Crónica da saudade
Quarta, 04 de Dezembro de
2013 380
Passado é passado, é vulgar dizer-se. Mas, porém, há coisas que
aconteceram no passado que jamais poderão ser esquecidas. É praticamente o
mesmo que dizer que contra fatos não há argumentos. Não é ser saudosista por
excelência, mas tão somente fazer recordar situações que justificam umas
simples palavras de apreço e também de gratidão, por exemplo.
Há relativamente poucos dias vi uma foto de João Machado Leal, vulgarmente
conhecido por Martins, natural do Porto Judeu. Um jogador polivalente que se
transferiu do Sporting Clube “Os Leões” para o Lusitânia onde se notabilizou. E
confesso que me arrepiei quando deparei com a referida foto. Conheci Martins
muito de perto, quer como jornalista quer como treinador-adjunto do Lusitânia
na época em que o clube ascendeu ao escalão terciário do futebol nacional e,
antes, em 1972, quando, numa emergência, fui chamado para colaborar no
departamento de futebol do Lusitânia em função das demissões que se
verificaram. Nesse ano, fomos ao Faial disputar um torneio englobado nas
comemorações do decano clube açoriano o Fayal Sport Clube. Sem árbitros, a
organização pediu-me para dirigir o jogo entre o Fayal Sport e o Angústias
Atlético Clube. Aceitei o convite com um sorriso nos lábios, visto que para mim
era, ao cabo, um matar de saudades. E, modéstia à parte, acabei por dar o meu
show. No dia seguinte, antes de partirmos para a Terceira, lá veio o Martins
ter comigo para me dizer que eu era a pessoa mais falada na Horta em função do
meu recital de arbitragem naquele jogo.
Quando o Lusitânia ficou apurado para defrontar o Atlético para a Taça de
Portugal, e depois de ter vencido o famigerado Torneio de Classificação dos
Açores à Taça de Portugal, entendi por bem, na apresentação do Lusitânia em A
Bola, fazer acompanhar o texto com uma foto de Martins legendada O HOMEM-GOLO.
Martins, depois de o jornal ter chegado à Terceira, encontrou-me perto da Praça
do Mercado e veio-me agradecer a deferência para com ele. De fato, uma foto no
jornal A Bola não era para todos.
Finalmente, a pior fase com Martins, isto é, quando ele deu entrada no
Hospital de Angra muito mal, dias após um jogo em que o Lusitânia defrontou o
Sintrense para o campeonato Nacional da III Divisão. Ninguém acreditava, mas a
situação era bem pior do que antes se pensava. Numa das visitas que fiz ao
Martins, acompanhado pelo técnico Mário Nunes, dois dias antes de ele falecer,
estava de pé olhando para aquela admirável figura e, de repente, ele levantou o
braço e fez-me o sinal de que queria um cigarro. E porquê? Martins não fumava,
mas, nos almoços antes dos jogos, normalmente ficava ao meu lado e, terminada a
refeição, sentia-se bem fumando um cigarro. Uma cena que para mim foi terrível,
porquanto, não podia, de forma alguma, no hospital lhe oferecer um cigarro. E
não tive coragem de ir ao seu funeral.
Eu era daqueles que muito fumava (hoje tenho um horror ao cigarro,
confesso) e, quando acendia um cigarro, muitas vezes lembrava-me do saudoso
amigo João Machado Leal, o popular Martins. O homem de grande caráter, o
jogador que sentia no coração a camisola do clube que o catapultou para a fama,
e foi em função desses atributos que, no dia do seu casamento, sabendo (via
rádio) que o seu clube estava perdendo, lançou-se para o Campo Municipal de
Angra, entrou no segundo-tempo e o Lusitânia, nesse esgrimir com o Praiense,
virou o resultado para 3-1. E quem marcou os golos? Ele, o grande Martins!
Talvez muita gente na altura se tenha interrogado como ele entrou no jogo se
estava na festa do seu casamento? De fato, o Lusitânia teve o discernimento
necessário para colocá-lo na ficha do jogo, apresentada ao árbitro 30 minutos
antes do prélio se iniciar
João Machado Leal, o Martins do Porto Judeu, a eterna saudade.
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