MISSES E NAUFRÁGIOS
(Artigo
publicado na edição especial do “Tribuna Portuguesa” de Modesto, Califórnia,
dedicada à celebração dos 50 anos da geminação das cidades de Tulare e Angra do
Heroísmo)
MISSES E
NAUFRÁGIOS Acompanhei o nascimento da geminação entre as cidades de Angra do
Heroísmo e Tulare desde muito novo.
Não era
para menos, quem tinha gosto em ler diariamente os dois periódicos angrenses,
não podia ficar indiferente. Todas as semanas, talvez mesmo todos os dias, os
jornais traziam notícias do desenrolar dos acontecimentos, das reuniões que se
faziam, das visitas das delegações de cada uma das cidades até ao outro burgo.
Através
dessas notícias dos jornais – a televisão ainda estava longe de se instalar nas
nossas salas de estar – ficava a conhecer melhor as pessoas da minha terra e
mesmo as do Vale de San Joaquim. O Sr. João Afonso, jornalista de renome , era
o grande impulsionador da ideia. Acompanhado por Alberto Lopes, Rocha Lopes ,
Edgar da Silveira e muitos outros, conseguiu lançar os alicerces da Fundação. Do
outro lado do mundo, na imensa planície californiana, uma mão cheia de
açorianos ou luso –descendentes, com o advogado Joe Soares e o industrial
Manuel “Spike” Mancebo à frente, fazia a mesma coisa, cimentavam os laços que
perduram até hoje.
Já
passaram 50 anos. Os intercâmbios, as permutas artísticas e culturais têm sido
uma mais-valia para as duas cidades e tenho a certeza que vão continuar no
futuro. Para um jovem como eu era nessa altura, a despertar para a vida, foram
tempos memoráveis. Não tive qualquer participação ativa nas celebrações a não
ser seguir, como aliás fizeram muitos dos jovens angrenses, as pegadas e os
percursos da Miss Tulare. É verdade, a Miss Tulare deixou uma forte impressão
em todos, velhos e novos, os que acompanharam a sua visita. Era uma novidade,
nunca Angra havia recebido uma Miss fosse lá de onde fosse. Claro que a pompa e
a circunstância não se compararam ao que se passou em 1903, aquando da passagem
pela Terceira da Rainha Dona Amélia. Essa era uma Rainha de verdade e a Miss
Tulare era simplesmente uma bonita e simpática jovem de uma pequena cidade
semeada no meio de ranchos e “leitarias” onde labutavam milhares de
terceirenses e outros açorianos.
Mesmo
assim, os responsáveis angrenses não descuraram qualquer pormenor e fizeram jus
à fama que a cidade, agora Património Mundial, tem de receber bem os seus
convidados. Maureen Abramson, assim se chamava a jovem californiana, ficou
instalada com a sua comitiva, no Palácio dos Capitães Generais. Lembro-me bem
da multidão que encheu o pátio do Palácio só para aplaudir “sua majestade”
quando ela assumiu a uma das varandas, acompanhada pela Rainha das Festas da
Cidade desse ano, Maria do Amparo Pereira. A beleza de Maureen fazia com que os
jovens angrenses ficassem de queixo caído. Não que as outras jovens não fossem
bonitas também mas a Miss Tulare deixou recordações nos olhos e, quem sabe,
nalgum coração palpitante. Contudo ela não se deixou conquistar, acabou por
casar com o influente político californiano Bill Jones que chegou a ser
Secretário de Estado do Governo da Califórnia. E, pelo que sei, gostou muito da
estadia, ficou encantada com o Palácio onde ficou instalada e levou boas
recordações das pessoas com quem lidou. Mas nunca mais regressou à Terceira.
Depois de
Maureen Abramson outras Miss Tulare visitaram a cidade irmã, bem como algumas
jovens representantes das Irmandades do Espírito Santo daquela zona. Aliás,
nesse mesmo ano de 1968, outras jovens Luso-descendentes também causaram furor
entre a juventude angrense. Manuel Mancebo, jorgense de nascimento, e, como
disse acima, um dos maiores impulsionadores desta geminação, fez-se acompanhar
pelas suas filhas Carmina e Filomena – Carmen e Phylis para os americanos -,
simpáticas senhoras que ainda hoje em dia continuam a dedicar muito do seu
tempo à causa das Cidades Irmãs.
NOTÍCIA DO NAUFRÁGIO DA "CARMEN-FILOMENA"
Um outro
episódio que me ficou registado na memória – e eu tinha só onze anos nessa
altura - , embora não diretamente ligado à geminação das cidades, foi o que envolveu
o acidente marítimo que destruiu a embarcação “CARMEN-FILOMENA”, propriedade de
“Spike” Mancebo, em 3 de julho de 1963. As duas jovens filhas do Sr. Mancebo
não faziam parte da tripulação da potente lancha que se incendiou, mesmo por
detrás do Monte Brasil, quando se dirigia para São Jorge. Graças à pronta
intervenção de uma companha de baleeiros de São Mateus da Calheta, todos os
oito ocupantes da “Carmen-Filomena” foram salvos, incluindo uma criança de
apenas oito meses de idade. O jornal Diário Insular do dia seguinte trazia na
sua primeira página uma notícia detalhada do acontecimento, salientando não só
a pronta ajuda dos baleeiros terceirenses mas também a valentia do mestre da
embarcação sinistrada e a ousadia de um dos tripulantes, Paulo Ávila, que
tentou nadar para terra a fim de conseguir ajuda.
Afundou-se
a “Carmen-Filomena” mas não tremeu o intrépido imigrante jorgense, dono de uma
grande companhia de camionagem. Talvez mesmo esse desafortunado incidente lhe
tivesse criado novas forças para levar à frente a ambicionada geminação entre
as duas cidades, tão distantes geograficamente uma da outra mas tão próximas
nas suas raízes e comunidades.
Agora,
passados que são cinquenta anos, as pessoas são outras mas mantem-se a intenção
de salvaguardar os ideais dos obreiros desta aliança. João Afonso, “Spike”
Mancebo e tantos outros lançaram as bases de uma genuína irmandade que, espero,
continue por muitos mais anos.
Esperemos
também que a senhora Maureen Jones se resolva visitar a Terceira mais uma vez.
Será bem recebida, não só pelas novas gerações de Angrenses mas também por
todos aqueles que se recordam dela no caloroso Verão de 1968.
João
Bendito

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