi fazer
o Juramento de Cidadania.
Muitos dos
leitores deste jornal já participaram ou assistiram a uma cerimónia igual a
esta. Foi bom ter ido, já nem me lembrava do que aconteceu quando foi a minha
vez, já há quase trinta anos.
A fila dos
aplicantes fazia curvas à volta do bonito edifício; nas bancadas superiores
muitas centenas de familiares e amigos aplaudiam os senhores que “botavam
palavra” e, na plateia central, mais de um milhar de participantes esperavam
com ansiedade a hora de passarem, formalmente, a ter a oportunidade de dizerem
que são os novos americanos.
Vieram de
96 países diferentes. Os que pareciam em maior número eram os Mexicanos,
Filipinos e Indianos. Alguns da China, da Rússia e do Irão.
Talvez
para desgosto do Sr. Trump, NENHUM veio da Noruega!
Lincoln,
Ca. Jan. 25, 2018
João
Bendito

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