De 1953 a 1956, fui aluno da Theodore
Roosevelt High School, em Washington, capital dos Estados Unidos. Durante o
primeiro ano, uma vez por semana ia para a escola de uniforme militar e fazia
exercícios de ordem unida, com um rifle no ombro, antes de começarem as aulas.
Aprendi a desmontar e a remontar o rifle. Certa vez, participei de uma manobra
militar junto com outras
escolas públicas da região. Nunca fiquei sabendo se a guerra simulada era entre as escolas ou de todas contra um inimigo comum. Voltei para a escola sem ter visto o inimigo e sem saber o resultado da guerra. Mas não havia dúvida sobre quem seria o inimigo real do país numa guerra de verdade. No mínimo uma vez por mês tínhamos um ensaio para o caso de ataque nuclear. Íamos todos para o porão da escola, onde só o impacto direto de um foguete nos liquidaria. Fora isso, sobreviveríamos e sairíamos dali com nossos rifles vazios prontos para deter a invasão russa.
escolas públicas da região. Nunca fiquei sabendo se a guerra simulada era entre as escolas ou de todas contra um inimigo comum. Voltei para a escola sem ter visto o inimigo e sem saber o resultado da guerra. Mas não havia dúvida sobre quem seria o inimigo real do país numa guerra de verdade. No mínimo uma vez por mês tínhamos um ensaio para o caso de ataque nuclear. Íamos todos para o porão da escola, onde só o impacto direto de um foguete nos liquidaria. Fora isso, sobreviveríamos e sairíamos dali com nossos rifles vazios prontos para deter a invasão russa.
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Nas aulas, a primeira coisa que fazíamos todas as manhãs era botar a mão sobre
o coração e jurar fidelidade à bandeira dos Estados Unidos da América e à
República que ela representava, com liberdade e justiça para todos. Mas na
época, principalmente no Sul dos Estados Unidos, a liberdade e a justiça não
eram para todos. A discriminação racial era oficial nos Estados do Sul e a
segregação racial, oficial ou não, existia em todo o país. Eu ainda cursava a
Roosevelt High quando a Suprema Corte americana determinou o fim da segregação
nas escolas. Lembro dos primeiros negros chegando à Roosevelt. Em outras
escolas houve distúrbios. Alunos brancos reagiram violentamente à “invasão”, a
polícia teve que intervir, os conflitos duraram semanas e a verdade é que uma
integração verdadeira nunca aconteceu. Na Roosevelt, ouvi muitas queixas e
expressões de revolta, mas houve paz. Sempre atribuí isso à quantidade de
alunos judeus na escola - fáceis de identificar, eram os que faltavam à aula
nos feriados judaicos - provavelmente filhos de pais mais liberais do que a
maioria. Não sei. O fato é que termos colegas negros tornava menos hipócrita o
juramento diário à bandeira.
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Eu provavelmente tinha mais contato com negros em Washington do que todos os
meus colegas brancos. Frequentava o teatro Howard, onde havia shows de rhythm
and blues depois do filme, e eu era sempre o único branco na plateia. Fora
olhares de surpresa, não provoquei nenhuma reação. Nos concertos de jazz também
era minoria. Na escola, fiz amizade com um dos negros recém-chegados - Joseph
Taylor. Descobri, decepcionado, que ele não tinha nenhum interesse por jazz.
Era um cara sério. Naquele mesmo ano houve uma eleição no nosso “home room”, a
sala onde nos reuníamos todas as manhãs para saudar a bandeira e ouvir anúncios
e instruções antes de nos dirigirmos para as aulas. Uma colega, loiríssima,
propôs o nome de Joseph para presidente da turma, baseada mais na sua cara
séria do que em qualquer outra coisa. Ele foi eleito. Não houve discursos,
ninguém destacou o significado do que tinha acontecido, o próprio Joseph parecia
ser o mais surpreso de todos e ele e a menina loira voltaram para os seus
respectivos mundos que provavelmente nunca mais se cruzaram. Mas tínhamos feito
o nosso pequeno e distraído ritual de integração. Isso há mais de 60 anos.
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Alguns anos depois fui visitar a Theodore Roosevelt High School. O bairro em
que morávamos agora só tinha famílias negras. A escola só tinha alunos negros.
A segregação não oficial continuava.

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