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domingo, 21 de janeiro de 2018

Do catedrático das letras - Manuel Sérgio


A crítica da razão desportiva
Manuel Sérgio
          
A emergência da racionalidade ocidental provocou três tipos de resposta filosófica: a racionalidade é a racionalidade científica, encontrando as suas raízes no “milagre grego” e mostrando-se triunfante, pela primeira vez, em Copérnico, Galileu e Descartes; a racionalidade é uma característica própria da tradição ocidental, desde Sócrates até hoje; a racionalidade é um produto da modernidade, como o defende o Michel Foucault, na sua História da Loucura na Idade Clássica, pois que é, após Descartes, que se tenta aprisionar, psiquiatrizar, reduzir ao silêncio todas as formas de pensamento e de comportamento, que não respondam às exigências da razão.

Não cabe, neste artigo, um resumo do debate que opôs Derrida (que sustentava a segunda interpretação) a Michel Foucault, mas podemos adiantar sem receio que há, hoje, uma desconfiança incontida, em relação à racionalidade ocidental, presente no capitalismo, no colonialismo, no “apartheid”, no marxismo dogmático, no holocausto e nas ditaduras europeias do século XX – antipatia que até encontramos em Husserl, em Heidegger, em Derrida, em Castoriadis, em Habermas, filósofos da mais pura cepa europeia.
Este filósofo, no seu livro Conhecimento e Interesse, não hesita em concluir que todo o conhecimento científico decorre de um interesse fundamental. Também o desporto moderno proveio do dualismo antropológico racionalista (onde o corpo é instrumento da Razão) e do ócio de que a nobreza e a burguesia beneficiavam, filhos de um país, a Inglaterra, que na primeira metade do século XIX bazofiava poderio e abundância. E o interesse que é a sua matriz residia na necessidade de criar uma juventude forte, robusta, disciplinada, que bem representasse, no mundo todo, o capitalismo amanhecente.
O desporto moderno, que Thomas Arnold criou, como pedagogia, para as classes sociais dominantes, no Colégio de Rugby, em 1828, chegou aos outros colégios universitários, ultrapassou os primeiros escolhos da incompreensão e da rotina e, em Dezembro de 1864, já podia ler-se no Times: “Às doze horas do próximo dia 5 de Março, dar-se-á início aos jogos atléticos entre Oxford e Cambridge”. Triunfara, uma vez mais, a procura do êxito, o cálculo, a eficácia, típicos da ética protestante.
A percepção do papel do desporto, no saneamento, na saúde pública dos diversos países e na educação dos jovens ganhou adeptos, entre os políticos, e tanto a revolução comunista, como o fascismo e o nazismo, não amoleceram no desígnio (assim o diziam) de fazer, através da prática desportiva, o “homem novo”. Só que, joeiradas as experiências anteriores, o desporto começou a percorrer principalmente outros trilhos, para além do lazer e da média competição, delineados pelo anseio da classe dominante de adormecer as pessoas à recusa da sociedade injusta estabelecida. Refiro-me ao espectáculo desportivo e tanto nas ditaduras políticas como nas ditaduras do capital!
Nos estádios, nos campos de futebol, milhares e milhares de “torcedores” (perdoem-me o brasileirismo) levantam hossanas, amplificados pelos mídia, de espanto e de admiração, diante dos novos heróis que representam clubes, comunidades, nações. A narrativa desportiva é, hoje, em todos os países, sem excepção, uma vitrina, uma passerelle, onde se movimentam os deuses mais idolatrados pelo consumismo actual. O Capital e o Estado encontram, assim, no desporto, um espaço privilegiado de publicidade e de propaganda, respectivamente, onde o “prestígio nacional” se confunde com os grandes interesses da finança internacional. Aliás, o Estado transmite cobertura ideológica ao desporto altamente competitivo, enaltecendo, hipervalorizando as vitórias desportivas, como se delas dependesse, com exclusividade, o prestígio de um país.
De facto, o desporto hodierno não é politicamente neutral, já que os governos o subsidiam e informam. Demais, ao considerarem o desporto uma “actividade física” (e quanto mais física mais acéfala, mais acrítica) proclamam a sua menoridade mental, a precisar do lastro necessário de uma ideologia que os políticos dizem actualizar.
A crítica da razão desportiva é, afinal, a crítica da ideologia que estabiliza e legitima a alta competição em que todos vivemos. Ao identificar a imensa legião dos marginalizados com os desempenhos dos atletas; ao assumir as categorias em que o capitalismo se desenvolve (a competição, a medida, o rendimento, a hierarquia, o progresso ascendente e linear); ao cultuar as desigualdades sociais, já que só o vencedor merece o aplauso entusiasta e reverente (o segundo já é o primeiro dos últimos); ao dar especial relevo às façanhas meramente físicas, no cotejo com a complexidade humana, onde o social e o político se integram; ao converter-se num espaço de domínio, através do “doping”, das grandes centrais de venda de certos produtos farmacêuticos; ao confundir a verborreia passional, as hipérboles derrotistas ou triunfalistas com um discurso verdadeiramente rigoroso – o desporto reproduz e multiplica as taras da sociedade de consumo, onde ao espectáculo desportivo, cada vez mais profissionalizado e mercantilizado, se concede um relevo que não é outorgado ao desporto com carácter recreativo.
Há sociólogos que, a partir das descontinuidades civilizacionais, não descortinam as invariantes que sustentam o capitalismo, através dos anos. Uma dessas invariantes é, a partir do século XIX, o desporto. Poderia citar, neste passo, o Hermínio Martins de Hegel, Texas e outros ensaios de Teoria Social: “Nenhuma crise profunda, em qualquer campo de pesquisa, foi alguma vez suplantado, sem uma reflexão conceptual fundamental, sem uma crítica filosófica dos fundamentos e assumpções dominantes (e essencialmemte tácitas)”(p. 159). Foi o que tentámos, neste pequeno artigo. Sobre a insegura base científica onde muitos pretendem que o desporto se fundamente, falaremos dela em próximo artigo.
Um reparo ainda: arreigou-se no espírito de alguns intelectuais que a cultura desportiva é a cultura desportiva hegemónica (insolidária, meritocrática, desigual) e, ingénuos, descambam num clubismo doentio, que não passa de uma forma de exclusão inter-grupal. Se se considera que a democracia é o melhor sistema social para o desenvolvimento humano, é nosso dever promover, através do desporto, os grandes valores da cultura democrática. Trata-se de uma utopia, já que a cultura desportiva hegemónica é um irredutível fortim de conservadorismo e absentismo? No meu modesto entender, sem utopia não há futuro!


*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.
Esse texto foi mantido em seu formato original, escrito na língua portuguesa, de Portugal.

Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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