Poema inédito de Adelaide Ivánova
Na série de inéditos, poema de Adelaide Ivánova (Recife, 1982).
menino há dias tento desenrolar esse fio esse laço
desatar essa corda do meu pescoço e escrever
essas mal domadas linhas ofertá-las a ti menino e potro
surgido nesta estepe sem ferradura e assilvestrado
tirando os cowboys da sela e do sério: tu
menino poeta cavalo
e eu repetitiva nos poemas obcecada na vida
me embaralho feito cego em faroeste
ofereço-te meu açúcar meus torrões mais
pra pangaré ou mula que pra égua e relincho,
amolestada e paleolítica, ao sacudir do teu galope
e ao balanço da tua crina
em repouso do topo da tua cabeça à minha
há um côvado de distância já em galope gallardo
é inútil a antropometria pois da tua glande a meu chanfro
de equina não há côvado que nos meça yoctômetros
talvez aquela medida imaginária que nunca foi usada
pois mede lonjuras que não existem de tão mínimas
escrever um poema pra ti é domar um mustang
de santuário quando pra mim santo és tu menino
vishnu que me batizas de aminoácidos, precário
e matutino, potro poeta e menino a quem dedico horas
de trabalhos não-forçados: pousar a fuça exausta
em tua soldra, levemente triste
de não poder ver tua cara enquanto gozas na minha
para depois admirar tuas quartelas bordo e casco,
tuas estrias no lombo de potro bem alimentado crescido
mais rápido que o previsto. pulaste as cercas do estábulo
para chegar, poeta e cavalo, nestas paragens onde
me encontras pronta de sela, esporas postas
para mais uma doma nesta sodoma aos avessos
sem cabresto nem gamarra deito-me devota em teu garrote
de puro-sangue belga e muda diante dos músculos
do teu costado aguardo brião e tala e entendo
o poema alemão que diz: toda a sorte que há
no mundo vem no lombo de um cavalo.

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