Crónica epistolar do fim da época canícula
O Verão político foi penoso.
É o efeito ultravioleta de quem já revela cansaço e ideias enrugadas pela insolação do tempo.
E como não há ideologia, vamos assistindo cada vez mais a muita hipocrisia.
A política partidária tornou-se num farelo de ética e a época de veraneio foi forte como o cheiro a caipirinha da festivaleira estação.
Eles com a saga dos incêndios. Nós com a saga da falta de água. Eles com a escandaleira de Tancos. Nós com aquela história pitoresca do helicóptero “desviado”.
No Bloco foi o choque com a novela betinha do Robles.
No PSD de cá, foi o ridículo de José Manuel Bolieiro no ‘prá frente e pra trás’ no apoio a um dos candidatos à liderança, certamente depois de ouvir forte raspanete do ainda líder.
No PS, silêncio total perante tantos ‘casos’, como aquele intolerante “desabafo” homofóbico, que ilustra esta nova vaga ideológica do estado moderno insular, onde pontifica a linguagem endogâmica de uma nova cultura política, já que o socialismo há muito que está engavetado nos Açores.
Vamo-nos amanhando com os paradoxos tipicamente regionais - o ‘faraonismo’ e o ‘esmolismo’ -, sendo a inacabada obra da Casa da Autonomia o exemplo mais glorioso do nosso RSI cultural.
Nestas ilhas é ide e pregai os sucessos do novo ciclo, o de satélites, unidades tech e outros air centers que nos hão-de guiar a uma vida hossana.
Desemprego, pobreza e região falida não fazem parte do léxico híbrido dos novos poderes. Uma secretária, um computador, subsídio garantido e temos o empreendedorismo ilhéu na sua forma romanesca.
A forte onda de calor que atravessou os nove bocados de deserto demográfico, plantado num mar que dizem riquíssimo, mas confinado com outras fronteiras onde os poetas vislumbram “califórnias perdidas de abundância”, vai toldando muitos dos episódios da “silly season”.
O povo pena para ter uma consulta? É o preço do nosso SRS, magnânimo na cunha e coerente no desperdício.
Não é familiar de um administrador hospitalar? Então não tem assento na hélice elevadora do sector.
Empresas falidas? Há a solução suprema de as fechar, integrar o passivo no nosso bolso e absorver toda a gente na galáxia do sector público.
Somos os piores na Educação? Em contrapartida somos os maiores a investir em festas e festivais.
A SATA está um desastre? Já nem é notícia. Ela reflecte o estado da região.
Cá nada! Vivemos de sucesso em sucesso.
A megalomania não é um tique. É todo um programa da nomenclatura que vive refastelada nos palacetes da política arquipelágica.
Mergulhar em águas límpidas neste imenso mar político da nossa parvónia, é chão que deu uvas, agora que as vindimas até são muitas, mas pouco sumarentas.
A boa pinga agora é outra e os almocreves da nossa política sabem onde encontrá-la, enxertá-la e fazê-la render no rodopio dos fundos estruturais que ainda nos sustentam.
Nesta imensa vindima, não há vinhateiro que resista a tanto míldio político.
A região está bem e recomenda-se.
Tomem lá mais turismo e deixem-se de balelas, que as novas gerações, menos ingratas, hão-de reconhecer todo este sucesso empreendedorístico do continuado endividamento.
Os ingratos que não o reconhecem certamente tiveram o Verão que mereciam.
(Diário dos Açores de 05/09/2018)

Sem comentários:
Enviar um comentário