A República de Ferro
Nos meus tempos de menino, a palavra República só tinha três sentidos.
O primeiro, era o Largo. O Largo da República ficava a escassos metros da minha casa. Mas só dizia Largo da República porque era esse o seu nome. Queria lá saber da República, do que tal pudesse ser. Interessava-me apenas o Largo.
O Largo onde volteei centenas de vezes com a bicicleta. Onde fiz corridas com a mesma, perdendo quase sempre para o Gustavo ou para o Luis. Onde esfolei joelhos, derrapado o pneu traseiro na brita. Onde me deixei ficar horas a olhar os cisnes que nadavam no lago, com os seus longos pescoços, em bailados indecifráveis que juravam amores eternos e monogamias de penas.
Ainda no Largo, não me lembro do nome da árvore nem dos seus frutos. Mas sei que estes eram longos e, depois de descascados, davam uma coisa parecida com um cigarro. Castanho. Alguns chamavam-lhes charutos. Fumei bastante daquilo, e quase juro que fui adulto às escondidas a cada baforada.
O segundo sentido era o feriado. O dia da implantação da República. Neste caso, nem sabia o significado de implantação, devia ser uma plantação complicada, até porque não é todos os dias que se planta uma República, fosse isso o que fosse para além do Largo.
Mas sabia tão bem não ir à escola nesse dia em que a tal da República se teria implantado.
O terceiro sentido foi no dia da inauguração do aeroporto do Faial.
Eu detestava o aeroporto. Tinha-me levado uma boa parte das terras de meu avô materno, onde eu corria como doido até não ter mais suor, e, sobretudo, a casa da costa, que eu adorava. Ainda hoje me deito nas cadeiras de lona, debaixo dos salgueiros e bebo água do poço na casa da costa. Só que acordo logo a seguir.
Mas no dia da inauguração tinha de ir toda a gente para o aeroporto. Afundei-me no assento de trás do Morris e nem ousei refilar.
Mau pai disse-me que aquele senhor que saía pela porta do Boing 727 era o Presidente da República. Lembro-me de ter pensado intimamente que o velhote franzino não mereceria ser sequer presidente do Largo. Meu pai acrescentou que era almirante. O que me levou à conclusão, novamente íntima, de que, se Vasco da Gama tivesse aquela estatura, não teríamos saído de Lisboa.
Claro que, depois, com a idade a avançar, soube o que era a República, o Governo da mesma, o Ministro da República e o Representante da dita, os serviços da República, Finanças, PSP e mais uns quantos.
Hoje, quando ouço Ferro Rodrigues falar em “ética republicana” fico sempre num tremor.
Onde terei falhado, na minha meninice? Deveria ter beijado cada canteiro do Largo em vez de fumar cigarros que não o eram?
Deveria ter sentido um remorso imenso por gostar do feriado, em vez de ir à escola aprender que, para além de reis de todas as dinastias, havia Presidentes da República?
Deveria ter invertido o cérebro quando, mesmo que intimamente, desrespeitei Américo Tomás?
Ah, como anseio as memórias escritas de Ferro Rodrigues. Para tentar entender em que falhei, quando menino, para ferir em termos tão sangrentos a ética da República…
António Bulcão
(publicado hoje no Diário Insular)

Sem comentários:
Enviar um comentário