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terça-feira, 25 de setembro de 2018

Da minha janela um espreitadela pelo facebook


Albino Manuel Terra Garcia
  
MEMORIAIS

Logo este ano, a habitual doença não me possibilitou participar nas festividades em honra do apóstolo São Mateus que incluíram a comemoração dos trezentos anos das erupções vulcânicas de 1718. 

Apesar de tudo e ainda com incómodos, consegui ir hoje à missa dominical na igreja paroquial dedicada a este evangelista e, ao mesmo tempo, santuário diocesano do Senhor Bom Jesus Milagroso. Apanhei, assim, um solene e brilhante rescaldo da festa, já sem rosquilhas nem outros atrativos e pormenores que gostaria de ter presenciado. Missa solenizada com a presença dos paroquianos de São Mateus, São Caetano e Santa Margarida da Terra do Pão. A vivência renovada de um voto trissecular a juntar esta gente em confraternal devoção.

Aproveitei para presenciar e admirar, in loco, o excelente memorial erigido na divisória das duas freguesias e só tive pena de não poder apreciar a exposição do Filipe Gomes na Casa dos Romeiros que se encontrava fechada.

Durante a missa de hoje não me saiu da cabeça a lembrança de minha tetravó, Rosa Viluda, que um dia teve de abandonar S. Mateus, aos 17 anos de idade, e procurar refúgio, que inicialmente lhe foi negado, na freguesia das Bandeiras. Escorraçada, abandonada e desprezada por todos, principalmente pelo progenitor, em virtude de ter gerado em si uma filha, que era também do namorado, minha tetravó Rosa "Viluda" teve de assumir o seu criminoso pecado sozinha. Crime e escândalo social, na altura oficialmente apontado por todos. Pecado grave, julgado e declarado pela religião como de bradar aos Céus. E, porque era de família abastada e localmente considerada, não poderia permanecer mais entre aquele povo como nódoa desprezível a sujar o bom nome dos seus.

Feita a trouxa essencial, Rosa subiu, então, os caminhos do mato em busca de esconderijo para que a sua vergonha não fosse curiosamente testemunhada. Esperou pela noite e pôs-se a caminho das Bandeiras onde tinha uma tia-madrinha que sempre lhe dedicara a maior afeição. Conhecia mal aqueles caminhos velhos por onde só passavam carros de bois e trabalhadores rurais durante o dia. Sabia, porém, distinguir os rumos certos visto tê-los já percorrido anteriormente, na companhia dos familiares, por ocasião das festas em honra de Nossa Senhora da Boa Nova e outras em que fora de visita à sua madrinha, lá casada e residente.

Que pensamentos, que medos, que angústias transportou esta rapariga, desesperada, dentro do peito e da alma, naquela noite de travessia do mato?! Sozinha, indefesa, sem luz nem amparo, escorraçada da família, por caminhos velhos e irregulares. Talvez sem lua, não sei.

Abandonada pelo namorado logo que este soube da sua gravidez, minha tetravó Rosa foi, naquela noite, longe da jovem radiante de beleza e mocidade que era, uma solitária marginal sobre a qual haviam desabado todos os tremores e vulcões do mundo. E ela não tinha com quem repartir as suas angústias e medos nem a quem pedir ajuda, nem sequer a possibilidade de escolher um recanto que lhe proporcionasse abrigo mais seguro. O único ser que a acompanhava remexia-se no seu ventre como prova acusadora da culpa que assumira sozinha e não como alento que pudesse encorajar um destino incerto e aterrador. Sujeitou-se aos pavores da noite na solidão horrenda dos matos. Foram mais de vinte quilómetros a pé, aos tropeços, por entre lágrimas de desespero... Senhora do Desterro, sem José nem montada que a apoiassem nesse deserto de todos os sonhos, de todas as expetativas, de todas as esperanças... Quantos vulcões terão derramado, nessa noite, lavas e cinzas dentro do peito jovem mas abrasado, sofredor e desalentado de minha tetravó Rosa?! Mais do que fugitiva ou escorraçada, ela era uma condenada a quem ninguém reconhecia agora as qualidades que cultivara desde criança. O peso da sua culpa - Rosa sabia-o - só poderia remir-se com castigos adequados e de proporções desconhecidas. E quantos castigos a esperariam depois dessa noite escura e tormentosa? Quanto desapoio? Quanta contrariedade? Quantas dificuldades teria Rosa de experimentar enquanto suportasse a condenação da vida?...

Mais do que na sua própria vida, eu acredito que Rosa pensava particularmente na vida da sua vida, a vida nova que recebera de presente e lhe foi dada por inteiro como quem se livra de um incómodo. Um fruto do seu amor e entrega, mas também da sua ignorância e ingenuidade.

Havia, decerto, naquele momento, um vulcão ativo no ventre e na alma, no coração destroçado de minha tetravó Rosa...Toda ela ardia em incógnitos presságios e medos. Quantos sustos vieram quebrar-lhe o silêncio da noite durante aquele tenebroso percurso!? Entre todos, um houve que a fez estremecer da cabeça aos pés e veio sobressaltar o sono inocente do cândido ser que transportava na barriga. Foi a voz do mocho que ecoou, medonha e pavorosa, como um potente grito humano, suplicante de dor e pânico, a ecoar e a ampliar-se aflitivamente pelas quebradas da montanha. Rosa nem sabia da existência de mochos na ilha e, mesmo depois disso, demorou a que alguém lho dissesse. Mas nem a explicação serviu para lhe aliviar o arrepio cortante que sentia sempre que lhe vinha à lembrança aquele som aterrador que ela, no momento, pensou ser a voz do Diabo a procurá-la para ajustar contas com o seu gravoso pecado. Isso mesmo lhe vaticinara o pai nas últimas falas que lhe dera enquanto a expulsava de casa. Que, a partir de agora, o Diabo havia de tomá-la por sua.

A vida de Rosa foi sempre dura, difícil e amarga até ao fim. Legou essa infelicidade à única filha que teve e a todos os seus descendentes como castigo geracional e eterno.

Hoje a minha imaginação recriou novamente todas estas imagens ao contemplar as ruínas da casa dos "Viludos", aos Bagaços, agora Rua Formosa, onde a formosura de minha avó Rosa despontou e se afirmou para logo murchar em mágoas e desalento. Mais à frente e tão próximo, o vistoso e bonito monumento em memória do Vulcão de 1718 e do respetivo voto popular. Demorei-me na apreciação, olhando a um lado e outro os dois marcos que me tocam fundo: um novo, outro em ruínas.

Não sei se minha tetravó Rosa Viluda está contemplada nesta última memória recente de dois dias...

Só sei que me sinto hesitante entre os dois memoriais que contemplei em simultâneo. A qual deles atribuir maior valor e significado? Ao belo monumento coletivo concebido pelo meu jovem amigo Carlos Gabriel, filho de amigos, que eu me habituei a considerar desde muito novo, até pela sua exemplar prestação como membro ativo de um dos meus grupos de espeleologia? Ou àquela velha casa em ruínas que agora é pertença da Hortense Silveira e que antes foi de seu pai Guilherme do Bento e, muito antes ainda, dos "Viludos", meus antepassados? Cenário de amores, desamores e tragédias tantas, berço privilegiado de minha tetravó Rosa que ali nasceu rodeada de promessas e de substancial conforto. Não tivesse a lua dado uma volta tão grande e rápida no arco do destino...

Por mais que tente, hoje não me dá para pensar em outra coisa.


Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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