Aquele garoto magrinho
na banda do Harry
“Wishing” foi uma
das duas canções de sua estréia com a banda de James no Hyppodrome Theater, em
Baltimore, na última semana de junho de 39. Nancy o ouvia na platéia, e ele
cantou também “My Love For You”. Como pouca coisa na vida é sublinhada por
fogos de artifício, nada de especial aconteceu naqueles dias. Depois de
Baltimore a banda foi para Nova York e continuou seu trabalho. O empresário,
Gerry Barrett, convenceu a George Simon, crítico musical de Metronome,
a ouvir o pessoal e escrever a respeito.
Sinatra não seria
Sinatra se não metesse aí sua colher. Insistiu tanto que Gerry Barrett pediu a
Simon para dizer duas ou três palavras a respeito do cantor. Simon concordou, e
sua crítica citou “o vocal muito agradável de Frank Sinatra, cujo frasear
simples é especialmente recomendável”.
A partir disso,
aquele ego foi inchando com tal rapidez que Harry James, em certa ocasião,
chegou a pedir a um repórter que não o citasse com muito entusiasmo. – Veja –
argumentou – se ele souber de um elogio seu, vai me pedir aumento na mesma
noite.
Na verdade, havia
sinais de que James estava tendo alguma dificuldade em conviver com o nariz
empinado da principal estrela de sua banda. Uma frase dele ficou gravada: “Seu
nome é Sinatra, e ele se considera o melhor cantor em atividade. É demais!
Ninguém jamais ouviu falar dele! Ele nunca gravou uma canção de sucesso, e
parece uma peça de roupa velha, mas diz que é o maior de todos!”
Entre sucessos
(Harry James foi considerado o trompete número um da América na pesquisa da
revista Down Beat em 39) e fracassos (apresentando–se em
Beverly Hills, Los Angeles, para um público que não gostou da batida da banda,
James e todo seu pessoal, Sinatra incluído, foram despedidos), Frank começou a
questionar se o seu lugar era realmente ali.
E então, no início
de 1940, ele recebeu um convite para cantar com a banda de Tommy Dorsey. Aqui,
como dizem vários de seus biógrafos, ninguém sabe exatamente como a coisa
aconteceu, porque todo mundo gosta de se proclamar responsável pela aproximação
dos dois. Uma das versões é a de que, depois de alguns meses com James, Frank
havia conquistado certo número de admiradores e um deles era um executivo da
CBS que, um belo dia, soprou para Dorsey: “Vá ver um garoto magrinho que está
cantando com a banda de Harry”.
Foi o que fez
Sinatra realmente decolar. O contrato com Harry James ainda estava valendo, mas
este o cancelou com um aperto de mão e um conselho: “Não perca esta chance”.
Naquela época, apenas Glenn Miller rivalizava com Dorsey, que tinha uma
orquestra considerada a banda dos cantores: ele sempre valorizava seus arranjos
dando destaque ao crooner. Frank foi contratado por 100 dólares semanais.
Ele sempre disse
que Tommy Dorsey foi o seu “treinador”, e o ensinou a respirar durante o canto.
Foi Dorsey quem recomendou a ele exercícios físicos, como jogging e natação,
para aumentar sua capacidade pulmonar. Frank dava longos mergulhos na piscina,
e cada vez ficava mais tempo embaixo d’’água. Com isso passou a cantar vários
versos seguidos sem respirar, o que lhe permitiu também aperfeiçoar o ritmo e o
balanço das canções.
Frank prestava
enorme atenção ao trabalho de Dorsey. O jornalista e publicitário Alan Frank,
em seu livro Sinatra, de 1978, reproduz uma declaração dele:
– Eu descobri –
contou Sinatra – um truque dele, um pequeno orifício que havia entre um canto
dos lábios de Tommy e o bocal do trombone. E percebi que aquilo não era
natural, mas uma fresta através da qual ele respirava. No meio de um compasso,
quando uma nota ainda estava fluindo através do trombone, ele dava uma rápida
aspirada, e aquilo permitia que tocasse quatro escalas mais.
Ele fez uma
adaptação dessa técnica para o seu canto, praticando exaustivamente e
aprendendo a usar o nariz como Dorsey usava aquele orifício. Fez muito mais:
treinou tanto para desenvolver os pulmões que alguns de seus biógrafos afirmam
que ele podia ficar sem aspirar o dobro do tempo de uma pessoal normal.
Dois traços
marcantes de sua personalidade se desenvolveram a partir daí: a vaidade, o
cuidado com as roupas, com a elegância – e o mau humor, a irritação. Ele
costumava interromper a banda quando achava que algum instrumento tocava alto a
ponto de interferir com sua voz. Em um show, certa vez, alguém lhe atirou
pipocas. Ele voou para cima do público, querendo arrebentar o atrevido. Em
outro, Buddy Rich, o homem do surdo, interrompeu uma canção de Frank para fazer
um solo. Sinatra atirou–lhe um copo.
O sucesso foi
crescendo e atingiu um ponto em que passou a incomodar Tommy Dorsey porque, se
a questão era vaidade, ele também tinha a sua, e não era pequena. Ele também,
Dorsey, era um brigão, o que dava à orquestra, muitas vezes, um clima de
violência. Outro inconveniente era que o público queria ouvir a Voz, não os
instrumentos e, muitas vezes, no momento em que a banda, até então tocando só,
passava a acompanhar o cantor, as pessoas paravam de dançar para cercar o palco
e apenas ouvi-lo cantar. Dorsey não suportava essa humilhação.
Em julho de 1942
Sinatra resolveu sair. No ano anterior uma pesquisa da revista Billboard entre
estudantes deu–lhe o título de Vocalista Masculino Número Um. No final de 41,
ele realizou um sonho antigo ao ser declarado, pela revista Down Beat,
o Melhor Vocalista Masculino de Orquestras dos Estados Unidos, dando uma
rasteira em ninguém menos do que Bing Crosby, detentor do título de 1937 a
1940. E, em janeiro de 42, os leitores de Metronome o elegeram
o Melhor Cantor de 1941. Se, no período em que esteve com Harry James, eles tiveram
cinco discos gravados, com Dorsey ele havia gravado noventa. Decididamente,
concluiu Frank, era o momento de deixar a orquestra e prosseguir sozinho.
Mas o contrato de
cinco anos estava praticamente pela metade, e Dorsey foi inflexível nas
negociações: certo, ele liberaria Frank, mas com novo contrato, em que
receberia 33% da renda bruta de Sinatra durante os dez anos seguintes, sendo
que mais 10% iriam para o gerente de sua banda, Leonard Vannerson. O contrato
foi assinado. E aqui entra a lenda… ou a verdade? Sinatra filiou–se depois à
Music Corporatin of America, a MCA, a maior de todas, e ela queria livrá–lo de
qualquer compromisso anterior, principalmente daquele contrato com Dorsey.
Oficialmente, dizem que isso custou 35.000 dólares à MCA, e mais 25.000 ao
próprio Frank.
A outra versão é a
que envolve a Máfia. Frank Sinatra, de origem ítalo-americana, cresceu em uma
área de Nova Jersey que era território da Máfia. E, já que ele estava lá, e a
Máfia também… E então, diz a lenda, certo Don mafioso, de nome Willie Moretti, teria
entrado nas negociações, feito uma visita a Dorsey, em seu camarim, e
delicadamente – “Não é nada pessoal…” – o convenceu, com o cano de seu revólver
literalmente enfiado na boca do atônito maestro, a “vender” o contrato de
Sinatra pela quantia, acertada ali mesmo, de um dólar. Negócio fechado!

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