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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Do colaborador Dr. António Bulcão


Sindrome de Húbris

Há umas semanas, assisti a uma entrevista na RTP-1. O entrevistado era o Dr. Daniel Matos, conhecido como o médico da Presidência.
Merece bem a denominação, já que foi o médico de Mário Soares, de Jorge Sampaio, de Cavaco Silva e, agora, assiste Marcelo Rebelo de Sousa.
A conversa foi muito interessante, cheia de episódios vividos junto dos sucessivos Presidentes. Falou dos problemas de saúde dos sumos magistrados, das viagens que fez com eles, enfim, coisas que não saberíamos nunca, não fosse pela sua boca.
Mas a parte que achei mais interessante respeitava a uma coisa que desconhecia por completo a existência, em tese, embora já tivesse notado na prática. Chama-se Síndrome de Húbris. 
Trata-se de uma doença psiquiátrica, cuja existência foi defendida por David Owen, médico e ex-ministro dos negócios estrangeiros inglês. No entender deste, o Síndrome de Húbris tem origem no exercício do poder.
Deixo aqui alguns dos sintomas, com um desafio ao leitor: tente descobrir se alguns dos nossos políticos sofrerão da dita doença.
1 – Os atacados por este síndrome tendem a ver o mundo como um lugar ao seu dispor, onde poderão buscar a glória pelo exercício do poder, num narcisismo evidente;
2 – Têm uma obsessão pela sua própria imagem, tudo fazendo para a melhorar, sendo que muitas das coisas que poderiam fazer para melhorar a nossa vida cedem, em favor do cultivo da tal imagem;
3 – Por conseguinte, têm uma preocupação extrema com a sua apresentação, exibindo vaidades e procurando palcos para desenvolverem a imagem que têm de si próprios;
4 – Inflamam-se no discurso, julgando-se Messias, exaltando frases banais, acreditando que dizendo o óbvio com voz muito alta passarão a ser tomados como profetas inultrapassáveis;
5 – Falam em nome do País como se os interesses da Nação e os seus pontos de vista fossem por completo coincidentes;
6 – Têm tendência para o uso do plural majestático, sobretudo quando o objectivo é sacudir água do capote. Quando corre bem, sou eu. Quando corre mal, lá vem o nós;
7 – Os seus julgamentos são os mais justos. As ideias dos outros, ou as suas críticas, são ouvidas com algum agastamento, impaciência, condescendência, tipo olha este agora também quer dizer coisas…
8 – Crença exagerada em si próprios, aproximando-se da omnipotência dentro dos seus cérebros;
9 – Os seus actos não são julgáveis pelos homens, nem se forem juízes esses homens. A História é que os julgará, dizem. Ou Deus, quem sabe?
10 – Claro que, seja no tribunal da História, seja perante Deus, acreditam piamente que sairão ilibados e talvez até com voto de louvor;
11 – Quanto mais demorado o exercício do poder, mais se isola o governante, perdendo assim contacto com a realidade;
12 – Indiferença, irritabilidade crescente com o que o chateia, seja da oposição (interna ou externa), seja dos meios de comunicação social;
13 – Excesso de confiança, causa de muitas vezes as coisas correrem mal, sem que o doente se preocupe com as dissidências.
Num próximo escrito analisarei alguns dos que considero serem casos crónicos. Mas não quero tirar ao leitor o prazer de descobrir infectados, a nível local, regional ou nacional. Afinal, são eles que nos governam…
António Bulcão
(publicado hoje, no Diário Insular)
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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