Aprender por nossa conta
É claramente a nossa primeira ação de rompimento. A entrada na escola corta com o casulo familiar típico do percurso imberbe. Há cerca de 40 anos, na Escola Infante D. Henrique (que, até por uma questão de memória afetiva, desejo nunca ser encerrada), calhou a mim.
Deixado na sala de aula pela mão da minha mãe, aguentei-me firme, sem chorar, ao contrário de alguns colegas mais assustados.
A professora Mimi transmitiu-me confiança e, desde logo, dei conta da necessidade de (embora sem conhecer o termo) interagir com o resto da turma.
A socialização escolar depende de cada aluno, que está impossibilitado de recorrer à influência dos pais e irmãos para o sucesso da tarefa.
Estamos por conta e risco, mas andar na escola é uma aventura renovada diariamente.
O colega de carteira era ditame da ordem alfabética dos nomes, enquanto que a escolha de amigos, inseridos normalmente em grupinhos, já competia a cada qual.
Aprendemos números e letras, desenvolvemos equações e redações, num abecedário que começa por ajudar a desvendar o futuro das aptidões.
Levei uma bolacha na 1ª classe (a falta de queda para o desenho era danada para me fazer cair), beliscões no ano seguinte (nem os cadernos de duas linhas socorriam a feia e descoordenada caligrafia) e safei-me a bolos no que restou da instrução primária.
Guardo na memória as canetas de feltro, lápis de pau, aparadores, borrachas verdes (das grandes), mata-borrões e toques da campainha para começo, intervalo e encerramento das aulas, além da amizade e carinho e de alguns dos companheiros na rota da sempre necessária aprendizagem.
No pátio, na hora do recreio, era para brincar aos berlindes, pião e macaca. Assunto mais sério traduzia-se nas jogatanas de futebol, onde ganhar era imperativo de carácter, mesmo à conta de nódoas nas pernas infligidas por caceteiros de maior arcaboiço físico.
Cumprimos com as nossas obrigações sem internet, computadores, máquinas de calcular, telemóveis, smartphones, tablets e todas as outras geringonças eletrónicas/informáticas que fazem as delícias dos miúdos de hoje.
E sabem que mais? Ainda bem que foi assim…


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