Eu, Noé?
Quando o meu filho António era muito pequeno, uma educadora do Colégio de Santo António, no Faial, pediu-me para fazer uma canção que pudesse ser cantada pelas crianças da sala.
Foi a primeira canção que fiz para a pequenada e contava a história de Noé.
Passadas umas semanas, fui buscar o meu filho ao Colégio. Quando entrei no quarto onde as crianças esperavam os seus pais, surpreendi-me saudado por um coro: “Olha o Noé!”.
Fiquei embasbacado. Mas não quis roubar a ilusão aos pequeninos. Explicar-lhes que mal sabia nadar, muito menos construir frágil jangada, apenas juntara notas musicais, palavras e uns dez animais numa canção. Um Noé bastante atrapalhado, convenhamos.
Era, no entanto, tal a alegria daquela pisca de gente, que decidi guardar segredo. Teriam tempo para crescer e descobrir que, afinal, só salvara uns poucos bichos, que haviam saído pelas janelas das suas bocas, resvalando nos dentes de leite que esperavam a sua vez para irem também, dando lugar aos que doem.
Fiquei Noé dois ou três anos.
Faz amanhã oito dias, participei num concerto no Auditório do Ramo Grande, com a Filarmónica União Praiense. Comemorava-se o 25 de Abril.
Ao longo do concerto, emocionei-me várias vezes. Só não desafinei porque tive cabeça para fechar a boca ocasionalmente, quando as lágrimas tentavam afogar as cordas vocais.
Gente muito nova, quase crianças, a tocar afinadamente instrumentos difíceis, entoando canções que me são caras. Tristemente, muitas delas fazendo mais sentido hoje do que faziam no próprio dia 25 de Abril, em 1974.
No dia seguinte cruzei-me com algumas dessas crianças no parque de estacionamento da minha escola. Vinham a pé, em rancho, não sei se serão alunos da FOC, se da Vitorino, tendo ido em passeio de estudo a algum lugar.
Claro que me reconheceram e também gritaram: “Olha o senhor do 25 de Abril”.
Pela segunda vez fiquei sem palavras. Não tinha tempo para lhes explicar que não sou nada o senhor do 25 de Abril. Que quando aconteceu o mesmo era pouco mais velho que eles, tinha 15 anos, Otelo apenas me soava a Shakespeare, Vasco encaminhava-me para Santana, e Maia era tão só uma abelha. Nada sabia de Saraivas, de Lourenços, de Salgueiros que não fossem árvores.
Quem me dera, crianças da minha terra, tivesse sido digno da vossa alegria. Não ter falhado tanto, ao longo dos últimos 44 anos. Ter ajudado a construir um País mais justo. Tentei, mas não me deixaram. Os abutres são terríveis, aprendereis isso pela vida fora.
Já não tenho a força que tinha. Mas, se me quiserem para uma espécie de Noé do 25 de Abril, cá estou. Construirei uma arca enorme, podeis crer. Não sozinho, claro. Com a vossa ajuda.
Combinemos, no entanto, desde já uma coisa: vamos deixar alguns bichos à porta, para que as águas os levem para longe, e possamos começar de novo, mas sem parasitas nem hienas que riam de nós enquanto nos comem vivos…
António Bulcão
(publicado hoje, no Diário Insular)

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