Carlos
Reis publicou na Revista Colóquio/Letras a recensão que se transcreve.
MARCOLINO CANDEIAS
NA DISTÂNCIA DESTE TEMPO
Sec.
Regional da Educação e Cultura
Angra do
Heroísmo / 1984
Da «distância deste tempo» (título emblemático do
livro e do poema final) faz-se e alimenta-se esta colectânea, enunciada a
partir de uma certa forma de activação da memória poética: memória que é ao
mesmo tempo superação da distância e compensação da ausência, mas também forma
de permanência. De
intensidade lírica, de discreta concentração vivida na
intimidade da solidão, é feita essa permanência em que a imagem da Terceira
ausente perpassa e deixa a marca do tempo perdido e da angústia silenciosa:
«Então o silêncio cresce cada vez mais invadindo as paredes do meu quarto /
assim como um bolor que vai nascendo e envolve o lar tomado de abandono»
(p.54); um bolor que não pode senão trazer à lembrança palavras de Carlos
Oliveira, retomadas por Abelaira: «Os versos / que te digam / a pobreza que
somos / o bolor / nas paredes / deste quarto deserto».
Instância fundamental da criação poética, a memória
é, nestes versos de Marcolino Candeias, a origem da poesia, origem patenteada
no belíssimo «Poema de saudade ardente», quando se evoca o desejo de ficar
«formigando sobre o mel da chegada» (p. 25), porque a imagem obsidiante no
espírito do poeta é ainda e sempre a da ilha ausente. Uma ilha que traz consigo
pessoas, situações, episódios e também os laços afectivos que a todos
congraçam: a figura do Pai, também João Vital, Chico Veríssimo e Joe Simas,
tornados todos ainda mais distantes por efeito da morte ou da emigração, esta
última uma temática de nítido recorte açoriano. Justamente por força da
sobrevivência, na memória, destas figuras, a poesia de M. Candeias é também uma
poesia do tu, logo feita poesia do nós, graças a esse
diálogo com os ausentes que serve ainda para superar uma qualquer forma de
saudade passiva e inconsequentemente sentimental, abolida de modo radical deste
volume.
No fundo deste cenário recorta-se, pois, a ilha, os
seus objectos, espaços e motivos; espécie da Ítaca reconstruída por uma saudade
activa, a ilha inspira um regresso sublimado em imagens cuja depuração lírica
roça a intemporalidade de certo modo perseguida por toda a poesia: «No cheiro a
erva / um sonoro subtil soar de silêncio / brota um crepúsculo de flores
esmagadas» (p. 37). Por isso a poesia de Marcolino Candeias passa ao lado da
questão (da polémica, se se quiser) da «literatura açoriana»; sem abdicar de um
elenco temático marcantemente relacionado com a terra açoriana, a poesia de M.
Candeias escapa à armadilha do folclorismo pitoresco: filtrada pelo crivo de
uma emoção lírica refinada, esta poesia estende uma ponte firme entre esse
elenco temático e a vivência de mitos e temas (a morte, o tempo) tão ancestrais
como a própria poesia. Por isso este volume constitui inegavelmente um marco
importante na (por ora) breve produção deste jovem poeta.
Carlos Reis

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