A gaivota e a pomba
Tinha acabado o ensaio da pequena peça de teatro, no auditório da escola.
A Secundária Vitorino Nemésio tem pombas a viver por lá. Arrulham o tempo todo. Não sei se fazem ninho nos beirais. Mas voam e pousam como quem se sente em casa. Talvez aprendam coisas, sei lá.
Vivem em paz. Pouca coisa as perturba, ninguém as chateia.
Mas, naquele fim de tarde, uma delas apanhou um susto. Uma gaivota enorme veio do mar, agarrou-a em pleno voo e atirou-a para a relva. Sempre pensei que a pomba teria vantagem. Mais pequena e ágil, soltar-se-ia facilmente, fugiria para longe.
Mas não foi assim. A gaivota abriu as asas, fechou todos os planos de voo e bicou várias vezes. Que bico enorme tinha. Penas voavam às dezenas. Quase daria para uma almofada, o que ficou de penas rapidamente na relva.
Bati no vidro e a gaivota assustou-se. Que majestade a sua, afastando-se num batimento ritmado de asas como se aqueles ares fossem todos dela. A pomba aproveitou e refugiou-se entre dois dicionários de pedra. Estava salva, embora quase nua.
Fiquei a pensar. O que teria passado pela cabeça daquela gaivota? Deixar os seus reinos de vagas para vir atacar uma pomba inocente que vive em terra? Teria endoidecido? Seria uma gaivota assassina, que também as deve haver?
Passados dois dias, vinha de carro para casa e vi uma gaivota em cima de uma pomba, na estrada. Não devia ser a mesma gaivota e de certeza não era a pomba da outra vez.
Acelerei, pronto para um segundo salvamento. Já me sentindo uma espécie de protecção civil pombal, que sina a minha. Apitei e a gaivota levantou, o carro era maior que ela.
Só que por esta pomba já nada havia a fazer. Estava morta, de asas abertas no asfalto.
Esventrada. E foi aí que entendi tudo. A gaivota estava a comer a pomba. Já a outra, dois dias antes, devia querer comer também.
Se é por fome, estão desculpadas as gaivotas, por fazerem o que antes não faziam.
Que triste. Falta peixe no mar e as gaivotas passam fome. Ou atacam outros pássaros, que nenhum mal lhes fizeram.
Talvez venha o dia em que sejamos nós a levar bicadas. Com Hitchcock a rir-se, por ter previsto bem a tempo. Vêm aí tempos de fome. Talvez nos atiremos de penhascos à cata de pombas desprevenidas. Ou de gaivotas. Ou nos comamos uns aos outros.
Para já, pobre pomba que já não voarás mais, por teres saciado uma gaivota faminta, se te serve de consolação, morreu uma baleia na Tailândia. Nos seus intestinos os veterinários descobriram oito quilos de plástico…
António Bulcão
(publicado hoje no Diário Insular)

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