A crítica da razão desportiva
Manuel Sérgio
A emergência da
racionalidade ocidental provocou três tipos de resposta filosófica: a
racionalidade é a racionalidade científica, encontrando as suas raízes no
“milagre grego” e mostrando-se triunfante, pela primeira vez, em Copérnico,
Galileu e Descartes; a racionalidade é uma característica própria da tradição
ocidental, desde Sócrates até hoje; a racionalidade é um produto da
modernidade, como o defende o Michel Foucault, na sua História da Loucura na
Idade Clássica, pois que é, após Descartes, que se tenta aprisionar,
psiquiatrizar, reduzir ao silêncio todas as formas de pensamento e de
comportamento, que não respondam às exigências da razão.
Não cabe, neste artigo, um resumo do debate que
opôs Derrida (que sustentava a segunda interpretação) a Michel Foucault, mas
podemos adiantar sem receio que há, hoje, uma desconfiança incontida, em
relação à racionalidade ocidental, presente no capitalismo, no colonialismo, no
“apartheid”, no marxismo dogmático, no holocausto e nas ditaduras europeias do
século XX – antipatia que até encontramos em Husserl, em Heidegger, em Derrida,
em Castoriadis, em Habermas, filósofos da mais pura cepa europeia.
Este filósofo, no seu livro Conhecimento e
Interesse, não hesita em concluir que todo o conhecimento científico decorre de
um interesse fundamental. Também o desporto moderno proveio do dualismo
antropológico racionalista (onde o corpo é instrumento da Razão) e do ócio de
que a nobreza e a burguesia beneficiavam, filhos de um país, a Inglaterra, que
na primeira metade do século XIX bazofiava poderio e abundância. E o interesse
que é a sua matriz residia na necessidade de criar uma juventude forte,
robusta, disciplinada, que bem representasse, no mundo todo, o capitalismo
amanhecente.
O desporto moderno, que Thomas Arnold criou, como
pedagogia, para as classes sociais dominantes, no Colégio de Rugby, em 1828,
chegou aos outros colégios universitários, ultrapassou os primeiros escolhos da
incompreensão e da rotina e, em Dezembro de 1864, já podia ler-se no Times: “Às
doze horas do próximo dia 5 de Março, dar-se-á início aos jogos atléticos entre
Oxford e Cambridge”. Triunfara, uma vez mais, a procura do êxito, o cálculo, a
eficácia, típicos da ética protestante.
A percepção do papel do desporto, no saneamento, na
saúde pública dos diversos países e na educação dos jovens ganhou adeptos,
entre os políticos, e tanto a revolução comunista, como o fascismo e o nazismo,
não amoleceram no desígnio (assim o diziam) de fazer, através da prática
desportiva, o “homem novo”. Só que, joeiradas as experiências anteriores, o
desporto começou a percorrer principalmente outros trilhos, para além do lazer
e da média competição, delineados pelo anseio da classe dominante de adormecer
as pessoas à recusa da sociedade injusta estabelecida. Refiro-me ao espectáculo
desportivo e tanto nas ditaduras políticas como nas ditaduras do capital!
Nos estádios, nos campos de futebol, milhares e
milhares de “torcedores” (perdoem-me o brasileirismo) levantam hossanas,
amplificados pelos mídia, de espanto e de admiração, diante dos novos heróis
que representam clubes, comunidades, nações. A narrativa desportiva é, hoje, em
todos os países, sem excepção, uma vitrina, uma passerelle, onde se movimentam
os deuses mais idolatrados pelo consumismo actual. O Capital e o Estado
encontram, assim, no desporto, um espaço privilegiado de publicidade e de
propaganda, respectivamente, onde o “prestígio nacional” se confunde com os
grandes interesses da finança internacional. Aliás, o Estado transmite
cobertura ideológica ao desporto altamente competitivo, enaltecendo,
hipervalorizando as vitórias desportivas, como se delas dependesse, com
exclusividade, o prestígio de um país.
De facto, o desporto hodierno não é politicamente
neutral, já que os governos o subsidiam e informam. Demais, ao considerarem o
desporto uma “actividade física” (e quanto mais física mais acéfala, mais
acrítica) proclamam a sua menoridade mental, a precisar do lastro necessário de
uma ideologia que os políticos dizem actualizar.
A crítica da razão desportiva é, afinal, a crítica
da ideologia que estabiliza e legitima a alta competição em que todos vivemos.
Ao identificar a imensa legião dos marginalizados com os desempenhos dos
atletas; ao assumir as categorias em que o capitalismo se desenvolve (a
competição, a medida, o rendimento, a hierarquia, o progresso ascendente e
linear); ao cultuar as desigualdades sociais, já que só o vencedor merece o
aplauso entusiasta e reverente (o segundo já é o primeiro dos últimos); ao dar
especial relevo às façanhas meramente físicas, no cotejo com a complexidade
humana, onde o social e o político se integram; ao converter-se num espaço de
domínio, através do “doping”, das grandes centrais de venda de certos produtos
farmacêuticos; ao confundir a verborreia passional, as hipérboles derrotistas
ou triunfalistas com um discurso verdadeiramente rigoroso – o desporto reproduz
e multiplica as taras da sociedade de consumo, onde ao espectáculo desportivo,
cada vez mais profissionalizado e mercantilizado, se concede um relevo que não
é outorgado ao desporto com carácter recreativo.
Há sociólogos que, a partir das descontinuidades
civilizacionais, não descortinam as invariantes que sustentam o capitalismo,
através dos anos. Uma dessas invariantes é, a partir do século XIX, o desporto.
Poderia citar, neste passo, o Hermínio Martins de Hegel, Texas e outros ensaios
de Teoria Social: “Nenhuma crise profunda, em qualquer campo de pesquisa, foi
alguma vez suplantado, sem uma reflexão conceptual fundamental, sem uma crítica
filosófica dos fundamentos e assumpções dominantes (e essencialmemte
tácitas)”(p. 159). Foi o que tentámos, neste pequeno artigo. Sobre a insegura
base científica onde muitos pretendem que o desporto se fundamente, falaremos
dela em próximo artigo.
Um reparo ainda: arreigou-se no espírito de alguns
intelectuais que a cultura desportiva é a cultura desportiva hegemónica
(insolidária, meritocrática, desigual) e, ingénuos, descambam num clubismo
doentio, que não passa de uma forma de exclusão inter-grupal. Se se considera
que a democracia é o melhor sistema social para o desenvolvimento humano, é
nosso dever promover, através do desporto, os grandes valores da cultura
democrática. Trata-se de uma utopia, já que a cultura desportiva hegemónica é
um irredutível fortim de conservadorismo e absentismo? No meu modesto entender,
sem utopia não há futuro!
*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos
principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela
Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade
Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.
Notabilizou-se como ensaísta do
fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior
de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus
de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.
Esse texto foi mantido em seu formato
original, escrito na língua portuguesa, de Portugal.
Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br

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