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485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Da Califórnia de João Bendito



ENTRE O SONHO E O PESADELO

Eles não sabem nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E que sempre que o homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança
(António Gedeão – “Pedra Filosofal”)
Nasceu em Angra do Heroísmo, em agosto de 1976 e acompanhou-nos, os pais dela, poucos meses depois, na aventura da imigração.

Cresceu criança sisuda, de poucas falas. Alguns dos nossos amigos até nos perguntavam se ela era muda. Durante uma consulta de rotina, em resposta à nossa interpelação se haveria algum problema de foro psicológico, o bom do Dr. Wong, um simpático velhinho chinês, sossegou-nos: “Se ela fala pouco é porque pensa muito!”
Depois, já na companhia da irmã, que chegou cinco anos mais tarde e que, ao contrário dela, foi uma tagarela inveterada, tornou-se boa aluna e, embora sempre pacata e reservada, participava com gosto (e jeito) nos espetáculos musicais da escola. Foi pulando e avançando na vida como todas as crianças da sua idade. De carácter firme e senhora do seu nariz, quando chegou aos anos de High School não perdia ocasião para dar a sua opinião, já não era a menina calada de outros tempos.
Agora, casada e mãe de dois filhos, é uma profissional ponderada e respeitada, principalmente por quem com ela lida no Day Care Center que mantei à sua conta. Não é só boa mãe dos seus próprios filhos mas também uma mãe-substituta para todas as crianças que têm estado ao seu cuidado. À sua volta criam-se sonhos coloridos que comandarão as vidas de muitas crianças.

Ora, por uma razão ou outra, o tempo foi passando e a Lisa – essa mesmo, estou a falar da minha filha mais velha e a sujeitar-me a ouvir um raspanete por a trazer a estas páginas – nunca se tornou cidadã americana. Resolveu fazê-lo recentemente e, depois de ultrapassada a burocracia normal nestes casos, foi esta semana chamada para comparecer à cerimónia de juramento. Passará a ser cidadã do país que a acolheu há quatro décadas, sem contudo deixar de lado a nacionalidade do lugar onde nasceu. Escolheu, tal como os pais o fizeram, enveredar pela posse da dupla-nacionalidade.
O caso de Lisa é diferente (felizmente!) da situação dos Dreamers, o grupo mais falado nos últimos dias e que está a ser usado como bode expiatório da grande crise política que despoletou no Congresso americano. Entrámos, eu, a Lisa e a mãe dela, neste país como imigrantes perfeitamente legalizados, ao contrário dos pais de muitas crianças e jovens, que o fizeram à margem da lei.
É uma situação deveras preocupante e que tem gerado contínuas discussões nos mais variados campos. Filhos de imigrantes ilegais, – muitos preferem o termo indocumentados – os Dreamers foram aumentando em número e em importância política. Calcula-se que sejam já mais de 700 mil, provenientes de todo o mundo mas mais especificamente de países da América Central.
Não quero, aqui e agora, fazer grandes análises políticas relacionadas com este caso. Haveria tanto para dizer que poderíamos estar dias seguidos a palrar sobre o assunto. E é isto mesmo que está a acontecer no Congresso, com os partidos a puxarem as brasas para o seu lado do fogareiro. Em fogo, literalmente, devem andar os desgraçados que estão a sofrer na pele a incerteza da sua situação. Muitos já vivem nos Estados Unidos há vários anos, são estudantes das Universidades americanas, trabalham para sustentarem familiares, pagam os seus impostos e tornaram-se pessoas de respeito, cumpridores dos seus deveres. Claro que, no meio deles, devem aparecer algumas ovelhas negras, gente que caiu nas redes de crimes organizados, de gangs ou semelhantes. Parece-me que esses são os únicos que os olhos do DDT (Trump) vêem, ele que num dia diz que apoia os Dreamers – quando lhe é conveniente – para logo de seguida se vir desmentir e espalhar aos quatro ventos, na sua conta do Twitter, que não há modo nenhum de dar cabo do problema senão mandar esta gente toda para o outro lado da fronteira... E construir uma parede bem alta e segura, para que não tenham, eles ou outros mais, a possibilidade de reentrarem em terras de Tio Sam.
Donald Trump e mais uma grande percentagem dos políticos americanos não sabem nem sonham das vicissitudes a que se sujeitaram os pais dos jovens que agora se encontram envolvidos nesta trapalhada. Sim, entraram no país ilegalmente mas, penso, fizeram-no com a intenção de proporcionarem melhores condições de vida às suas famílias. Se alguns se desviaram e fizeram asneiras ou cometeram crimes, pois que sejam esses a pagar pelos seus erros. Agora, meter todos no mesmo saco, fazer todos responsáveis pelas falcatruas de alguns, acho que não está certo.
Conheço várias pessoas que estão a passar momentos aflitivos. Trabalhei com eles, conheço-lhes os filhos (los Soñadores), fui até convidado para as festas de quinceañeras e casamentos de alguns. Nunca tive qualquer problema com eles, ajudaram-me quando lhes pedi auxílio e nem sequer alguma vez senti que estavam a roubar postos de trabalho aos nativos americanos. Sei que não querem ver as suas famílias separadas ou desfeitas por causa da arrogância de senadores e congressistas. Mas compreendo que é um problema que merece ser resolvido o mais rápidamente possível, sem que tenham de servir de moeda de troca para satisfazerem os ideais políticos seja lá de que partido for.
A Lisa esperou muitos anos para normalizar a sua situação porque quis. Aliás, nunca esteve um dia sequer da sua vida do outro lado da lei, o seu cartão verde esteve sempre em dia. Desafortunadamente, os Dreamers não podem dizer a mesma coisa. Só podem, unidos e bem organizados, tentar convencer o Governo americano que poderão ser uma mais-valia para o país. Afinal, esta é uma nação de imigrantes, construída por imigrantes, a grande maioria deles aqui chegados sem documentação.
Deveriam alguns políticos recordar-se que, porventura, também nas famílias deles houve sonhadores. Talvez assim deixassem de brincar com o futuro de milhares de pessoas que não tiveram culpa do que lhes aconteceu.
Esperemos que o bom-senso prevaleça, que os sonhos dos Dreamers não se transformem em pesadelos.
 PS: Cerimónia de Naturalização.
Acompanhei a minha filha até ao Sacramento Memorial Auditorium, onde ela
foi fazer o Juramento de Cidadania.
Muitos dos leitores deste jornal já participaram ou assistiram a uma cerimónia igual a esta. Foi bom ter ido, já nem me lembrava do que aconteceu quando foi a minha vez, já há quase trinta anos.
A fila dos aplicantes fazia curvas à volta do bonito edifício; nas bancadas superiores muitas centenas de familiares e amigos aplaudiam os senhores que “botavam palavra” e, na plateia central, mais de um milhar de participantes esperavam com ansiedade a hora de passarem, formalmente, a ter a oportunidade de dizerem que são os novos americanos.
Vieram de 96 países diferentes. Os que pareciam em maior número eram os Mexicanos, Filipinos e Indianos. Alguns da China, da Rússia e do Irão.

Talvez para desgosto do Sr. Trump, NENHUM veio da Noruega!
Lincoln, Ca. Jan. 25, 2018

João Bendito
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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