TOURADA
Esta talvez vai ser uma crónica só para terceirenses. Ou, quando muito, algum jorgense ou graciosense, se os houver entre o grupo de leitores que fazem o favor de me aturar.
E, se calhar, isto nem vai ser uma crónica. Acabará por ser só uma brincadeira que, espero não seja mal interpretada. O meu pai, que tinha um mordaz sentido
de humor, dizia que a brincar também se podem dizer as verdades. Depende da situação e do assunto, acrescentaria eu, sem querer menosprezar a astúcia do meu progenitor.
Ora bem, como deve acontecer com muitos de vocês, e porque estas novas tecnologias de comunicação o permitem, eu tenho um grupo de fiéis amigos com quem troco frequentes mensagens. Escrevinhamos sobre assuntos variados, através dos emails ou das redes sociais. O mais interessante é que, com alguns deles, eu nunca sequer falei pessoalmente! É o caso da graciosense M. M. C. que me tem ajudado imenso no projeto de um futuro livro que, por enquanto, ainda está na gaveta (espero facultar mais pormenores dentro em breve) ou do J.O.R., “praiana” residente no Reino dos Algarves. Conhecemo-nos desde criança mas nunca trocámos uma palavra de cara a cara. Contudo, as distâncias não impedem uma salutar troca de impressões e até de brincadeiras.
Foi o que aconteceu esta semana com o meu amigo algarvio-por-empréstimo. No meio dos comentários do dia-a-dia da política, os tópicos de conversa acabaram por cair nas diferenças entre as touradas à corda da Terceira e as que os meus vizinhos californianos já não dispensam aqui no fértil Vale de San Joaquim. Então, o J. , no meio da folia, deixou-me este naco de prosa:
“”Ouvi dizer que vai haver uma toirada à corda em Washington, DC, coisa nunca vista! Os ganaderos de gado bravo da Califórnia ofereceram 3 toiros corridos e um novel ganadero da capital, um tal D. Nunes, vai apresentar um gueixo puro, parecido com um que o José Albino teve que, se bem me lembro, era conhecido por “o amarelo do José Albino...””
Eu fiquei logo arrebitado com o que li e o meu cérebro não cessou de andar às voltas. Imaginei o que poderia acontecer, vi logo os terrenos do Capitol Hill cheios de tapadas e de carrinhas com tascas rodeadas por montes de garrafas de cerveja vazias pelo chão, cascas de amendoim e de ovos cozidos misturados com pedaços de batatas fritas esmigalhadas por todo o lado. Numa delas, muito originalmente, até pintaram a ementa, em inglês (para ter mais graça), num pedaço de cartão: “Imperor’s Sandwich: White bread full of baloney, with Russian dressing, a small pickle and two cherry tomatos””. Cheguei à conclusão que as tradicionais bifanas não iam ter muita saída.
Os Supremos Mordomos desta festa, vestidos com uns mantos pretos que lhes cobriam o corpo da cabeça aos pés, nem se atreviam a pôr o nariz na rua. Do alto do seu palanque, armados em imortais juízes, atiravam umas postas de pescada uma vez por ano, que toda a gente tinha que seguir à risca mesmo que não concordassem com eles. Mas, estes arraiais eram ainda mais divertidos do que os do Parque de Diversões açoriano: Aqui, nesta terra de grandezas, há “touradas” todos os dias! Tudo graças ao “Amarelo”, o tal bovino que o meu amigo J. me fez recordar, e que vai a todas. E graças, digamos a verdade, também aos amigos dele (do “Amarelo”, claro), uns ricaços comunas, comandados por um tal filho de Put...in, que, do outro lado do mundo, andam a ver se escangalham as festividades deste Império.
Bem dizia o Tordo:
Entram empresários moralistas/Entram frustrações/Entram antiquários e fadistas/E contradições/E entra muito dólar muita gente/Que dá lucro aos milhões./E diz o inteligente/Que se acabaram as canções.
(Para bom entendedor, meia dúzia de rimas bastam, diria eu).
Mas o “Amarelo”, filho do célebre “Descornado”, era o bombo (e bobo) da festa. Tanto se vangloriou e badalou que conseguiu convencer grande parte dos paroquianos que ele é o melhor do mundo e arredores. Fizeram-lhe a vontade, ferraram-lhe nas rechonchudas nádegas o número 45 e puseram-no no terreiro, qual pavão disfarçado de toiro. Nunca mais deu corda que prestasse e agora já a vai sentindo apertada no pescoço. Como toiro puro que é, dá saltos que nem macaco e esborralha um monte de paredes, em vez de as construir. Não há pastores que sejam capazes de lhe segurar a corda nem capinha que não apanhe uma marrada jeitosa. Espuma pelos cantos da boca e arremete ao mais pequeno desafio. Marra com os olhos fechados (como as vacas bravas) e nem se assusta com os bombães. Não há tapada que lhe resista, tudo destrói às cabeçadas, escorrega às quatro patas no quente alcatrão da estrada mas não se importa com isso, mete o rabo entre as pernas e corre para outro lado, à cata de novas vítimas. Se assusta senhoras e crianças nas fronteiras deste arraial, isso é coisa de somenos para ele, é toiro desavergonhado e maldoso, daqueles que até pega nos donos, como a rapaziada dizia nas nossas improvisadas brincadeiras de criança.
Famoso a guindar paredes para se meter com vacas tresmalhadas, paga-lhes às escondidas os serviços de inseminação e usa de todos os estratagemas possíveis para tapar os olhos aos aficionados. Brigão por natureza, ignorante sem educação ou princípios, arma zaragatas com os reis das outras manadas e depois mete-se nas encolhas, armado em santo, mansinho. Quando um dia o conseguirem encurralar e o meterem na gaiola, dará coices estrondosos mas vai arranjar maneira de fugir e todos sabemos como é toiro fugido, é mais perigoso ainda. Infelizmente para nós, vai passar o resto dos seus dias nos campos relvados das suas pastagens privadas, acompanhado pela sua novilha estrangeira, uma daquelas que nem para dar leite servem e que não se importa nada que ele durma em estábulos alheios.
Haverá sempre quem considere o “Amarelo” como o melhor toiro que já existiu, ao contrário dos que só reconhecem nele um Minotauro perdido num labirinto de mentiras e intrigas. Para mim, esta vai acabar por ser uma grande maloada daquelas que vão ficar na História.
Ao fim e ao cabo não há nada mais certo do que o famoso ditado terceirense: com toiros e gente tola... paredes altas!
Agora tenho que mandar esta brincadeira ao meu amigo J.O.R., a ver o que ele diz. Cá fico, pacientemente, à espera da resposta dele. Os outros aficionados que não gostarem desta brincadeira, pois que digam ao Inteligente que me mande calar.
Glossário, para os não-terceirenses:
Pastores: os homens responsáveis por controlar o touro nas touradas à corda
Capinhas: toureiros populares nas touradas à corda
Bombães: (pronúncia popular): foguetes que anunciam o começo e o fim da tourada
Gaiola: jaula para transporte dos toiros.
Maloada: quando os toiros são mansos como “melões”
Inteligente: o director das touradas de praça
Lincoln, Ca., Setembro 6, 2018
João Bendito.

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