AS FESTAS DA MINHA RUA
Eram três, os irmãos «Papagaio».
Não os conheci mas sempre ouvi falar deles em nossa casa. Para mais, porque eu era homónimo de um deles, era normal alguém fazer seguir o meu nome com a alcunha que tornou famosos os irmãos Carlinhos e João, assim como a irmã deles, a Mariquinhas.
Nasci numa casa que não distanciava muito da pequena moradia onde eles viviam, na Rua do Meio de São Pedro. Era nessa modesta casa que os manos montavam o ainda mais modesto altar onde veneravam a mais que modesta e pequenina coroa do Espírito Santo, feita de folha de Flandres. Metiam-se pela cidade armados com a saca vermelha das esmolas, a pedir donativos para a sua Festa. Toda a gente os conhecia e quase todos colaboravam com uns trocos, que os simpáticos irmãos agradeciam, em nome do Divino Paráclito.
O engraçado da questão e que imortalizou os irmãos «Papagaio» é que eles nunca sabiam dizer a data certa da sua Festa. Quando eram questionados para informarem em que domingo se realizava a coroação, respondiam que... “Não é este domingo, nem no outro, nem no outro... é no outro!” E pronto, ficava tudo explicado.
Tenho ainda algumas memórias de outras Festas do Espírito Santo na rua que me viu nascer, já depois destas dos irmãos «Papagaio». Um pequeno Império, de madeira, era montado mesmo no cimo da rua, junto da Travessa do Fanal. E lembro-me do palanque para a filarmónica, que instalavam encostado ao muro alto do nosso quintal. Escondidos por detrás da parede, eu e o meu irmão resolvemos, numa noite de iluminação, pregar uma partida aos músicos. Munidos com uma caninha de foguete, não tivemos mais que fazer senão tirar o barrete da cabeça do homem do bombo! Quem não gostou da brincadeira, para além do atingido, foi o Sr. Cunha, o carismático regente da Recreio dos Artistas, que, terminada a execução dos «Cavaleiros do Rei», veio bater à nossa porta e queixar-se à nossa mãe do atrevimento dos meninos seus filhos.
Tanto na Terceira como na Califórnia, em todas as outras ruas onde vivi, não havia festas de qualquer espécie, muito menos do Espírito Santo. No entanto, recordo as festividades de outro Império de madeira, montado mesmo no canto da casa da família Beirão, já fora dos limites da rua onde vivi os anos da minha juventude angrense, a Rua da Miragaia. Falo na festa do Império do Chafariz Velho, onde ainda tenho recordações de uma tourada à corda, a que assisti, trémulo de medo, no pátio da casa do meu avô José Bailhão. Por sinal deve ter sido no último ano que tal Festa se realizou, dado que o meu irmão Jorge, nessa altura criança de tenra idade, a quem tinha saído o pelouro, ainda tem em sua posse a velhinha bandeira da Irmandade, bandeira essa que o meu pai guardara religiosamente.
Aqui, em Lincoln, a Festa do Espírito Santo também não acontece na minha rua mas não é muito longe. E, ao contrário dos irmãos «Papagaio», toda a gente sabe que ela se realiza sempre no 5º Domingo a seguir à Páscoa. Tenho a certeza que já andam os responsáveis atarefados com os preparativos, a cuidar de todos os pormenores para que tudo corra bem.
Não é, de maneira nenhuma, das Festas maiores da Califórnia, nem sequer das mais antigas, embora este ano complete 95 anos de existência. Poderá ter passado por momentos melhores, por outras euforias ou mais vistosas celebrações. Contudo, é de realçar e enaltecer o empenho, o trabalho e o esforço dos muitos devotos que teimam em manter acesa esta chama e bem viva a tradição. Sei o que padecem e o que se preocupam porque, infelizmente, embora apareçam muitos para ajudar, os responsáveis máximos, os que tomam a responsabilidade de liderar e dirigir a função, são quase sempre os mesmos e até quase só membros de duas ou três famílias.
Este ano a presidência da Festa foi assumida pelo Nelson Medeiros, luso-californiano, descendente de pai faialense e mãe picarota. Supervisor de uma companhia de construções e corredor de meias-maratonas nas horas vagas, o Nelson conta com a ajuda do irmão Mark Medeiros, ajudante de xerife no Condado de Sacramento, que já foi vice-presidente da Festa em anos anteriores, bem como do imprescindível apoio das respectivas famílias e uma mão cheia de amigos. Lá estará o encarregado da cozinha, o simpático Renato Silva, homem com mão treinada para os temperos, acompanhado pelos seus irmãos, o Ricardo, especialista a lavar as panelas e a temperar o tremoço e o José, desembaraçado pau-para-toda- a obra. De certeza que também vou encontrar o meu amigo Manuel Garcia, homem já muito calejado e experiente nestas andanças, bem como farei uma visita à barraca de bugigangas da Goretti e do primo dela, Steven Oliveira, onde vendem os produtos da Rooster Camisa. Como expliquei acima, esta é uma festa da família – como todas as outras Festas por esta Califórnia abaixo – e, assim sendo, as esposas também dão o seu contributo, seja nas cozinhas, nas decorações e até na quermesse.
Este será um ano especial, uma Festa especial para o Mark e para o Nelson Medeiros. Imagino que quererão empenhar-se de forma sincera num agradecimento ao Divino Espírito Santo. Viram os seus pais acometidos por doenças graves que lhes causaram muitas preocupações mas, felizmente estão nesta altura, em quase total recuperação. Poderemos todos novamente compartilhar do amável sorriso da Senhora Gabriela e do Senhor Felisberto Medeiros.
Por minha parte, quero que estes dias que nos separam da Festa do Lincoln passem depressa, estou ansioso para provar o arroz-doce da Senhora Rita Garcia... e as sopas do Renato.
Já passaram à História as Festas dos irmãos «Papagaio», bem como as do Império do Chafariz Velho. Aqui, em Lincoln, perdidos no meio desta imensa Califórnia, espero que continue por muitos mais anos esta Festa, no 5º Domingo da Trindade. As filhas do Nelson Medeiros, que este ano são as Rainhas, bem como os primos delas, filhos do Mark, vão saber manter esta tradição, já quase centenária.
VIVA A FESTA DO LICOLN!
Lincoln, Ca. Abril, 13, 2018
João Bendito

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