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485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Do colaborador Dr. António Bulcão


A Carlota

Alinharam-se os astros e estou, finalmente, a viver numa casa à beira-mar, isolada, tendo por companhia cagarros, gaivotas e outras aves marinhas, só os seus cantos e as ondas interrompendo o silêncio com que sempre sonhei.
Na parte da casa que dá para o mar, há um alpendre e um varandim de ferro, que me ampara a artrite nos dias em que o chão está mais escorregadio, porque alagado da chuva. Amarrada a esse varandim está uma árvore seca, que recorta os seus ramos mortos mas ainda brancos no céu estrelado, enquadrando por vezes a lua cheia nos seus nós.
Esta árvore tem alguns buracos, e num deles mora uma aranha. Entre um galho e a parte superior do varandim construiu a sua teia e por ali anda, ou fica pendurada, na esperança de uma mosca ou de uma traça ficarem presas e servirem de alimento, que a vida não está para graças.
Noutros tempos seria mafu para cima e adeus. Mas este lugar suavizou-me, deixou-me mais apegado a tudo o que se mexe na natureza. Ao ponto de desviar as pontas dos sapatos de bichos da conta. Talvez seja tempo de botar contas à vida.
A verdade é que me afeiçoei ao diabo da aranha, ao ponto de lhe ter dado nome: é a Carlota. Não, nada de evocações monárquicas no nome escolhido. Trata-se apenas de uma homenagem a uma aranha que entrava num filme. Creio que era o Babe, um porquinho assim chamado ou qualquer outra fita em que o protagonista era também um suíno, que fez amizade igualmente com uma aranha, sentimento profundo que o levou a salvar os filhos da dita, quando a morte estava prestes a levar a mesma para o céu das aranhas. Acho que lhe chamava Carlota e esta, minha, Carlota ficou.
Creio que é recíproco, o sentimento que me liga à Carlota. Quando me sento lá fora, a fumar o meu cigarrito, o bicho faz de tudo para me atrair a atenção, em ritos circenses que envolvem alguma perigosidade. Deixa-se cair presa só por um fio e trava mesma à beira do chão, volta a subir como se o ar tivesse degraus, é uma artista, a Carlota.
Até que uma destas noites, tive uma espécie de epifania: achei a aranha parecida com um destacado membro do governo regional. Não nas fuças, claro, nem sei se a Carlota tem cara, mas nos processos.
Este governante também teceu uma larga teia, de âmbito regional, onde tem presos uns milhares de cidadãos, uns por causa dos empregos fornecidos, outros dependentes dos rendimentos sociais que não inserem, outros ainda pelos favores recebidos.
Por outro lado, o poderoso é igualmente vaidoso, adorando exibir-se em acrobacias inacreditáveis, por vezes quase parecendo que se vai estatelar, mas logo subindo, preso por sedas invisíveis.
Será que se julga o homem aranha, este executivo de pequeno porte mas imensa desfaçatez?
Espero sinceramente que não. Porque no dia em que cair, quando a sua teia já não suportar mais o seu peso, vai voltar para a sua vidinha triste de pobre desprezado. Não terá à sua espera nenhuma beldade, a sorrir-lhe como a que acolhe o homem aranha verdadeiro, quando este cai dos seus arranha-céus. 
Post Scriptum: Quem conseguir descobrir quem é a personagem, ganhará um calipo de limão ou uma caixa de chocapic, à escolha. Mas só o primeiro que acertar, que não sou rico… Não sou rico, mas tenho os meus garajaus, que agora partem com promessas de regresso. Ah, e claro, tenho a minha Carlota…
António Bulcão
(publicado hoje, no Diário Insular)
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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