O PLANETA DOS HUMANOSAUROS
(UMA ESPÉCIE DE FÁBULA)
Muitos milénios depois do Big Bang, o momento em que do nada se fez tudo, os Deuses estavam a ficar impacientes com a sua obra, principalmente no que dizia respeito a um planetazinho da Via Láctea. Era o planeta onde a água se misturava com a terra, de forma que os Deuses deram-lhe o nome de LAMA.
Reuniram em conselho diretivo, lá nas alturas dos seus tronos celestiais e decidiram que tinham que tomar medidas drásticas para resolverem os males de Lama. Elegeram então uma Deusa e entregaram-lhe a responsabilidade de tentar consertar o que estava escangalhado, já que só uma mulher poderia meter mãos ao assunto e arrumar a casa de uma vez por todas.
A Deusa, de nome Sabedoria, experimentou de todas as formas e feitios mas não dava conta do recado. Ainda pediu ajuda às suas primas Ciência e Inteligência mas nem sequer elas conseguiram reverter a situação. Frustrada, já cansada de tanto lutar contra a ignorância e a maldade dos mortais, bateu com a porta (foi o segundo Big Bang...) e esvoaçou pelos céus, dizendo: “Vocês que tomem conta de si, eu vou pregar para outro planeta”.
A partir dessa altura, nunca mais o planeta Lama teve tafulho. As espécies de animais iam-se multiplicando, mudando de formas e cores conforme se adaptavam a novos ambientes e condições climatéricas. De entre todas, uma das espécies começou a distanciar-se das outras pela sua capacidade de construir novas ferramentas e até, pasme-se!, pela maneira como conseguia dominar o fogo. Esta espécie, resultado do cruzamento entre primatas e dinossauros (cruzes, credo!), inicialmente era conhecida por macaco-sauros. Contudo, com o passar dos séculos, resolveram trocar o nome para um mais evoluído, digamos assim, pois que, nessa altura, chamar macaco a alguém já era um pouco deselegante. Passaram, então, a chamar-se a si próprios os Humanosauros, termo que os conectava com as suas origens terrenas, o húmus, o chão lamacento que os rodeava.
Os humanosauros espalharam-se pelos quatro cantos de Lama, descobriram novas terras e criaram novas civilizações. Começaram a aparecer algumas diferenças entre eles: uns eram escuros como tição, outros brancos como papel, que foi, aliás uma das suas grandes invenções, ali para os lados do Reino da Cochinchina, lugar onde também descobriram a pólvora, uma espécie de areia que dava uns estrondos medonhos e que servia para assustar os outros animais e fazer fogo-de-artifício. Tiveram também algum mérito, não foram só fazedores de asneiras. Para além de desenvolverem formas diferentes de dialetos e de escritas, dedicaram alguns momentos às artes, às letras e à música. Nem tudo foi tempo perdido...
Os humanosauros eram uns tipos esquisitos. Por tudo e por nada brigavam uns com os outros, chegando mesmo a desenvolver sentimentos que nunca foram vistos nos outros animais: ódio, vingança, ganância, raiva... De nada lhes serviam as preces que, hipocritamente, rezavam aos Deuses seus criadores. As religiões, que criaram e mantinham ao som das falsas batidas nos peitos, eram mais elementos divisórios do que aglutinadores. Especializaram-se em criar guerras, em construir armas poderosas que aniquilavam milhares dos seus semelhantes de uma assentada. Montaram estruturas e hierarquias, dividiram-se em partidos políticos, alistavam-se em exércitos descomunais e puseram as suas descobertas tecnológicas ao serviço da destruição e do extermínio de culturas e de riqueza. E que dizer da Escravatura, esse negócio sujo e triste que permitia que uns poucos subjugassem muitos mais?
A Deusa Sabedoria, arrependida de se ter posto à vela, tentava, amiúde, fazer chegar um pouco de razão, de discernimento à mente dos humanosauros. Os seus esforços eram em vão, havia sempre um ditador, um espertalhão que punha tudo a perder e, com demagogia, fazia-se passar por salvador do Mundo. Lama, o planeta-mãe, estava a rebentar pelas juntas, fedia de poluído. Das suas entranhas lamacentas saiam montanhas de materiais que, depois de modificados, ainda deixavam mais lixo nos ares e nas águas; espécies inteiras definhavam a olhos vistos, desapareciam para todo o sempre, sem mesmo deixarem vestígios.
Das profundezas do Espaço, no ano 2020 da Era Diabólica, chegaram até Lama uns animais muito estranhos. Vindos de Cascos de Rolha, uma galáxia que aos olhos dos humanosauros não passava de uma cagadela de mosca no mapa do Universo, os Sabichões, assim se chamavam esses viajantes espaciais, desembarcaram cheios de boas intenções, embora um pouco desiludidos por terem ficado, logo de entrada, com as botas cheias de lama de Lama. Foram recebidos com gritos e apitos, alvo de grandes manifestações populares e cerimónias oficiais.
“Mandou-nos a nossa Deusa Sabedoria, uma santa mulher que um dia caiu do céu mesmo no meio do nosso planeta”, disse o que parecia ser o chefe dos Sabichões. “Deu-nos como missão fazer-vos recordar aquilo que já esqueceram. Para que voltem a gostar de ouvir música, ler um bom livro, apreciar a natureza. Procuraremos reconstruir, com a vossa ajuda, o que havia de bom no vosso planeta, limpar esta lama em que chafurda o povo de Lama. Vocês merecem melhor do que isto. Mas todos, mesmo todos, têm que meter as mãos à obra e desenriçar os cordelinhos da vossa existência, fazer acontecer, como bem diz um jovem filósofo das Ilhas Açóricas”.
De pouco serviram as boas intenções. Quando quiseram encontra-se com o Presidente-mor dos ameri-humanosauros, o todo poderoso Don Aldo Trompetista – mestre desafinado a tocar música de ouvido – viram logo rejeitadas todas as suas propostas. “Podem voltar para o vosso shit-hole planeta. Não vos quero aqui, já mandei construir uma muralha altíssima nas nossas fronteiras e agora, para que não venham vocês também aí do espaço, vou mandar pôr uma forte rede metálica à volta da atmosfera de Lama. E, se vocês insistirem em vir cá meter o bedelho, eu tiro-vos as vossas crianças à entrada! Cá comigo ninguém brinca!”, gritou o energúmeno despenteado, qual rei que tinha o rei na barriga.
Desiludidos, os Sabichões meteram as violas nos sacos e zarparam de volta a casa. Deram razão à deusa Sabedoria, não valia a pena malhar em ferro frio. Esmoreceram os humanosauros mais esclarecidos, inimigos do Trompetista, por que viram gorada a oportunidade de voltarem a ser felizes.
Lama continuou suja, podrida, espezinhada, à espera de uma revolução de ideias, de um ressurgir de valores, de algo que livrasse o pobre planeta dos déspotas ditadores. Os animais deste planeta têm que dar as mãos (melhor dizendo, as patas, estamos a descrever uma fábula...) e caminhar de cabeça erguida, contra a repressão e contra as desigualdades.
Quantos milénios mais vão ser necessários até que surja uma nova espécie – os Humanos – capazes de limparem a lama deste planeta e dar-lhe a dignidade que tanto merece?
Pelo menos para que não haja mais Fábulas como esta...
(PS: Qualquer semelhança com factos ou pessoas reais é pura coincidência)
Lincoln, Ca. Maio 31, 2018

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